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A Crítica
Economia

Juros altos e tarifas impactam e setor eletroeletrônico tem queda leve em maio

Dados apresentados pelo presidente da Eletros confirmam a possibilidade de desaceleração da economia pela alta da Selic

Publicado em 23/06/2025 às 18h22
Juros altos e tarifas impactam e setor eletroeletrônico tem queda leve em maio
Foto: Divulgação

O presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Jorge Nascimento Júnior, afirmou que a elevação contínua da taxa básica de juros (Selic) e tarifas impostas pelo governo brasileiro foram dois fatores que levaram a uma queda de 2% na venda de produtos do segmento, majoritariamente fabricados na Zona Franca de Manaus (ZFM). A elevação mais recente foi na semana passada, quando chegou a 15%. A fala ocorreu durante a Eletrolar Show 2025, em São Paulo.

O valor da taxa Selic vem crescendo continuamente desde setembro de 2024. Após mantê-la em 10,5% por quatro meses, o Banco Central subiu a taxa para 10,75%, seguindo uma tendência de alta para 11,25% em novembro, 12,25% em dezembro e 13,25% em janeiro deste ano. Apesar da queda do ritmo, a taxa básica continuou sendo elevada até o patamar atual.

“Nós estamos vivendo uma realidade econômica totalmente diferente do primeiro semestre do ano passado. Esse ano, os juros chegando a 15% faz com que, inevitavelmente, produtos de linha branca, televisores de grande volume e ar-condicionado, que são comprados de forma financiada, com juros elevados, a parcela fica muito elevada e o consumidor se retrai”, disse.

O presidente apontou ainda uma forte insegurança na economia que afasta o consumidor, diferente do que ocorreu em 2024, quando a confiança para compras estava bastante elevada. Jorge Júnior citou a possibilidade de aumento da inflação, dólar elevado que impacta insumos importados e ainda uma elevação de tarifas feita pelo governo federal sobre aço e plástico, que são ingredientes dos bens finais fabricados no país.

“Com a elevação tarifária, fará com que o nosso custo de produção também fique mais alto, e a gente não vai ter como entregar produtos com preços mais acessíveis. Se a dificuldade hoje já está em ofertar à população as compras, isso pode atrapalhar também a economia e o nosso setor. São desafios que nós estamos enfrentando, dialogando com o governo”, ressaltou.

Questionado pela reportagem sobre a razão das tarifas, o presidente da Eletros afirmou que a justificativa foi uma suposta “invasão chinesa de aço e plástico no Brasil”. Segundo ele, o governo elevou em 25% as tarifas de importação desses produtos, tendo potencial para aumentar o preço final dos produtos para o consumidor.

ZFM lidera e portáteis em queda

Apesar dos problemas provocados pelos juros, foram vendidas 45 milhões de unidades até maio deste ano e a expectativa da associação é encerrar o primeiro semestre de 2025 com queda de 1% em relação a média do mesmo período do ano passado, o qual foi “um ano excelente”.

Entre janeiro e maio, os produtos que mais venderam foram aqueles fabricados no Polo Industrial de Manaus (ZFM). O ar-condicionado teve um crescimento exponencial, com aumento de 21% nas vendas em relação ao ano passado, com mais de 2,8 milhões de unidades vendidas. Na avaliação da Eletros, isso se deu pelas elevadas temperaturas na primeira metade do ano.

Nos produtos de linha branca – geladeiras, fogões, cooktops – houve um crescimento de 1% entre janeiro e maio de 2025, com 6,1 milhões de unidades vendidas. A associação considerou o desempenho tímido, especialmente devido aos juros elevados. Na linha marrom, que contém produtos como televisores e equipamentos de áudio, houve um ligeiro crescimento de 0,3%, beirando a estabilidade.

O grande responsável pela queda foi o segmento de eletroportáteis, que registrou um número de vendas 6% menor nos cinco primeiros meses do ano em comparação com 2024. Enquanto no último ano foram vendidas 31 milhões de unidades, neste ano as vendas foram de pouco mais de 30 milhões de produtos. A linha representa mais de 60% do volume de vendas do setor eletroeletrônico.

“Aqui tem um ponto de atenção de fato: o preço médio dos produtos eletroportáteis é muito baixo, então a população não precisa compra-lo de forma financiada ou pelo menos com financiamento mais longo, e geralmente essas vendas são sem juros. Mesmo assim, esse produto teve uma retração significativa”, alertou Jorge Júnior.

Boas expectativas

Apesar dos resultados abaixo do esperado para o primeiro semestre, a Eletros tem boas expectativas para a segunda metade do ano. Segundo Jorge Júnior, eventos como a Black Friday em novembro e o Natal em dezembro devem alavancar as vendas dos produtos de linha branca e linha marrom que fazem parte do catálogo da indústria eletroeletrônica.

“Mesmo dentro de um cenário preocupante, a gente tem expectativa de ter essas duas datas como algo que venha estimular o consumidor a vir às compras [com] o investimento, desenvolvimento e lançamento de novos produtos”, disse.

Setor em alerta

Na última semana, o setor produtivo amazonense afirmou para A CRÍTICA que a taxa Selic no patamar de 15% poderá travar a economia. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, avaliou que a medida do Banco Central era “extremamente contraproducente” e poderá corroer a competividade dos produtores.

“Esse era um patamar não sustentado pela indústria desde 2006 e que, aliado ao cenário econômico internacional, sufoca o custo de captação de crédito. O Índice de Confiança do Empresário, por exemplo, amarga o sexto mês consecutivo de queda, o que expressa o pessimismo do setor em relação às condições de mercado”, disse.

A economista Denise Kassama avaliou que o excesso de aumento nos juros é o tipo de remédio amargo que pode “matar o paciente”. Se por um lado controla a inflação, por outro deixa os cidadãos sem capacidade de consumir, o que pode “matar a economia”.