Alta da Selic para 14,75% acende alerta em comércio e indústria
Empresários e economistas apontam que aumento dos juros compromete o consumo, encarece o crédito e freia o crescimento econômico
O aumento de 0,5 ponto percentual na taxa Selic, decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom), elevou os juros básicos da economia para 14,75% ao ano e gerou preocupação entre representantes do comércio e da indústria. Segundo entidades setoriais do Amazonas, o cenário de juros altos encarece o consumo, reduz a demanda e impacta diretamente a atividade industrial.
O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Manaus, Ralph Assayag, afirmou que a elevação afeta drasticamente o consumo, uma vez que encarece as compras parceladas.
“Afeta todo pagamento a prazo. Você vai comprar uma geladeira de R$ 1.000 em 12 vezes e acaba pagando quase duas geladeiras — 80% a mais. Isso é muito ruim, porque as pessoas deixam de comprar por falta de recursos”, ressaltou.
Assayag explicou ainda que a medida do Copom visa conter a inflação, mas penaliza diretamente as vendas no varejo.
“As pessoas deixam de comprar justamente no momento em que o país precisa aquecer a economia. Entendemos que, se há mais consumo, há inflação. Por isso o Banco Central tenta segurar. Mas para o comércio, o impacto é muito negativo. A população está sem caixa e sem dinheiro para manter um volume de compras.”
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, também criticou a decisão, apontando efeitos adversos sobre a economia.
“A elevação da Selic tende a onerar o custo de capital, desincentivar investimentos e aumentar os gastos com dívidas, impactando negativamente a dívida pública”, disse Silva.
Ele destacou que essa é uma das maiores taxas das últimas décadas, imposta em um contexto de desaceleração econômica desde 2024, o que pode agravar ainda mais o cenário.
“Diante disso, a decisão pode ser considerada prematura e aumentar a desaceleração em curso”, concluiu.
Especialista avalia medida como prejudicial ao crescimento
A economista Denise Kassama explicou que, apesar de ser uma tentativa do Banco Central de controlar a inflação diante de um cenário internacional incerto, o aumento da Selic compromete o crescimento dos setores produtivos.
“Esse não é o melhor caminho. Entendemos as justificativas, mas essa medida acaba trazendo mais problemas do que soluções. A instabilidade global, impulsionada por ações como o tarifário imposto por Trump, contribui para esse cenário de insegurança que reflete nos juros”, avaliou.
Segundo Kassama, a alta da taxa visa desestimular o consumo a crédito, incentivando a poupança e investimentos financeiros.
“O Copom envia um recado: evitem comprar parcelado, invistam. Por isso o mercado financeiro comemora, enquanto o comércio e a indústria sentem os efeitos negativos.”
Ela alerta ainda que o consumo retraído também pressiona o setor produtivo. “Tudo está mais caro. Com menos consumo, a indústria produz menos, o comércio vende menos e o acesso da população a bens e serviços se restringe. Isso afeta toda a cadeia econômica.”
Outro ponto levantado pela economista é o aumento da inadimplência e da dívida pública. “Os juros altos elevam o valor da dívida pública, que já é uma das maiores despesas do governo. E para o trabalhador endividado, fica ainda mais difícil quitar dívidas com o crédito tão caro”, explicou.