Projeto ‘Encontro de Saberes Indígenas Amazonenses’, da Ufam, recebe nota dez
Projeto faz parte do Programa de Educação Tutorial e receberá recursos do Ministério da Educação
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) conquista um marco significativo em sua trajetória acadêmica com a aprovação do novo projeto do Programa de Educação Tutorial (PET), que receberá recursos do Ministério da Educação (MEC).
Intitulado “Encontro de Saberes Indígenas Amazonenses”, o projeto foi o único da Ufam a obter a nota máxima de dez na segunda etapa do processo seletivo, destacando-se em um total de 287 propostas avaliadas nacionalmente.
O PET terá como tutor o professor Gerson Ribeiro Bacury, do Departamento de Educação Escolar Indígena da Faculdade de Educação (DEEI)/Faced. O projeto é voltado para estudantes indígenas do curso de Formação de Professores Indígenas (FPI).
Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, Gerson Bacury explicou que o programa busca trazer novos horizontes para a formação acadêmica e para a sociedade dando ênfase nos saberes dos povos originários do Amazonas.
“A proposta tem como objetivo desenvolver novas práticas pedagógicas que integrem conhecimentos das diversas áreas, promovendo a interdisciplinaridade e a interculturalidade”, explica o professor Bacury.
Segundo ele, o projeto vai além do ambiente acadêmico, buscando fortalecer os laços entre a Ufam e as comunidades indígenas, atendendo às suas necessidades e saberes culturais. “Queremos que o conhecimento indígena seja valorizado e que nossos estudantes possam refletir e atuar em suas comunidades”, completa.
Vitória para os povos indígenas
O Programa de Educação Tutorial foi criado pela Lei nº 11.180/2005 e regulamentado pela Portaria nº 976/2010, com o intuito de incentivar a formação de futuros professores e pesquisadores. O PET Encontro de Saberes Indígenas Amazonenses se destaca por seu caráter inclusivo e por sua proposta de ações afirmativas que buscam a equidade socioeconômica e educacional.
Na Ufam, o componente curricular da Educação Indígena é todo ministrado por professores indígenas ou do curso de licenciatura de formação de professores indígenas. (Foto: Nillton Ricardo/Freelancer)
“O processo de seleção foi rigoroso e desafiador, mas a nossa equipe estava bem preparada. A aprovação do nosso projeto representa uma vitória para a Ufam e para o estado do Amazonas, especialmente para os povos indígenas que sempre lutam por políticas públicas que reconheçam sua importância e diversidade cultural”, ressalta Bacury.
Fomento à educação e novos desafios
Com um montante significativo a ser repassado, o PET contará com a participação de até 12 bolsistas e 6 voluntários, todos dedicados às atividades do projeto, que promete também a produção de materiais didáticos específicos e a divulgação de pesquisas em eventos acadêmicos e periódicos.
“Acreditamos que essa iniciativa irá não apenas enriquecer a formação dos nossos estudantes, mas também contribuir para um diálogo mais profundo entre a universidade e as comunidades indígenas”, pontua o professor.
O próximo passo inclui a implementação das atividades propostas, que visam um fortalecimento da educação escolar indígena e a valorização das tradições culturais.
De acordo com o professor tutor, o PET Encontro de Saberes Indígenas Amazonenses é um passo importante na trajetória da Ufam e um exemplo de como a educação pode ser um vetor de transformação social e cultural.
Professor Gerson, ao lado de duas alunas do GEPIMAT de Mestrado e Doutorado, que auxiliam a formação dos professores indígenas, e possuem pesquisa na área. (Foto: Nilton Ricardo/Freelancer)
Trajetória
Bacury destaca também esta conquista como um grande passo que o curso de Formação de Professores Indígenas (FPI) vem trilhando há quase vinte anos na universidade.
“Gostaria de destacar que estamos dando continuidade na história que o Curso FPI/aed/Ufam vem trilhando desde seu início em 2005, com as primeiras conversas entre a organizações os povos indígenas e a Ufam, na época representada pela equipe capitaneada pela Dra. Rosa Helena Dias e pelo Dr. José Silvério Baia Horta”, disse o educador.
Ele conclui ressaltando que ao longo dessas décadas de contribuição com a formação de professores indígenas a Ufam vem possibilitando a institucionalização de diversos programas e projetos para agregar e potencializar às ações de ensino, de pesquisa e de extensão, políticas públicas, em especial por meio dos programas institucionais como é o caso do PIBEX, PACE PIBIC, Pibid, Residência Pedagógica e agora o PET Conexões de Saberes.
