Pedras e afetos
Há um tipo de tempero feito das pequenas atitudes. É ele que faz enfrentar a dor dessa saudade sem calendário.
Nos caminhos sobre pedras brotam afetos. Nas brechas das pedras da estrada do mundo aparecem raízes de mudas do afeto. Algumas foram pisoteadas e, insubordinadamente, bebem gotas da água da vida para brotarem nas mesmas brechas ou noutras brechas e se posicionarem como seres vivos em formato de fonte/ponte.
Dona Rita é uma dessas árvores sobrevividas. Teimou em se manter viva, aprofundou as raízes, cresceu tanto que agora é árvore frondosa, com muitos galhos acolhedores, cada um de um jeito, de uma cor, juntos são arco-íris. Quem a conhece sabe do encanto da fala, da sabedoria e do respeito sereno que a traduz em nove décadas de vida.
A dor das perdas nesse tempo vivido a marcou e, mais agasalhada, permitiu seguir distribuindo cuidado aos humanos e não humanos que dela se aproximam. Um aperto de mão, um abraço que fala (agora em suspensão) irradiam vida. Por enquanto, o sorriso cumpre amorosamente a função de comunicar doçura e cuidado para com o Outro.
Em Dona Rita tantas Ritas, Raimundas, Franciscas, Júlias, Rosas, Helenas.., vivem, multiplicam-se e espalham raízes de resiliência do bem-viver entre as pedras atiradas, tantas foram que formaram imensas áreas de sofrimento onde os humanos habitam. Seus gestos falam da valorização da vida, questionam a coisificação do viver na conjugação do ter, ofertam amor como sementes em campos do ódio.
Essas Ritas espalhadas por aí, sem saber, teceram fios e os lançaram longe ao ponto de nos alcançar. A leitura dos fios faz revelações animadoras da alma apertada diante das feridas abertas. Desvendar os fios da escrita de Ritas pede tempo diferente que se completa no ato de escuta: o que quer me dizer esse olhar dela? O que quer me dizer esse sorriso largo? E a promessa do abraço agora desenhado em minha direção?
Há um tipo de tempero feito das pequenas atitudes. É ele que faz enfrentar a dor dessa saudade sem calendário, dessa ausência que a fotografia não aplaca e da tristeza de não mais poder marcar encontros. E do lidar com o culto a desesperança e ao fanatismo de todas as ordens.
É nesse tempero de Ritas que alimento meu corpo e meu coração para seguir no caminhar entre pedras reavitalizando a utopia de que, juntos/as, possamos superar o estágio dos horrores a que estamos submetidos por querermos liberdade, diversidade, vida digna a maioria das pessoas e dos povos postos à margem; por insistirmos na pluralidade diante do pensamento único e do autoritarismo que segue em porções do pacto das motocicletas que, por vezes, transportam a morte.
Afeto tem muitos significados. Nenhum dele contempla a compreensão de percebê-lo brotado, agindo. Pede experimentar, deixa-se banhar nele e seguir espalhando-o entre as pedras, as fendas do asfalto, nas fissuras da vida, como faz Dona Rita.