Raphael Netto da Silva propõe método para reduzir falhas aduaneiras
Modelo integra padronização, controle de risco, coordenação da cadeia e indicadores para enfrentar atrasos e custos ocultos no comércio exterior.
O comércio internacional movimenta volumes históricos, mas a escala não eliminou um problema elementar: uma operação pode atravessar oceanos em poucos dias e ainda perder tempo por divergências documentais, responsabilidades mal definidas ou ausência de critérios para tratar exceções. A UN Trade and Development estimou que o comércio mundial de bens e serviços superou US$ 35 trilhões em 2025. Nesse ambiente, a previsibilidade operacional deixa de ser detalhe administrativo e passa a influenciar custo, prazo e capacidade de competir.
É nesse ponto que o despachante aduaneiro Raphael Netto da Silva concentra sua análise. Em vez de tratar conformidade como uma conferência realizada no final do processo, ele propõe organizar a operação em quatro frentes permanentes — padrão, risco, coordenação e evidência — reunidas no que chama de Método PRCE. A formulação traduz para a rotina aduaneira princípios presentes na ISO 9001 e no SASSMAQ, sistema de avaliação utilizado na logística de produtos químicos.
“Uma operação eficiente não é aquela que corre mais quando surge uma urgência. É a que reduz a quantidade de urgências porque define critérios, responsáveis e pontos de controle antes de a carga chegar.”
Padrão significa documentar o fluxo mínimo, os responsáveis e as informações indispensáveis para cada tipo de operação. Risco exige classificar antecipadamente pontos críticos — mercadoria, documentação, modal, intervenientes e requisitos regulatórios — para concentrar atenção onde um erro produziria maior impacto. A coordenação estabelece a passagem de responsabilidade entre importador, exportador, transportador, terminal e prestadores. Evidência fecha o ciclo com registros, indicadores, auditoria e correção da causa, e não apenas do episódio.
A diferença está em não apresentar certificações como troféus isolados. A ISO define a ISO 9001 como seu padrão mais conhecido de gestão da qualidade, baseado em processos consistentes, avaliação de desempenho e melhoria contínua. Já a Associação Brasileira da Indústria Química descreve o SASSMAQ como ferramenta de avaliação de prestadores logísticos voltada à segurança, saúde, meio ambiente e qualidade. Na leitura de Raphael, esses referenciais ganham valor quando passam a orientar decisões verificáveis no dia a dia.
A dimensão prática da proposta pode ser observada no Programa de Eficiência Logística do RIOgaleão. O PEL acompanha o desempenho de participantes da cadeia de importação aérea e busca identificar gargalos capazes de reduzir tempo e custo. A página oficial do programa registra a Rioport Assessoria Aduaneira entre as empresas reconhecidas nas edições referentes a 2023 e 2024. O dado não prova, isoladamente, causalidade entre uma ferramenta de gestão e cada resultado operacional, mas fornece evidência externa de consistência em um ambiente que compara desempenho.
O próprio terminal informa que mais de mil clientes já participaram do programa. Em 2024, o RIOgaleão Cargo movimentou mais de US$ 6 bilhões e 29 mil toneladas apenas no primeiro semestre, segundo dados divulgados na premiação daquele ano. A escala ajuda a mostrar porque minutos, retrabalhos e decisões desconectadas se acumulam financeiramente ao longo da cadeia.
“Certificação sem rotina pode virar arquivo. O ganho aparece quando o procedimento permite enxergar o desvio, descobrir a causa e impedir que o mesmo problema seja reproduzido na próxima operação.”
A proposta também responde a uma confusão frequente: controle não precisa significar burocracia adicional. Quando cada verificação tem finalidade, responsável e registro definidos, a tendência é reduzir conferências redundantes e aumentar a atenção dedicada às exceções relevantes. O método, portanto, não promete eliminar variáveis externas — fiscalização, infraestrutura, clima ou mudanças regulatórias —, mas procura reduzir a parcela de incerteza criada dentro da própria operação.
Para Raphael, o indicador decisivo não é apenas o tempo médio. A leitura deve combinar a incidência de divergências, retrabalho documental, cumprimento de marcos, tempo por etapa e recorrência de causas. “Velocidade sem rastreabilidade pode apenas deslocar o problema. A maturidade aparece quando a empresa sabe por que ganhou ou perdeu tempo e consegue agir sobre isso”, afirma.