Paris e Manaus: a torre fake (final)
O exemplo mais emblemático foi o do Palácio do Governo, cuja construção seria iniciada no ponto alto da atual avenida Eduardo Ribeiro.
Por Júlio Antonio Lopes Advogado e jornalista*
Como costuma acontecer com grandes reformadores, Eduardo Ribeiro enfrentou intensa oposição política. Muitos historiadores sustentam que essa perseguição contribuiu para o agravamento de sua enfermidade e para sua morte prematura, até hoje cercada por controvérsias. Quanto às hipóteses de suicídio ou homicídio.
Seus adversários empenharam-se em apagar sua memória. Algumas obras por ele planejadas jamais foram concluídas, repetindo uma prática infelizmente comum entre governantes: abandonar os projetos dos antecessores. O exemplo mais emblemático foi o do Palácio do Governo, cuja construção seria iniciada no ponto alto da atual avenida Eduardo Ribeiro. O edifício teria dimensões ainda maiores que as do Teatro Amazonas. A obra acabou sendo dinamitada, causando enormes prejuízos aos cofres públicos. Anos depois, no mesmo terreno, edificou-se o Instituto de Educação do Amazonas (IEA).
Não houve êxito, entretanto, nessa tentativa de rifá-lo Eduardo Ribeiro da história. Seu legado era grande demais para ser esquecido. Não podendo suprimi-lo da memória coletiva, recorreram a toda sorte de estratagemas e de ataques à sua honra, à sua saúde mental, à sua honestidade, à sua cor e às suas origens familiares.
Paradoxalmente, alguns dos que mais o combateram procuraram apropriar-se da força simbólica de seu legado. Foi o caso do governador Constantino Nery,, o qual chegou, inclusive, a liderar um movimento militar para o depor, que restou frustrado. Durante sua gestão, em suposta celebração à visita do presidente da República Afonso Pena a Manaus, em 1906, foi erguida entre o Palácio da Justiça e o Teatro Amazonas uma réplica em madeira da Torre Eiffel. No alto da estrutura, lia-se em letras garrafais: “SALVE Dr. A. Constantino Nery”.
A ironia histórica é evidente. Os irmãos Silvério e Constantino Nery jamais pouparam críticas aos investimentos realizados por Eduardo Ribeiro para modernizar e embelezar Manaus, para torná-la a Paris dos Trópicos. Ainda assim Constantino utilizou um dos maiores símbolos da Paris que Eduardo sinceramente admirava, para tentar promover-se.
Daquela Torre Eiffel de madeira nada restou. Infelizmente, também pouco restou da chamada Paris dos Trópicos. Da Pérola do Rio Negro, daquele diamante lapidado por Eduardo Ribeiro, sobreviveram apenas fragmentos.
O abandono de prédios históricos, o esquecimento da memória coletiva, os igarapés transformados em esgotos, as avenidas desprovidas da arborização que um dia lhes conferiu sombra e beleza, a expansão urbana desordenada, o trânsito caótico e tantos outros problemas revelam o enorme desafio que ainda se impõe aos governantes e à própria sociedade amazonense. As cidades, como os povos, também possuem memória. Quando ela é desprezada, perde-se também identidade, autoestima e pertencimento.
Paris continua reconhecendo Haussmann em cada boulevard, em cada praça e em cada perspectiva urbana que atravessa a cidade. Manaus, por sua vez, ainda precisa reencontrar Eduardo Ribeiro não apenas nas estátuas, nos livros de História ou no nome de sua principal avenida, mas, sobretudo, na visão de futuro que fez da antiga aldeia amazônica uma das cidades mais admiradas de seu tempo.
Talvez a maior lição que a Belle Époque tenha nos deixado é a de que o progresso nasce quando governantes têm coragem de sonhar, competência para planejar e determinação para executar, quando, enfim, transformam pensamentos e palavras em AÇÃO. Espero que possamos reencontrar esse espírito, porque Manaus já provou, um dia, que era capaz de fazê-lo.