Perguntar ofende?
O silenciamento imposto pela ditadura e o autoritarismo são parte da história brasileira e permanecem entranhados nas instituições públicas
As agressões psicológicas – ou agressões emocionais – como estabelece a Lei nº 11.340/2006, “Lei Maria da Penha”, contra mulheres jornalistas têm sido recorrência no trato de autoridades públicas do Amazonas com repórteres no exercício profissional.
Uma das principais motivações para o agir da violência pelo agente público contra repórteres mulheres é o ato de perguntar. Pior, se a repórter insistir na pergunta não respondida. Não apenas a autoridade pública se manifesta em atitude agressiva quanto por determinados servidores que por correspondência entendem ser responsabilidades deles ‘defender’ seus senhores agredindo as repórteres.
Agredir jornalistas não é algo novo ou desse tempo de cultura de violência. É histórico. Desde o tempo em que ser jornalista mulher era atravessar uma fronteira proibida e pagar o preço elevado da invisibilidade, roupagem para encobrir a ocorrência de inúmeras violências de gênero e mantê-las em vigência. O que ora se constata é a tentativa de agentes públicos em tornar regra a postura de agressão psicológicas e físicas das autoridades públicas nas entrevistas coletivas por elas próprias acionadas.
Perguntar é um dos fundamentos da entrevista que no jornalismo tem a função de levar a público uma informação (de relevância e de interesse público). Imaginemos numa coletiva convocada por um secretário de Estado ou do Município, pelo governador, prefeito, presidente da Assembleia Legislativa, da Câmara dos Vereadores ou presidente da República e todos os/as jornalistas permanecessem em silêncio. Não o silêncio/ silenciamento imposto pela ditadura e o autoritarismo que são parte da história brasileira e permanecem entranhados nas instituições públicas e até mesmo em determinadas instâncias e práticas jornalísticas. E sim o silêncio por outras motivações, do assujeitamento ao posicionamento político.
Ainda assim seria possível elaborar uma matéria e mencionar a entrevista coletiva pedida por A ou B a partir das leituras de ambientes, da performance do entrevistado e da declaração por ele feita. Também é possível elaborar o lide da matéria e apresentar as perguntas formuladas por jornalistas e não respondidas pelas autoridades públicas.
O perfil de autoridades públicas se enquadra no espaço do autoritarismo em convergência crescente com o fanatismo religioso. Nas coletivas de imprensa e na relação cotidiana dessas autoridades com a mídia, o desrespeito e a violência são elementos presentes. Quando são mulheres no exercício da reportagem e na edição das matérias a conduta de agressão emocional é recurso usual.
Prestar atenção nesse tipo de postura é uma das emergências tantos aos profissionais jornalistas que respeitem a liberdade e a autonomia quanto aos agentes públicos interessados em superar um determinado e deplorável estágio de atuação pública profundamente nocivo à sociedade. Jornalistas e servidores públicos são parte da sociedade e estão, ambos, comprometidos com o bem público, com deveres constitucionais. Quando aspectos dessa ordem são abandonados, pelas partes, para prevalecer a relação apodrecida das condutas onde são abrigadas as violências contra as jornalistas e asfixia ainda mais a democracia brasileira. As perguntas feitas nas entrevistas coletivas respondias com agressão equivale a golpear direitos consolidados e que hoje algumas autoridades querem eliminar.
As repórteres agredidas por autoridades públicas que sigam perguntando, denunciem os agressores e mantenham o respeito ao Jornalismo. Os que agridem, em geral, querem silenciar e impor uma verdade.