Manaus ter, 3 nov
A Crítica
Opinião

O título e as causa de Marcus Barros

O Riozinho da Liberdade, no Juruá, permaneceu em Marcus Barros que faz do aprender a liberdade um exercício diário

Publicado em 17/11/2021 às 11h55 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h45
O título e as causa de Marcus Barros

O homem Marcus Luiz Barroso Barros, 74, irá fazer o quê com o título recebido, na terça-feira (16), da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM)? Trata-se da mais alta honraria do Poder Legislativo Estadual. Outorgá-la exige negociações entre os membros da Casa e deles com os laços da relação de poder que articulam ou dos quais são reféns.

Desconheço a resposta que o Prof. Marcus Barros daria à pergunta. De imediato, a proposta apresentada pelo deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) cumpre algumas necessidades acumuladas: poderá significar o reinício do processo de reconciliação do Poder Legislativo do Amazonas com a sociedade amazonense e amazônida; acolher, em meio ao vendaval da insensatez, a ideia de respeito escondida em gavetas oficiais enquanto o desrespeito se faz regra de atuação; reconhecer publicamente a importância da pessoa Marcus Barros para o Estado do Amazonas; agradecer, na forma justa e bela, uma existência comprometida com o bem-viver dos povos amazônicos; comprometer-se, enquanto Poder Legislativo, com as grandes causas do Amazonas e da Amazônia, como fez e faz o homenageado.

A entrega do título constituiu-se de momento singular. Aquele ato teceu outras mensagens para além do relógio da cerimônia e de protocolos previsíveis. Tornou-se oportunidade de acionar a memória, recolher relatos, fragmentos da história de vida do homenageado e ampliar a circulação do que foi possível reunir. Marcus Barros é testemunho de vida dedicada em vários campos e nas adversidades.

Perto de completar 50 anos de formação como médico, da segunda turma de medicina saída em 1972, Marcus Barros agregou à pele e ao coração outras atividades por meio das quais enlargueceu o pensar e o agir médicos, enfim os atos da medicina. O que tem a ver a economia, as condições de moradia, de transporte, de alimentação, a ecologia com as doenças, a infelicidade ou a perda da dignidade das pessoas?

São questões inscritas no protocolo do médico Marcus Barros, há muitas décadas. Possivelmente, por não ter ignorado o histórico de vida do avô Passarinho, porque prestou muita atenção – como lição especial – na vivência com os Tikuna quando atuou na região do Alto Solimões. Ali nasceu uma amizade de admiração e lutas mútuas com o cacique Pedro Inácio Pinheiro, falecido em 2018, um gigante nas lutas no Noroeste do Amazonas pelos direitos indígenas. Com os yanomami, outra vivência histórica.

O administrador Marcus Barros carregou esse jeito de ser para todas as outras funções exercidas. Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), como reitor, em período emblemático (1990-1993) deu tempero à noção de interiorização da universidade. Levou o olhar clínico e os pró-reitores a municípios do Alto Solimões, do Alto Rio Negro, do médio Amazonas, para ouvir as comunidades, os professores e prefeitos. 

Dessa incursão nasceram projetos fundamentais no processo de enraizamento da Ufam. Onze municípios formaram o território onde a raiz da universidade seria semeada e onde ocorreram ações coordenadas para a formação de professores, o combate ao analfabetismo e instalações de cursos que atendessem as demandas locais.  E de outras, como o HUGV, a direção da ADUA, o escritório da FIOCRUZ, resiliência no cuidar das dores e das aflições outros, pacientes cadastrados ou não, na solidariedade com os mais fragilizados e na firmeza da escuta e dos critérios para fazer escolhas.

O Riozinho da Liberdade, no Juruá, permaneceu em Marcus Barros que faz do aprender a liberdade um exercício diário como pesquisador, professor, médico, companheiro. O Riozinho está acossado. Tem um plano de morte em realização por lá. Por aqui, Marcus Barros maneja o título em favor da vida desse rio por onde outras vidas humanas e não humanas, se intercruzam e travam a batalha pelo direito de existir decentemente.