Ufam terá Cuidoteca para filhos de estudantes e servidores; espaço é inédito no Norte
Ufam é a primeira universidade do Norte a disponibilizar espaço para os filhos das estudantes, servidores e terceirizados
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) campus Manaus terá, a partir de março deste ano, no Centro de Convivência, uma Cuidoteca voltada aos filhos de estudantes, servidores e trabalhadores terceirizados. A iniciativa busca promover a igualdade no acesso ao ensino público e será a primeira da região Norte.
A presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da OAB Amazonas (OAB-AM), Alessandrine Silva, destacou que a medida é uma forma de consolidar igualdade às mulheres que precisam conciliar os estudos com a maternidade.
“Essa é uma política do governo federal que foi muito acertada, na escolha da gestão de priorizar a articulação para que essa política se concretize. Quando mulheres e homens têm a mesma oportunidade, essa mulher que é mãe não se afasta da universidade porque não tem com quem deixar o filho, isso é enfrentar a desigualdade”, informou.
A advogada afirmou que, ao longo de sua formação na Ufam, não conseguiu conciliar a maternidade com os estudos e destacou que celebra o fato de outras mulheres terem agora a oportunidade que ela não teve.
“Esse não foi o meu caso. Infelizmente, eu não concluí a graduação porque tinha duas crianças e não conseguia ir para a universidade com as duas crianças, porque era impraticável assistir aula com um bebê e uma garotinha de dois anos. Então, essa ausência da política pública me afastou da universidade. E hoje, com esse novo olhar, as mulheres podem ter oportunidade que eu não tive, de continuar estudando e de cuidar desses filhos sem também negligenciá-los”.
Alessandrine Silva ressaltou que antes a realidade do abandono dos estudos para cuidar dos filhos era bem presente e que espera que a estrutura oferecida pela universidade ajude a mudar esse cenário.
“Em 2016, fizemos um mapeamento de mulheres que também necessitavam de um espaço de fraldário, de creche ou de compartilhar do cuidado com o Estado para se manter na faculdade. E eram muitas as mulheres, tanto as que desistiam da academia por conta disso, quanto as que tentavam, a todo custo, frequentar essas aulas. Então, há, sim, uma grande iniciativa visando a redução de desigualdades a partir da Cuidoteca”, disse.
Reparação histórica
A professora da Ufam e ativista pelos direitos das mulheres, Ivânia Vieira, afirmou que a criação da Cuidoteca é uma reparação histórica com as estudantes e trabalhadoras que são mães.
“A Universidade tem dívidas históricas em várias áreas. Uma delas é quanto aos direitos básicos da comunidade acadêmica e, em recorte, das mulheres, a maioria desse público na instituição, professoras, servidoras e estudantes fazem malabarismo para assegurar atenção às crianças. É uma condição que afeta a saúde mental das mulheres, as mais demandadas”.
A professora informou que, durante os períodos de férias escolares das crianças, muitas mulheres precisavam incluir os filhos em suas rotinas de aula por não terem com quem os deixar. Ela contou que a Faculdade de Educação (Faced) já incluía as crianças em oficinas enquanto os pais estudavam ou ministravam aulas, mas que agora, com a Cuidoteca, a Ufam poderá assegurar isso como um direito.
“Eles ficam em sala de aula em oficinas pedagógicas enquanto seus pais estão em outras salas estudando. No horário do almoço, eles se reúnem para almoçar juntos, conversarem, contarem as suas novidades. É um ensaio espetacular do que a Ufam poderá vir a ser: cuidadosa, inclusiva, pluriétnica, movida continuamente para promover direitos, assegurá-los e contribuir na formação de uma comunidade acadêmica mais saudável”, disse Vieira.
Propulsoras da educação
A aluna egressa da Ufam, Valéria Marques, é especialista em políticas de enfrentamento à violência doméstica e disse que a medida é um avanço para que as mulheres consigam ter acesso à educação.
“É muito importante essa iniciativa, visto que as mulheres ainda são as maiores propulsoras da educação, tanto doméstica quanto escolar, das crianças no nosso país, não somente na nossa cidade. Essas mulheres muitas vezes têm tripla jornada, cuidam da casa, trabalham e estudam, e muitas vezes desistem no meio do caminho de concluir uma universidade por conta de ter uma criança”, afirmou.
Ela vivenciou o processo de ensino enquanto levava sua filha para a sala de aula. A socióloga destacou que é um desafio e que nem todos os professores acolhiam.
“Levei muitas vezes minha filha para a sala de aula e agradeço em primeiro lugar aos professores que me deram essa oportunidade, porque nem todo professor acolhe a criança quando a gente chega. Porque nós não temos com quem deixar, é muito difícil às vezes pagar alguém para ficar com nossas crianças e é muito difícil também a gente confiar em alguém”, informou.
Valéria marques ressaltou que com o ambiente criado para receber essas crianças, a educação tem muito a ganhar e é um avanço para as mulheres. “Espero que as crianças sejam bem acolhidas, que nesse espaço de vivência possam ter outras perspectivas também de vida e de saber, de criatividade, da ludicidade, e seja um espaço social para que elas possam crescer fortes e melhores dentro da sociedade”.
Permanência dos estudantes
A professora Iraci Carvalho Uchoa, pró-reitora em exercício da Pró-reitoria de Assistência Estudantil da Ufam e coordenadora institucional da Cuidoteca, ressaltou que o principal objetivo da iniciativa é manter os estudantes ativos em sala de aula. O espaço receberá crianças de 3 a 12 anos a partir de um processo de seleção por uma equipe multidisciplinar.
“A Cuidoteca é para acontecer no período noturno, mas a equipe está verificando a viabilidade do funcionamento no espaço diurno também. É um espaço totalmente gratuito que vai servir para ampliar o alcance da universidade e o fortalecimento do acesso e permanência dos estudantes da graduação e pós-graduação no campus universitário”.
Com aporte de R$ 500 mil, a Cuidoteca Amazônia Viva – Cuidar e Pertencer será administrada pela Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae). O espaço será instalado no Centro de Convivência e atenderá crianças de 3 a 12 anos. O início das atividades está previsto para 30 de março deste ano.
Serão lançados editais para seleção das crianças a serem atendidas. Serão 40 vagas, divididas entre o público, sendo que os estudantes terão maior quantitativo de vagas.