UFAM e o poder do agora
Selo de 113 anos nos remete a refletir sobre o que é a universidade, que compromissos honra e qual é o plano de futuro trabalhado no presente
A Universidade Federal do Amazonas comemora 113 anos de história este mês. A data – 17 de janeiro de 1909 – faz referência a transformação da Escola de Instrução Militar do Estado do Amazonas em Escola Universitária Livre de Manáos, origem da atual UFAM. Para além das controvérsias a respeito da referência fundacional da universidade, é esse o marco utilizado institucionalmente e pela maioria de nós, estudantes e servidores.
O selo de 113 anos da UFAM nos remete a refletir sobre o que é a universidade, que compromissos honra e qual é o plano de futuro trabalhado no presente. A questão central passa necessariamente pelo esclarecimento contínuo de duas perguntas: qual é a função da universidade? A quem serve a universidade?
Não são respostas fáceis. Por isso, a exigência de persistente e irreverentemente fazermos esses questionamentos enquanto estudantes, professores, pesquisadores, técnicos administrativos e marítimos, enquanto parte da comunidade universitária. A morada das respostas está nesse manejo das formulações e também na percepção das sociedades amazonense e amazônica a respeito dos compromissos da instituição universitária pública e gratuita.
Se são aceitos os 113 anos como percurso histórico da UFAM, os rastros, o material existente, a memória viva e os recursos humanos da instituição ou a ela vinculados representam acervo monumental para pensar o presente e posicionar os desafios na tarefa de construir o futuro.
A universidade no jogo globalizado do capital assumiu o perfil de empresa caçadora de lucros. Os formatos desses espaços são cada vez mais baseados na noção empreendedora aqui empregada pela essência capitalista onde o fracasso é problema do fracassado pela incompetência em competir. Os pactos feitos mundialmente em torno do empreendimento universidade distanciam a dimensão sociopolítico da instituição. No Brasil, as teias desse arranjo estão em expansão e aplicam o discurso oficial da naturalização do processo. Seguir nesse caminho é ameaça real em realização.
Em regiões, como a Amazônia, a universidade tem função estratégica fundamental. Reside nela a missão a ser apreendida e compartilhada na comunidade. Não pode ser apenas a placa esquecida pendurada na sala do dirigente. A formação de massa crítica regional/local e de recursos humanos capacitados para atuar nas diferentes áreas do conhecimento são deveres de base. E mais: a UFAM, 113 anos depois, necessita enfrentar alguns déficits de posicionamento, exemplo: em relação aos povos indígenas permanece o distanciamento. Postura no mínimo equivocada, pois, a aliança da instituição com os povos originários significa vencer um perfil de universidade para abrigar inúmeros laboratórios dos conhecimentos como expressão da riqueza pluriétnica de existência singular nesta região.
Os indígenas, os negros e os quilombolas, os povos amazônicos ainda acessam a universidade por janelas estreitas porque nas portas de acesso residem obstáculos de concepção sobre quem deve ter acesso à universidade.
Responder sobre o plano de futuro da UFAM reivindica perceber o presente da instituição, identificar os gargalos, o porquê da existência deles, avaliar as alianças feitas e questionar os silenciamentos diante de questões relevantes para o Amazonas e a Amazônia. É reanimar a cara do fogo por onde a luz se manifesta e nadar nas águas diferentes dos rios daqui análogos aos nutrientes da resiliência contra o projeto oficial de enquadrar a universidade federal.