Chora o Tapajós, chora Alter do Chão
O paraíso na terra agoniza e para não ser tragédia consumada irá depender de muita mobilização mundial e da vigilância qualificada
Alter do Chão, em Santarém, é um desses pedaços do capricho da Natureza em gestos de ternura para com os humanos. Deveríamos diante do presente agradecer, conhecer, conviver e ser parte dos guardiões do lugar.
A força destrutiva carregada para a vila por gente de toda espécie faz exatamente o contrário: confronta a natureza. Querem a comercialização ampla e irrestrita nos mais diversos negócios. As cenas exibidas pela TV e nas redes sociais resumem o efeito de uma dessas ações, a da garimpagem, que por aproximadamente seis décadas se desenvolve e, hoje, revela nas águas dos rios Tapajós e Arapiuns o turvo dos ataques garimpeiros.
O paraíso na terra agoniza e para não ser tragédia consumada irá depender de muita mobilização mundial e da vigilância qualificada. O alcance dos estragos feitos ainda está em levantamento e nas projeções. Moradores da vila de Alter do Chão apresentam elevado índice de mercúrio no sangue e no rastro da contaminação estão flora e fauna. A água grita, pede socorro.
Tragicamente, não é evento isolado na Amazônia. O ano de 2021 bateu recorde de destruição da floresta em uma década. Os dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) indicam devastação de uma área de 10.362 Km², maior 29% quando comparada a extensão perdida no ano de 2020.
O Amazonas dentre os nove estados da região, é o segundo na lista dos que mais destroem a floresta e o nível de participação nesse ranking cresce vorazmente. O do ano passado alcançou 49% na comparação com o ano anterior. O Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), do Imazon, mapeou que tanto as áreas públicas federais quanto as estaduais estão sendo devastadas.
Paisagem naturalizada
Os números e as imagens do processo de destruição da Amazônia estão sendo remetidos à formação de paisagem naturalizada como se representasse um sim da sociedade local/nacional à política oficial de despersonalização da floresta abrindo-a completamente a projetos de exploração de qualquer ordem.
Os governos demonstram falta de interesse em seguir a legislação vigente e escancaram a disposição de deixar acontecer a derrubada das árvores, os incêndios, a ação garimpeira ilegal. O ato destruidor é realizado sem dificuldade e sob o silêncio das autoridades públicas numa espécie de pacto pela invasão e fim da floresta.
O estado democrático de direito está tão encolhido no Brasil que é difícil percebe-lo se expressando. A anemia o que o atinge se reflete nas representações da sociedade ao respaldarem, em momento crucial da história brasileira, o desmantelamento de estruturas fundamentais ao vigor do estado democrático e os atos destrutivos dos povos, da flora e da fauna amazônicos.
Desnaturalizar o projeto destruidor da região é a batalha para a qual estamos sendo chamados a agir em alianças criativas que enfrentem no local, no regional, no nacional e mundial a normalidade de um crime que muda a cor do rio Tapajós e entope a gente e os peixes da Amazônia de mercúrio numa sentença de morte.
Foto: Observatório do Clima/Divulgação