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A Crítica
Economia

O que o onshore brasileiro está aprendendo com Estados Unidos e Canadá

Daniel Haddad Cavalcante, engenheiro de produção com mais de 30 anos de experiência, é uma das vozes mais experientes do país na adaptação de práticas às operações de petróleo em terra e comenta sobre

Publicado em 19/10/2026 às 14h18
O que o onshore brasileiro está aprendendo com Estados Unidos e Canadá

Enquanto Estados Unidos e Canadá consolidaram há décadas uma indústria de petróleo em terra altamente eficiente, o Brasil vive um momento de reorganização do oonshore com operadoras independentes assumindo campos maduros no Nordeste e investindo na renovação de equipamentos. Para quem está na linha de frente dessa transformação, olhar para a América do Norte deixou de ser curiosidade e passou a ser um método de trabalho.

“Lá fora, a sonda é tratada como um ativo de alta performance, com indicadores de disponibilidade acompanhados de perto e manutenção planejada com muita antecedência”, afirma Daniel Haddad Cavalcante, gerente de Manutenção e Integridade dos Ativos da PetroReconcavo. Nos últimos cinco anos, ele liderou a implantação de 15 sondas de completação, voltadas a workover e well service, e de 3 sondas de perfuração nas operações da companhia na Bahia e no Rio Grande do Norte. Ele comanda uma equipe de 150 profissionais de engenharia, manutenção, aquisição, comissionamento e melhoria contínua.

Parte desse modelo nasceu de visitas técnicas a operações nos Estados Unidos e no Canadá, onde o executivo conduziu um trabalho de benchmarking para entender como as operadoras locais mantêm frotas extensas funcionando com baixo índice de paradas. “A primeira lição foi entender que padronização não é burocracia”, conta. “Cada equipamento passa por verificações de integridade rigorosas antes de entrar em operação, e isso reduz a parada não programada de forma muito clara.” A experiência levou à adoção dos checklists MODUSPEC, referência internacional na inspeção de sondas, combinados às normas API e às Normas Regulamentadoras brasileiras.

Nem tudo, porém, atravessa a fronteira sem ajustes. “Copiar o pacote inteiro não funciona. O calor do semiárido, a distância entre as locações e o tempo de reposição de peças importadas exigem que a gente adapte o plano de manutenção à nossa realidade”, explica Daniel. Segundo ele, a cadeia de fornecedores ainda é um dos pontos em que o Brasil mais precisa avançar para alcançar o nível de disponibilidade visto na América do Norte.

A capacidade de fazer essa tradução vem das duas décadas de carreira na indústria automotiva de Daniel. “A sonda tem muito de uma linha de produção. Se você não mede disponibilidade, tempo médio entre falhas e tempo de reparo, você não sabe onde está perdendo dinheiro”, diz. Ferramentas como Lean Manufacturing, TPM e análise estruturada de falhas, comuns nas linhas de montagem, hoje fazem parte da rotina das equipes que ele lidera.

“Em alguns pontos, o Brasil já não fica atrás. Nossa cultura de segurança, sustentada pelas NRs, é muito sólida, e há práticas que os operadores norte-americanos poderiam observar aqui”, avalia o gerente. Para ele, o intercâmbio entre os dois mercados tende a se intensificar nos próximos anos e deixar de ser uma via de mão única. “É um mercado que conheço de perto e que acompanho com atenção. Acredito tanto nessa troca que tenho estruturado um projeto próprio para atuar diretamente por lá, levando essa combinação entre o rigor do petróleo e a disciplina da indústria automotiva”, comenta o especialista.
Outro aprendizado trazido da América do Norte diz respeito às pessoas. “Equipamento novo sem gente treinada é investimento parado”, resume Daniel, que defende a formação técnica contínua como condição para que a modernização da frota se converta em produtividade. A avaliação encontra eco em um setor que convive com escassez de mão de obra especializada, sobretudo no interior do Nordeste.

O avanço do onshore brasileiro depende cada vez menos de grandes descobertas e cada vez mais da eficiência com que campos maduros são operados. Nesse cenário, a experiência acumulada por Estados Unidos e Canadá oferece um repertório valioso de práticas de manutenção, padronização e gestão de ativos. O desafio para as operadoras brasileiras está em filtrar esse conhecimento, adaptá-lo às condições locais e combiná-lo com competências que o país já domina, como a cultura de segurança. Profissionais capazes de transitar entre diferentes indústrias e mercados tendem a ter papel decisivo nesse processo, que pode transformar a produção em terra em um dos vetores mais competitivos do petróleo nacional nos próximos anos.