Tecendo redes na Amazônia
O aniversário da Copiar é uma viagem, com paradas para agradecer e celebrar a passagem pela terra de professores indígenas e eternos lutadores da causa indígena
Há 32 anos, por iniciativa dos professores indígenas do Alto Solimões, nascia a Comissão de Professores Indígenas do Amazonas, Acre e Roraima (Copiar). No ano seguinte, a Comissão liderou a luta pela educação escolar indígena específica, diferenciada bilíngue e de qualidade. Ontem, professores indígenas co-fundadores da Copiar em 1988, e professores mais jovens, reuniram-se virtualmente no Seminário “32 anos Copiar” com participação de representantes dos Estados do Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia e Pará.
Neste outubro, o aniversário da Copiar – árvore frondosa geradora de vários filhos e filhas – é uma viagem, com paradas para agradecer e celebrar a passagem pela terra de professores indígenas e eternos lutadores da causa indígena como Fausto Mandulão Macuxi, Nino Fernandes Ticuna, Chiquinho Mura; e elaboração de roteiro para seguir em frente. Há pouco mais de três décadas a Copiar falava pela voz dos homens, corpos e almas de homens brigavam contra estruturas gigantescas de negação do direito dos povos indígenas a educação escolar diferenciada. Estavam na linha de frente em nível nacional. Hoje, a maioria dessa gente que luta pela educação escolar indígena digna é de mulheres. Das 70 pessoas (número dançante na conexão virtual) mais da metade eram mulheres educadoras que por caminhos diversos banharam-se nas águas da Comissão.
Organizado pelo Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (FOREEIA-AM), com apoio da Frende de Amazônica de Mobilização dos Direitos Indígenas (FAMDDI), da Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR) e da Organização de Professores Indígenas do Acre (OPIAcre), o seminário se constitui em um marco na história da organização dos professores indígenas. De olho nas experiências desenvolvidas pela Copiar (posteriormente Conselho dos Professores Indígenas da Amazônia – Copiam), o encontro de 6 de outubro deste ano encerrou apontando para o tecimento de outros modelos de conexões das lutas dos professores indígenas como a confecção de uma rede-projeto de ação educacional indígena na Região Amazônica.
“A educação é uma fonte e é uma ferramenta para nos ajudar a defender nossos direitos”, disse a deputada federal Joênia Wapichana (RR), ao conversar com os participantes do seminário. Citou a mãe que costumava dizer aos filhos: “vamos para a escola porque a escola ajuda a gente a melhorar de vida”. Joênia foi à escola e se tornou a primeira advogada indígena a exercer a profissão no Brasil e primeira mulher indígena eleita para o Congresso Nacional.
Membro fundador da Copiar, do FOREEIA e da FAMDDI, o pesquisador Gersem dos Santos Luciano Baniwa, professor da Universidade Federal do Amazonas, e um principais organizadores do seminário “32 anos Copiar”, definiu o encontro como momento contínuo de “celebração de muitas lutas e vitórias. Pensemos no que era a educação escolar indígena antes de 1988 e o que conquistamos”. É para perder as conquistas e ampliar direitos que outra rede indígena está sendo tecida tendo como fios a educação e os educadores indígenas da Amazônia. Afinal, como observou Gersem Baniwa ao encerrar o encontro: “as conquistas impõem novos desafios”. Os educadores indígenas falaram do ânimo e da utopia que os fazem desafiar obstáculos e seguirem adiante erguendo outros pilares na educação escolar indígena a partir dos perspectivismos indígenas.