Fortalecer comunidades indígenas
A estudante indígena Marlete Cruz da Costa, do Povo Indígena Cambeba, relata sobre a importância de projetos educacionais para incentivo e permanência de estudantes indígenas na universidade pública.
“A importância está dentro das nossas vidas enquanto indígenas e acadêmicos. Ele (Programa de Educação Tutorial) vem promover a valorização. Buscar trabalhar a questão do grafismo educacional, na matemática financeira, nas tecelagens, nas cestarias. Para nós, tudo isso é importante trabalhar através desses projetos que busquem alavancar e fortalecer essa cultura”. 
Estudante indígena Marlete Cruz da Costa, do Povo Indígena Cambeba. (Foto: Nillton Ricardo/Freelancer)
Como representante de turma do Curso de Licenciatura em Formação de Professores Indígenas da Faculdade de Educação (Faced), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que conta com a presença de 13 povos indígenas diferentes e cerca de 100 alunos, ela entende que o PET “Encontro de Saberes Indígenas Amazonenses” tem sua vital importância na promoção e fortalecimento do trabalho da formação de professores indígenas nas comunidades indígenas.
“Esse projeto vem promover e fortalecer esse trabalho nas nossas comunidades indígenas. Buscando incentivar e valorizar a cultura dos nossos povos. Aqui na Universidade nós somos 13 povos diferentes, cerca de 100 alunos no curso, destacou.
Ela frisa que os professores ajudam os alunos a enxergar esse mundo acadêmico. O pprograma vem desenvolver esse trabalho de fortalecimento da cultura das comunidades indígenas. “Ficamos felizes em poder fazer parte e contribuir com as nossas experiências, da nossa cultura, do nosso povo, valorizando e respeitando a especificidade de cada povo”, acrescentou a indígena do Povo Cambeba.
Oportunidades
Muitos dos estudantes que estão matriculados e cursando na Licenciatura em Formação de Professores Indígenas são de regiões distantes da capital do Estado. Um destes é Raimundo Castro da Silva, indígena do Povo Mura, natural do município de Itacoatiara (distante 296 quilômetros de Manaus). Com o auxílio de programas educacionais que subsidiem sua permanência na universidade, ele considera oportuno uma vez que este ambiente diverso em sua maioria é hostil ao indígena.
Natural de Itacoatiara, Raimundo Castro da Silva é indígena do Povo Mura (Foto: Nillton Ricardo/Freelancer)
“Eu vejo que isso possibilita o aluno indígena de ter muito mais oportunidades aqui na universidade, já que é um ambiente muito diverso da nossa aldeia. É um ambiente que para nós é hostil, porque a gente não está habituados ainda à realidade, que é de pessoas não indígenas. Então o PET traz essa possibilidade da gente adentrar (a universidade), focalizar nossos estudos para ter um aprendizado bem mas bem facilitado. Significativo”, contou Raimundo.
Multiculturalidade
Raimundo considera que sua formação é um diálogo multicultural, pois tem a oportunidade tanto de aprender, quanto de ensinar sua cultura ao não-indígena em um ambiente formal de ensino. Os conhecimentos e valores são compreendidos a partir do Programa.
“A importância, pois temos a oportunidade de demonstrar mais sobre nossas tradições, sobre nossas culturas, nossos hábitos e muitas outras coisas que a gente pode também fazer. Tanto aprender também como ensinar também. Sempre aqui na universidade nós achamos que isso é uma troca de conhecimento”, explicou.
Do Povo Cambeba, Tomé Cruz compreende a importância do PET na manutenção e assistência do estudante indígena na universidade, bem como no fortalecimento de sua cultura vivenciada através da instrumentalização acadêmica.
Tomé Cruz destaca a importância do PET na manutenção e assistência do estudante indígena na universidade. (Foto: Nillton Ricardo/Freelancer)
“Os valores dos nossos saberes são uma identidade forte. Eles estão em nossa cultura. Ele é uma raiz, está no território, está em nossa ancestralidade, ele busca cada vez mais fortalecer, nossos sabes, nossa cultura e nossa história. Nós temos dois pontos que a gente fortalece. A gente vai valorizar e a gente faz essa manutenção. A manutenção enquanto cultura vivenciada. Aquilo que nós temos na nossa comunidade. A permanência dela aqui é difícil. Mas com o fortalecimento da nossa raiz, cada dia buscamos fortalecer mais a identidade indígena” terminou Cruz.