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A Crítica
Economia

‘Amazônia ficou para trás de outras regiões’

Para a   presidente do Corecon-AM , a Amazônia ficou atrás das outras regiões do país do ponto de vista do desenvolvimento, e a COP30, que acontecerá em Belém, é a oportunidade para que avance

Publicado em 02/11/2025 às 10h15
‘Amazônia ficou para trás de outras regiões’
Foto: Nilton Ricardo/A CRÍTICA

Para a presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas (Corecon-AM), Michele Aracaty, a Amazônia ficou para trás de outras regiões do país do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social. Ela enxerga Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), que acontece em Belém entre os dias 10 e 21 de novembro, como uma oportunidade para mudar isso.

O evento é centrado no debate climático mundial, e há opiniões discordantes sobre o espaço ser usado para resolver problemas “locais”, mas Michele diz que os governos não têm condições de mudar essa realidade sem investimentos externos, e que a questão climática e da preservação também passa pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Para A CRÍTICA, ela falou sobre as economias possíveis neste momento de urgência da transição ecológica e energética, defendeu a necessidade de resolver o problema de logística na Amazônia e se colocou a favor da exploração de petróleo na Margem Equatorial. Confira.

Os economistas da Amazônia entregaram, em agosto, uma carta de contribuições ao Comitê da COP 30. Quais são as demandas? Seguem acompanhando para saber se serão acolhidas?

Sim, nós estamos acompanhando. Essa carta foi endossada também pelo Conselho Federal de Economia, então, não representou somente os conselhos regionais de economia da Amazônia Legal, mas todos os conselhos e todos os economistas do Brasil. Nós fizemos a entrega dessa carta e a nossa expectativa é que parte dessa carta possa integrar um documento final que nós vamos ter na COP30.

E quais são essas contribuições? O que aponta a carta?

Bom, um dos pontos principais que eu destaco na nossa carta está relacionado ao momento em que é relevante que o mundo venha para a COP30 e possa observar quais realmente são as nossas necessidades. Então, por exemplo, questões infraestruturais e logísticas. Nós temos muitas deficiências em relação a isso. É importante que o mundo entenda que, apesar de nós morarmos numa região muito rica, nós temos condições muito vulneráveis, básicas, como principalmente o aspecto logístico e infraestrutural, ou até mesmo a água potável. Não adianta você lutar pela preservação se 30 milhões de Amazônidas não têm água potável, por exemplo, não têm saneamento básico, não têm banheiro, não têm luz elétrica. Esse é o ponto principal da nossa discussão, que é buscar uma alternativa que possa trazer bem-estar social para a Amazônia, mas também possa preservar a floresta.

Há um argumento contrário ao seu que coloca as COPs como um espaço de debate sobre a mudança do clima ao nível mundial, não de resolução de problemas “locais” como a falta de água potável, que seria atribuição dos governos municipal, estadual e federal. Como responde a essa visão?

Eu concordo e nós temos que ter esses projetos e propostas disponíveis porque eu olho para a Amazônia e vejo a Amazônia a partir da economia verde. O que é a economia verde? É o momento em que principalmente os países desenvolvidos possam disponibilizar aportes financeiros para que a gente preserve a Amazônia em pé. Mas esse recurso vai ser utilizado para favorecer o que nós chamamos de bem-estar social para quem vive na economia da floresta. Então, se não houver um financiamento por parte tanto de políticas públicas nacionais quanto de investidores internacionais, as pessoas que moram na Amazônia vão continuar vivendo na vulnerabilidade social e vão continuar buscando alternativas que depredem a floresta, não que preservem a floresta. Eu concordo que a gente tem que ter uma política pública, mas nós não temos dinheiro para uma política pública ser implementada na Amazônia. Custa muito caro. Então, esse dinheiro que vem dos países ou que vem de outros governos, ele é bem-vindo, mas para isso eu tenho que ter um projeto para apresentar para esses países para poder dar o direcionamento em relação a esses recursos.

A senhora citou a questão logística e a BR-319 é o principal exemplo. É possível ter essa estrada e outras infraestruturas de transporte, como hidrovias e melhores portos, e, ao mesmo tempo, pensar em preservação e mitigação à mudança climática?

Sim, é imprescindível mais uma vez a presença do estado para que possa dar o direcionamento em relação a esses investimentos. E um ponto que eu destaco também, que não é somente a estrada, são hidrovias, são portos, são aeroportos e eu tenho que ter um ponto muito importante, que é a integração desses modais. Não é somente uma estrada, mas uma estrada que se interliga a uma hidrovia, que se interliga a outra rodovia, que se interliga a um aeroporto. Eu tenho que ter uma interligação, porque senão eu fico com aquela história da ponte. Você constrói a ponte, mas ainda não tem o rio. Você tem o rio, mas não tem a ponte.

Estados na Amazônia têm economia ligada ao extrativismo, mineração e o Amazonas tem o polo industrial. O quanto essas atividades precisarão ser repensadas e transformadas no contexto de transição ecológica e energética?

