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A Crítica
Economia

A digitalização da saúde esbarra em informações que continuam separadas

Engenheiro de software Gabriel Vaz Aires analisa os desafios de integrar registros de estoque, materiais cirúrgicos e faturamento

Publicado em 15/10/2026 às 16h31
A digitalização da saúde esbarra em informações que continuam separadas
Foto: Divulgação

A presença de sistemas eletrônicos nos serviços de saúde brasileiros ainda convive com documentos em papel. Segundo a pesquisa TIC Saúde 2025, 92% dos estabelecimentos que utilizaram a internet tinham sistemas para registrar informações dos pacientes, mas 55% mantinham esses registros divididos entre os dois formatos. A coexistência ajuda a explicar por que parte da conferência continua dependendo da busca e da comparação manual de documentos.

Na gestão de materiais cirúrgicos, há uma dificuldade adicional: estoque, autorização, entrega e faturamento registram etapas diferentes de uma mesma operação. Mesmo quando essas informações estão digitalizadas, é preciso estabelecer correspondências entre elas para saber o que foi solicitado, enviado ao hospital, utilizado ou devolvido.

“Ter a informação no computador não significa que ela esteja disponível para quem precisa conferir uma operação. Se a equipe ainda tem que procurar documentos em lugares diferentes e comparar tudo manualmente, há um problema de integração a resolver”, explica Gabriel Vaz Aires, engenheiro de software com cerca de dez anos de experiência em tecnologia e atuação no desenvolvimento e na gestão de sistemas para o setor de saúde.

A dimensão financeira torna essa conferência relevante. Uma previsão da Agência Nacional de Saúde Suplementar registrou R$ 126,4 bilhões em despesas assistenciais no primeiro semestre de 2026 entre 214 operadoras. Na amostra, essas despesas corresponderam a 82,2% das receitas das operações de saúde. No mundo, os gastos com saúde somaram US$ 9,8 trilhões em 2022, segundo a Organização Mundial da Saúde. Os números abrangem o conjunto da assistência, não apenas materiais cirúrgicos.

Foi sobre a relação entre esses registros que Gabriel trabalhou na Ortopédica Tocantins. Ele desenvolveu e estabeleceu uma metodologia de controle e rastreabilidade de órteses, próteses e materiais especiais, conhecidos como OPME, integrando estoque, agendamento de cirurgias e confirmação de uso. Os mecanismos de validação permitem confrontar autorizações, materiais entregues e faturamento.

“Uma entrega não comprova que todos os materiais foram utilizados. Parte pode retornar ao fornecedor. A metodologia organiza essas etapas para que a equipe consiga acompanhar o destino dos itens e verificar o que sustenta a cobrança”, afirma.

O trabalho também incluiu a revisão dos módulos de relatórios, com ajustes no banco de dados e eliminação de consultas redundantes. Com cerca de dez anos de experiência em desenvolvimento, administração e segurança de sistemas, Aires passou a integrar a sociedade da empresa após a implantação desse trabalho.

A conferência precisa preservar diferenças que fazem parte da operação. Um material ainda aguardando devolução, por exemplo, não deve ser confundido com uma perda. Da mesma forma, uma divergência entre autorização e cobrança exige examinar os documentos antes de concluir que houve uso indevido ou erro de faturamento.

“O sistema precisa ajudar a explicar a diferença. Se três unidades foram entregues e duas utilizadas, onde está a terceira? Ela voltou, está no hospital ou aguarda conferência? Essa resposta precisa estar registrada”, diz Aires.

Informações incompletas podem contribuir para glosas, as negativas de pagamento, embora questões contratuais e de cobertura também estejam envolvidas. Identificar a origem da pendência permite distinguir o que pode ser corrigido documentalmente do que exige outra análise.

“Automatizar uma conferência sem definir o significado de cada registro pode apenas repetir o erro mais depressa. Primeiro, precisamos estabelecer o que cada etapa representa e quem confirma aquela informação”, explica.

Essa experiência orienta o projeto de uma empresa de tecnologia para saúde que Gabriel planeja estabelecer no Texas. A proposta prevê soluções de integração para hospitais e fornecedores, com acompanhamento de materiais cirúrgicos e conferência documental. O objetivo é diminuir lançamentos repetidos e facilitar a localização de pendências entre organizações que participam da mesma operação.

“Queremos que a equipe consiga consultar o histórico de um material sem reconstruí-lo a cada dúvida. Isso dá melhores condições para conferir uma entrega, acompanhar uma devolução e resolver”.