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A Crítica
Educação

Professora amazonense lança curso de redação para alunos carentes de Manaus

Após o 'fracasso' de adesão ao Enem em meio ao surto de coronavírus no país e no Amazonas, a professora Melissa Maciel decidiu abrir um curso focado em redação com custo acessível

Publicado em 29/05/2021 às 03h30 · Atualizado em 09/03/2022 às 08h12
Professora amazonense lança curso de redação para alunos carentes de Manaus
Foto: Melissa Maciel (ao centro) com seus alunos. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Alta abstenção e problemas como o afastamento presencial das salas de aulas fizeram com que uma professora amazonense lançasse um curso pré-vestibular acessível aos mais pobres que sonham com o vestibular

Marcado pela desigualdade social entre estudantes, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 entrou para história por motivos negativos, entre eles o recorde de abstenção igual a 55,3% de estudantes do ensino público e privado. O fato refletiu nos resultados, proporcionando maior acesso às Universidades Públicas apenas àqueles que tiverem oportunidades maiores em meio a pandemia do novo coronavírus.

Diferentes dos outros estados do Brasil, o Amazonas no período da realização do Exame, nos dias 17 e 24 de janeiro, enfrentava a segunda onda da Covid-19, momento em que o estado, e principalmente Manaus, viveu o pior da pandemia, inclusive com falta de oxigênio nos hospitais. A data foi então alterada para os dias 23 e 24 de fevereiro. Mesmo com o adiamento, muitos estudantes do Amazonas não conseguiram estar presentes, pois o estado ainda estava passando pelo alto número de casos e mortes pelo vírus.

Além do caos na saúde pública, segundo a professora de língua portuguesa, Mellissa Maciel, 30, outros problemas motivaram o recorde de abstenção, como o despreparo do Governo Federal e Estadual em auxiliar o estudante de classe baixa.

“Eu trabalho com alunos que vêm da maior parte de escolas públicas, eu entendo essa realidade, pois vim de lá. Muitos relatam que a ausência de vagas no Estado os empurra para o setor privado”, completou.

Diferença de oportunidades

Formada em Letras, Mellissa Maciel atua como professora em uma escola particular em Manaus, após perceber a necessidade de auxiliar estudantes com poucas oportunidades, abriu um cursinho de Redação focado em vestibulares com valor acessível.

“O meu curso é específico em redação, sendo o mais acessível da cidade, justamente por saber o quão difícil é, principalmente por conta do ensino de redação ultrapassado aqui no Amazonas”, disse.

Somente uma pessoa conseguiu alcançar os mil pontos na redação do Enem, estudante de escola particular. Para a professora, isso acontece por essas pessoas terem acesso mais fácil a uma educação de qualidade, o que deveria ser direito de todos.

“Os alunos de escolas particulares tiram notas altas na redação, pois possuem acesso a livros, aos melhores conteúdos, aos melhores professores. Tem aluno que chega na minha sala e não sabe o que é parágrafo, que escreve o texto no meio da folha, que não sabe o que é margem. Então é esse tipo de aluno que eu ensino e oferece o meu melhor, pois sei como as oportunidades são difíceis”, informou.

Entre os diversos alunos de Melissa, uma que conquistou a aprovação na Universidade com 920 pontos na redação foi Ellen Souza, 17 anos. A atual estudante de farmácia optou pela rede privada por conta da incerteza do governo.

“Sempre foi um grande sonho ir para a federal, mas por conta da pandemia, como eu queria começar logo a faculdade, eu tive que deixar esse desejo para trás, pois o importante na minha cabeça é eu me formar”, relatou a estudante.

A estudante de farmácia, enfrentou um momento delicado com sua mãe justamente no período da segunda onda da Covid-19 no Amazonas, onde teve 75% do pulmão comprometido, na véspera do Exame, o que a levou a desistir do cursinho, mas Mellissa persistiu, não deixou abandonar e conseguiram juntas passar por essa dificuldade.

“Eu desisti nesse tempo, achei que não ia conseguir. Com o estado de saúde da minha mãe eu não conseguia fazer nada, só chorar e pedir a Deus que curasse minha mãe, mas eu tirei forças juntamente com o apoio da professora Melissa, pois eu sabia que minha mãe viva ou não, ela iria querer me ver dentro de uma faculdade, me formando”, disse Ellen Souza.

Norte pelo Norte

Durante o período da falta de oxigênio no Amazonas, muitas pessoas se mobilizaram com o objetivo de ajudar quem mais precisava, com cilindros, alimentos, itens de higiene é doação de dinheiro a Organizações Civis (OSCs). Melissa Maciel, é uma dessas pessoas que resolveu se envolver na campanha Norte pelo Norte.

“Durante a crise de oxigênio muita gente doava para ONGs com a intenção de ajudar a abastecer os hospitais. E eu percebi que existiam pessoas que ainda não se sentiam motivadas a doar. Foi aí que criamos o curso Norte pelo Norte, que trocava o acesso ao curso de redação por PIX para qualquer ONG da lista postada no instagram”, informou.

A taxa estipulada na época foi de R$ 10,00. Após a transferência era necessário enviar o comprovante, sendo assim o acesso às aulas eram liberados. Apenas com esse curso, o projeto teve alunos com mais de 840 na redação. Todo valor foi destinado às instituições que estavam auxiliando os hospitais de Manaus.

“Inclusive o projeto virou aula. Os resultados foram tão positivos que criei uma aula ensinando os alunos a usar o projeto como proposta de intervenção” ressaltou Mellissa.