Um ser chamado Pepe Mujica habitou entre nós
Tivemos o privilégio de poder acessar um ser de luz. Tivemos a oportunidade de aprender sobre determinação e boa vontade.
José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, Pepe Mujica, faria 90 anos no próximo dia 20 de maio. Encantado antes de inaugurar o novo ciclo, esse ser humano terá festa na outra dimensão e irá cantar, dançar, sorrir com essa carinha afável em meio aos espíritos bons. Tem sensação de tristeza em saber da ausência de Pepe na Terra e uma alegria agradecida por termos visto, escutado, acompanhado um pouco de uma pessoa especial.
Tivemos a honra de tê-lo conosco. Tivemos o privilégio de poder acessar um ser de luz. Tivemos a oportunidade de aprender sobre determinação e boa vontade. O mundo terreno teve por 89 anos um passageiro chamado Pepe Mujica. Fica o legado para quem tiver coragem de sentir e seguir as pegadas.
A mídia informa sobre a última postagem de Pepe. Ao tomar conhecimento da morte de Papa Francisco, no dia 21 de abril, dia da Páscoa, ele escreveu: “Francisco não passou pela vida como um homem neutro, mas como um homem religioso comprometido com seu modo de pensar e sentir {…} Não é apenas uma posição que pode ser defendida a partir de uma perspectiva religiosa. É também uma postura política em relação à distribuição de riqueza e às muitas dificuldades enfrentadas pelos setores mais vulneráveis da nossa sociedade. Eu honro e nunca esqueço este Papa, que, acima de tudo, tinha uma causa humana formidável pela qual viver.”
Duas luzes que peregrinaram neste mundo, conheceram as ditaduras e fizeram a opção radical pelo amor. Como luzes em meio ao ódio, à brutalidade, ao materialismo extremado, à ganância e à indiferença, se deixaram conduzir pela generosidade e a firmeza de seus propósitos como viventes neste planeta.
O sentido da vida em Pepe foi a causa do mundo, fazer com que o mundo fosse um pouco melhor e o “ser feliz com pouco”. Agricultor, trabalhador desde muito jovem, o político honrou a política como presidente do Uruguai, parlamentar, servidor público. Honra a América Latina. E nos tempos de prisão – 15 anos (1972 a 1985) – torturado, aprendeu ou talvez tenha aprofundado a comunicação com os não humanos. Disse que escutava a formiga, companheira de sela, e costumava guardar sobras de pão para alimentar uma ratazana que costumava visitar o local.
Teremos muitas páginas para ler sobre esse ser. Outras tantas se abrirão a partir dele como necessidade vital nossa para temperar e significar nossas lutas, nossas utopias. Pepe tem tantas falas marcantes como pedaços da demarcadora vida desse homem. Nesse tempo de abuelo tornou-se querido e buscado pelos jovens ávidos por algo novo e nele encontravam o prazer de dialogar, de escutar, de sentar juntos, de rascunharem o sentido de viver.
Cada frase escutada em meio aos conflitos da sociedade global e latino-americana é desafio e é acalanto:
“Escolhi esse estilo de vida austero, escolhi não ter muitas coisas, para que eu tenha tempo de viver como quero viver.”
Ou “arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.”
Descansa, Pepe Mujica, seu amor é semente.