Somos reféns da fumaça
Festas como Boi Manaus, celebração gospel e show de aniversário não ocorrerão neste ano.
Amanhã, dia 24 de outubro, a cidade de Manaus completará 357 anos de fundação, mas os tradicionais festejos pelo aniversário da capital foram cancelados pela Prefeitura devido à qualidade do ar. Festas como Boi Manaus, celebração gospel e show de aniversário não ocorrerão neste ano. A Prefeitura argumenta, de maneira acertada, que a prioridade é preservar a saúde pública, atendendo orientações de autoridades como Defesa Civil e Secretaria Municipal de Saúde.
É verdade que as condições do ar mostraram sensível melhora nos últimos dias, muito em razão das chuvas que têm caído sobre a capital e região metropolitana. Mas o verão amazônico continua e podemos esperar, nas próximas semanas, por dias extremamente quentes e secos, intercalados por pancadas de chuvas.
O perigo da poluição atmosférica causada por fumaça de queimadas não acabou e requer cautela. Os incêndios criminosos continuam e não podem ser jamais normalizados. Muitas ocorrências acontecem na Amazônia profunda, em municípios longínquos, e nem chegam a ser levadas às autoridades. Em muitos casos, criados de gado veem no tempo seco a oportunidade para abrir pasto por meio do fogo, sem tomar os cuidados necessários para evitar que a queimada saia do controle. Isso sem falar nos incêndios iniciados sem nenhum motivo aparente por pessoas sem qualquer noção de responsabilidade ou empatia.
O poder público tem se mobilizado: prefeituras oferecem recompensas por denúncias contra queimadas, a Polícia Federal abre inquéritos, o Ipaam aplica multas, pessoas são presas… Mas tudo isso parece insuficiente.
O fato é que as queimadas deste ano já deixaram milhares de crianças sem aulas presenciais; comprometeram a saúde das pessoas; destruíram áreas de mata que talvez nunca sejam mensuradas; e privaram os manauaras de celebrar o aniversário da cidade em que vivem. Temos o dever de memória em relação a tais fatos. Em dezembro, quando a estação chuvosa se consolidar de fato, há o sério risco de tais crimes serem esquecidos, deixados para lá, até o que o novo ciclo de queimadas comece no segundo semestre de 2027. Os infratores contam com isso. É preciso fechar o cerco, endurecer leis, punir efetivamente. O crime não pode prevalecer.