Manaus sex, 23 out
A Crítica
Opinião

Por uma pauta concreta no combate à fome

Publicado em 28/06/2023 às 19h28
Atalaia do Norte (AM), 28/02/2023 - Movimentação no porto de Atalaia do Norte, que recebe indígenas de comunidades do Vale do Javari. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O gaúcho Cezar Santos Alvarez, assessor especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), pediu os nomes dos presentes e fez muitas anotações durante encontro de escuta em Manaus, no dia 24. Admitiu: “é muita coisa”, após três horas de audiência com representantes de diferentes setores (catadores de lixo, agricultores familiares, indígenas, professores, pesquisadores, da economia solidária, do Ibama, Incra, MDA).

Sim é. A maioria das 60 pessoas presentes, convidadas para o encontro, tinha em comum um engasgo diante do ‘caminho errado’ do Amazonas na tomada de posição em defesa e realização de desenvolvimento ecologicamente sustentável. Incomoda a esse grupo o alheamento do Estado em relação a eventos como a Cúpula da Amazônia (ou a IV Reunião de presidentes dos Estados Partes no Tratado de Cooperação Amazônica -OTCA), a realizar-se no mês de agosto em Belém, e da Conferência do Clima (COP 30), em 2025, a primeira na Amazônia.

Uma das articuladoras do encontro com o assessor da FAO, a professora e pesquisadora Marilene Correa da Silva Freitas elencou pontos para o debate e tomada de posição. Alguns deles: A fome assombra a Amazônia, há 50 anos a preocupação era com a região Nordeste; os órgãos responsáveis pelo desenvolvimento não alcançaram a Amazônia profunda; o mapa da fome em Manaus é escandaloso; as políticas públicas traduzem a precariedade com que são executadas na região.

O físico Ennio Candotti, diretor-geral do Museu da Amazônia (MUSA) disse que o discurso de avanços na Amazônia não faz parte dos discursos ambiental e sustentável, falta articulação capaz de envolver as esferas federal, estadual e municipal. Para o pesquisador, a realidade da Amazônia não está sendo considerada nos encontros de Belém, o de agosto e o da COP30.

A fome na Amazônia e, particularmente no Amazonas, ganhou destaque nas falas dos convidados. A professora e pesquisadora Iraíldes Caldas mencionou a existência de mais de um milhão de pessoas vivendo em situação de insegurança alimentar no Amazonas. “A Amazônia é uma região assaltada. Por que a FAO não se faz presente aqui?” quis saber Caldas. E, de acordo com os dados do físico e escritor Marcílio de Freitas, são 600 mil em miséria profunda no Estado. “Não dá para teorizar sobre a fome, os alimentos precisam chegar aos famintos”, observou ao classificar como errado o modelo de desenvolvimento estadual.

Para Bonifácio Baniwa, os indígenas da região estão sendo vistos pelo governo por meio de drone. “Eles precisam melhorar o drone que usam para nos ver de mais perto, nos sentir”. “O que queremos é que nós, da Amazônia, sejamos ouvidos. Nesta região tem um mapa da fome diferenciado e uma logística diferenciada que precisam ser considerados e levados a sério”, disse a secretária de Mulheres do PT, Anne Moura,

O bloquinho de anotações de Cezar Alvarez ficou cheio. O consultor lembrou da importância estratégica de monitorar as políticas públicas e que quem manda na FAO são os governos dos países. É uma indicação de pauta a ser defendida pelos movimentos sociais, a academia, as organizações da agricultura familiar e de tantos outros setores junto ao governo do Brasil. “A FAO está comprometida”, afirmou Alvarez.