Projeto de escola amazonense cria rede de apoio contra a violência
No ‘Clube do Silêncio’ criado, o aluno pode contar um pouco do seu dia-a-dia e quais conflitos passa
No Centro de Educação de Tempo Integral (Ceti) Professor Sérgio Pessoa Figueiredo, localizado no bairro Cidade de Deus, na zona Norte de Manaus, o enfrentamento contra a violência é pautado com diálogos e sobretudo, com muita escuta.
O projeto ‘Clube do Silêncio’ criado, em 2018, pelo professor de língua portuguesa Erison Soares Lima, ganhou mais força após a pandemia da Covid-19, quando ele observou que os ânimos dos alunos estavam mais exaltados.
“Antes da pandemia, a gente tinha, sim, problemas de violência, mas era algo muito pontual e agora não. O aluno que retorna da pandemia, ele volta com a cabeça um pouco mexida, porque foram muitas situações que ele viveu dentro de casa como perdas e também a violência. E essa vulnerabilidade que ele passa, ele traz para sala de aula”, contou o professor.
Segundo ele, os episódios de brigas dentro da escola eram frequentes, por isso, o projeto se tornou necessário. “E eles estavam trazendo essa violência no falar e agir e os casos de violências começaram a ser toda a semana e depois passou a ser diariamente. E isso nos assustou muito”, disse o educador.
Na prática, o projeto é realizado todas as sextas-feiras e sempre no horário do almoço. Durante a conversa, o aluno pode contar um pouco do seu dia-a-dia, quais conflitos passa e é ouvido por alunos e pelo professor que acompanha o Clube do Silêncio.
“O Clube surgiu dessa necessidade de ouvir os alunos, de entender o momento pelo qual eles estão passando e aí eles trazem os relatos. E o grupo funciona como espaço de acolhimento em que eles podem falar de si sem julgamento”, destacou Erison Lima, que acrescenta que nesses espaços existe a liberdade para expressar os sentimentos.
“Oferecer um espaço em que ele vai ser ouvido, isso gera neles uma confiança de que na escola eles têm um lugar onde são aceitos. E o atendimento está aberto para todos e eles procuram naturalmente”, apontou ainda.
Bons resultados
Além do projeto e sua importância, o professor destaca os inúmeros bons resultados que o ‘Clube do Silêncio’ trouxe para as salas de aula do Ceti. “Eu tenho alunos que se formaram no ano passado, estão na faculdade e voltam eventualmente e me perguntam: professor, eu posso ir?”, comenta ele.
“Há outros que nunca faltaram uma reunião. E o resultado que a gente vê é o tratamento que muda entre eles”, disse ele, que acrescenta a importância do estimo a cultura de paz dentro das escolas. “O resultado do Clube do Silêncio é instaurar na escola uma cultura de cuidado, uma cultura de acolhimento, onde cada um pode ser o esteio do outro”, comentou.
Experiência
A experiência do professor com o ‘Clube do Silêncio’ foi contada na mesa “Para além dos ataques: como professores lidam com tensões frequentes e violência na escola” que aconteceu na última segunda-feira (18) durante o 7º Congresso de Jornalismo de Educação, realizado em São Paulo.