Manaus entre a febre e o azul
No cinema, a cidade é memória, conflito e deslocamento, e vai além da paisagem
Manaus faz aniversário e, como toda cidade que chega a uma data importante, talvez prefira receber homenagens com alguma desconfiança. Cidades grandes aprendem cedo que discursos comemorativos costumam esconder os buracos da rua, o preço da passagem e a distância entre o cartão-postal e a vida cotidiana. O cinema recente encontrou uma maneira mais interessante de falar sobre Manaus: observando seus corpos, seus ruídos e suas contradições. Em A Febre, Antes o Tempo Não Acabava e O Último Azul, a cidade surge direta ou indiretamente como espaço amazônico atravessado por indústria, migração, desejo, envelhecimento e memória. Cada filme recusa a paisagem imóvel e prefere acompanhar pessoas tentando descobrir onde ainda conseguem caber.
Há uma imagem de Manaus que o cinema brasileiro demorou a abandonar: a cidade como entrada pitoresca para uma floresta intocada, com um teatro no centro e uma aventura esperando atrás da próxima árvore. Os filmes de Maya Da-Rin, Sérgio Andrade, Fábio Baldo e Gabriel Mascaro seguem por outra direção. A floresta continua presente, porém convive com porto, contêineres, ruas, hospitais, fábricas, quartos apertados e terminais de transporte. Manaus aparece como cidade concreta, atravessada por formas de trabalho e por conflitos que pertencem ao presente. O Amazonas deixa de funcionar como cenário distante e passa a participar da narrativa como força política, histórica e afetiva. A selva, quando surge, também escuta os personagens.
Em A Febre, Maya Da-Rin acompanha Justino, um homem Desana que trabalha como vigia no porto de Manaus. Viúvo, pai de uma jovem prestes a partir para Brasília e cada vez mais deslocado entre a floresta e o ambiente industrial, ele adoece de uma febre difícil de explicar. A doença atravessa o corpo, a cultura e a cidade. O porto organiza o espaço com contêineres e estruturas metálicas, enquanto a mata ao redor guarda sons, histórias e uma presença que a racionalidade urbana não consegue domesticar. Justino circula entre esses mundos com uma dignidade silenciosa, como alguém que perdeu a facilidade de chamar qualquer lugar de casa. Manaus, aqui, é o lugar onde a modernização produz movimento e também desorientação.
O filme de Da-Rin entende que a febre de Justino possui dimensões íntimas e políticas. A filha encontra na cidade oportunidades que o pai já não consegue enxergar, enquanto ele enfrenta o racismo cotidiano, a solidão e a pressão de uma urbanização que exige adaptação permanente. A narrativa acompanha tudo com calma, permitindo que os ruídos do porto e da floresta disputem espaço com as falas. Há até um humor discreto na peregrinação do personagem por diagnósticos médicos incapazes de alcançar sua experiência. O mistério de A Febre ganha força justamente porque permanece ligado ao cotidiano. A doença pode ser sintoma, memória, deslocamento ou chamado. Em Manaus, cada possibilidade parece carregar uma parte da verdade.
Antes o Tempo Não Acabava, dirigido por Sérgio Andrade e Fábio Baldo, acompanha Anderson, um jovem indígena que vive em Manaus entre empregos, desejos e conflitos com tradições familiares.