Todas vão ter que ser adaptadas, todas precisam ser reformuladas. O que eu sempre coloco é que nós temos que ter um modelo de desenvolvimento regional endógeno, com características regionais. Então, esse modelo de desenvolvimento que eu tenho atualmente, ele foi trazido de outros locais, ele é exógeno. Eu tenho que ter um modelo endógeno, ou seja, cada um desses produtos, cada cadeia produtiva, cada potencialidade regional vai ter que ser estudada de forma isolada e tem que ser adaptada para as nossas necessidades. Eu não posso trazer para a região um modelo pronto, como sempre aconteceu. Esse modelo precisa partir inicialmente de pessoas que conhecem a região e nós já temos capital humano que conheça a região, que tem conhecimento científico, então tem que partir, como eu sempre coloco, dos amazônidas. Os próprios amazônidas vão ter que identificar qual é a melhor opção, a melhor oportunidade, o melhor modelo para atender a expectativa daquela região.

Quais modelos ou atividades a senhora pensa que estão mais alinhados à nossa região?

A primeira delas é a que temos conversado muito, que é a bioeconomia, mas nós temos também a biotecnologia, nós temos o ecoturismo, nós temos uma característica interessante ligada a essa questão da pesca, pode ser uma pesca esportiva. Nós temos uma característica de trazer para a região também pessoas para observarem, por exemplo, os pássaros da nossa região e nós temos a imersão na floresta, que é uma atividade que tem dado muito retorno financeiro em outras regiões. Imagina, o mundo todo quer conhecer a Amazônia, então vamos propiciar que as pessoas venham conhecer a Amazônia da forma realmente como ela é.

Trazendo para a realidade do Amazonas, essas atividades nunca engataram com o nível do polo industrial. A senhora acha possível que elas se aproximem dele em algum momento e talvez até se tornem as principais?

Na verdade, não existe nenhum modelo que possa gerar tanto emprego e tanta renda como o modelo Zona Franca de Manaus. Quando a gente fala de modelo industrial, ele é imbatível. O que eu penso? Eu penso em modelos que possam complementar o nosso principal modelo, que é o modelo Zona Franca de Manaus. Esses modelos podem ter como foco os municípios do interior, já que o modelo Zona Franca de Manaus está muito bem articulado na capital do estado do Amazonas. Então imagina se a cada dois municípios nós tivéssemos um modelo endógeno. Nós já teríamos uma geração de emprego e renda muito interessante. E eu chamo a atenção para uma coisa que pouca gente consegue visualizar. Quando a gente fala de modelo Zona Franca de Manaus, não é somente a parte industrial. Nós temos o comércio, nós temos o serviço, temos o segmento agropecuário. Então, não é só a indústria.

A Amazônia, especialmente os estados do Pará e Amapá, precisam mesmo do petróleo que pode ser explorado na Margem Equatorial pelo governo federal?

Eu sou a favor da exploração desde que ela seja sustentável. E desde que essa exploração possa trazer como resultado principalmente uma melhoria na qualidade de vida da população. Então, mais uma vez, eu tenho condições de gerar emprego, renda, crescimento econômico e desenvolvimento econômico. E isso vai se espraiar não somente para o Amapá e Pará, mas para toda a nossa região. Nós temos que aproveitar de forma sustentável as potencialidades da nossa região. Nós não podemos mais ficar de fora do que a gente chama de bem-estar social. Uma coisa que eu chamo muita atenção é que a região amazônica ficou para trás de todas as regiões brasileiras. Até o Nordeste passou à nossa frente. Então nós temos que aproveitar as potencialidades que nós temos e buscar reduzir esse hiato de desenvolvimento entre a nossa região e as demais regiões do Brasil.

No Amazonas, a exploração de petróleo em Coari há mais de 30 anos não impediu que o município tenha um dos IDHs mais baixos e o estado pague um dos combustíveis mais caros do país. Esse exemplo não demonstra que a expectativa de impacto positivo no Pará e Amapá pode não se concretizar?

Sim, eu concordo com você. E não somente Coari, mas outros municípios. Mas nós temos a potencialidade de fazer diferente. Eu vejo muito a necessidade de uma articulação muito relevante em termos dos nossos homens públicos. De fazer uma política, de deixar muito claro qual seria a contrapartida dessa exploração. Coari, como você colocou muito bem, nós temos aí um royalty muito interessante em termos de valores, mas a população ainda vive na vulnerabilidade e os piores indicadores que nós temos. Esse é um exemplo muito negativo da exploração do petróleo. Mas nós podemos fazer diferente. O que falta mesmo é essa vontade política. Então, deixar isso muito bem articulado, isso é importante. Aí vai demandar que a sociedade também possa cobrar em relação a isso.

O governo federal lançará na COP o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, visando financiar projetos de redução do desmatamento e proteção da sociobiodiversidade em países com florestas tropicais, com expectativa de 4 bilhões de dólares anuais advindos de outros países e entidades filantrópicas. Qual a sua avaliação sobre esse fundo?

O estado precisa ter um planejamento, precisa ter uma proposta para apresentar para esses investidores. Isso tem que ficar muito claro. Eles não podem chegar aqui com dinheiro e perguntar o que vocês pretendem fazer. Na verdade, eu tenho que ter isso já muito bem organizado para que quando eu chegar na mesa de negociação eu já saber para onde é que vai esse recurso. Então eu acho muito positivo esse fundo. Espero que ele esteja muito bem articulado e que possa captar muitos recursos. Porque quando a gente fala de floresta, nós temos dois pontos importantes. A floresta em pé, que é a floresta preservada, e a possibilidade de você reverter as florestas que foram devastadas. São dois pontos. Então eu vou trabalhar a manutenção da floresta em pé e vou buscar alternativas para reverter o que já foi impactado. Isso é muito positivo, gera muito emprego, gera muita renda.