Artesã amazonense é selecionada para projeto nacional da Gol Linhas Aéreas
Clarice Duhigó terá o seu trabalho divulgado pelo “Aproximando Distâncias”, uma loja virtual da Gol que dá visibilidade para produções artísticas no Brasil
A artesã amazonense Clarice Duhigó, coordenadora da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro Residentes em Manaus (AMARN), foi uma das artistas selecionadas do “Aproximando Distâncias’’, da Gol Linhas Aéreas. O projeto da empresa consiste em uma loja virtual que divulgará diversas produções artísticas do Brasil a fim de apoiar comunidades afetadas pela crise no setor turístico causada pela pandemia da Covid-19.
As peças da AMARN, que reúne mulheres indígenas especialistas na produção de artesanato feito com fibras de tucum, estarão disponíveis no catálogo do portal www.aproximandodistancias.com.br na próxima segunda-feira (31), junto à produção de 25 artistas de todo o País, escolhidos por meio de uma curadoria realizada entre a Gol Linhas Aérea e a agência Spray Content.
De acordo com o vice-presidente de vendas e marketing da Gol, Eduardo Bernardes, entre os produtos disponíveis estão obras de arte regionais, alimentos típicos, grafite, cestaria, vasos, bijuterias, panelas de barro, entre outros itens.
“Alguns produtos serão entregues na residência dos clientes e outros vendidos por meio de vouchers, ou seja, os compradores adquirem pelo site e têm até um ano para retirar a compra no local escolhido. Além do e-commerce, a plataforma também terá videoaulas nas quais serão ensinadas as técnicas por trás de cada produto, bem como também a história de seus criadores’’, explicou Bernardes.
‘’O ‘’Aproximando Distâncias’’ traz um pouco desse nosso País rico em beleza e cultura para dentro das casas das pessoas, enquanto a economia e as viagens a lazer não voltam à normalidade. Ao mesmo tempo, a iniciativa fornece apoio à sustentabilidade de comunidades criativas atingidas pela crise econômica causada pela pandemia’’, completou.
Artesãs do Amazonas
Entre os artistas, artesãos ou culinaristas de todas as regiões do Brasil, selecionados para integrar o projeto da Gol, está a artesã amazonense Clarice Duhigó, da etnia Tukano, que atua também como coordenadora da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro na capital – também chamada de “Numiã Kurá”, que na língua tukano significa “grupo de mulheres”.
O grupo, fundado em 1984, atualmente reúne 70 mulheres indígenas que confeccionam tapeçarias, cestarias, bijuterias e objetos decorativos com fibras de tucum – uma espécie de palmeira nativa da região amazônica que chega a atingir 10 metros de altura.
Os preços das peças custam entre R$2 a R$ 800 – sendo que estas últimas, cestos grandes e bolsas, levam aproximadamente 17 dias de confecção e, não raro, demandam a mão de obra de até duas artesãs.
“Os artesanatos indígenas que as mulheres confeccionam fazem parte da nossa identidade cultural dos povos indígenas do Rio Negro. Por meio das peças produzidas, contamos a nossa história de luta, nossos desafios, nossas conquistas, sobretudo, nossa história de superação. As pessoas que adquirem, estão acreditando, respeitando e valorizando a história da mulher Indígena”, contou Clarice ao BEM VIVER.
Com sede no bairro Aleixo, zona Centro-Sul da cidade, onde a maior parte dos artesanatos é exposto e vendido, as atividades presenciais da AMARN seguem restritas por conta da pandemia, porém, mesmo com todas as dificuldades, as mulheres associadas seguem produzindo as peças artesanais em casa.
Conforme Clarice, o ingresso das mulheres indígenas no projeto ‘’Aproximando Distâncias’’ começou quando uma representante da agência Spray Content conheceu as produções delas nas redes sociais em maio e, na ocasião, enviou uma mensagem convidando-as a participarem da seleção para a loja virtual. O resultado final foi divulgado no dia 15 de junho
“Ficamos surpresas e felizes com o resultado. A loja virtual ‘’Aproximando Distâncias’’ chegou em boa hora, pois dará oportunidade e segurança de escoamento para os produtos confeccionados pelas mulheres nos últimos cinco meses de isolamento social. A nossa participação no catálogo será, pra nós, uma oportunidade de empoderamento e protagonismo como coletivo feminino indígena”, disse Duhigó.
“Até porque nós, mulheres Indígenas que residimos em Manaus, somos trabalhadoras domésticas (babás, cozinheiras, diaristas), não temos uma renda fixa. O artesanato complementa a nossa renda. Com a chegada da pandemia, tudo ficou difícil para nós. O decreto do governo foi feito sem pensar na nossa realidade”, criticou.
Fibras de tucum
Além do impacto na renda mensal das mulheres indígenas, o período de quarentena também prejudicou o envio das fibras de tucum, matéria-prima das peças artesanais produzidas por elas e que, normalmente, são enviadas por “parentes” que vivem no município de São Gabriel da Cachoeira, distante 850 quilômetros de Manaus.
“Com suspensão da linha hidroviária de barco ficamos sem a nossa matéria prima, por isso, tivemos dificuldade em manter a produção de artesanato nos últimos meses”, lamentou Clarice Duhigó.
“Decidimos, então, fazer campanha com nossos parceiros para aquisição de cestas básicas e de matéria prima para retomar a produção de artesanato, organizado pelos nossos parceiros Sérgio Matos e Associação Zagaia”, completou a artesã.
Catálogo
Aos poucos, as mulheres indígenas do Alto Rio Negro que vivem (e sobrevivem) em Manaus estão retomando a produção de suas peças artesanais. Além de poder comprar os produtos na loja virtual ‘’Aproximando Distâncias’’, da Gol Linhas Aéreas, a partir da próxima segunda-feira (31), os interessados em adquirir uma (ou mais de uma) das produções artísticas delas podem entrar em contato nas redes sociais, no Instagram (@numiakura) e no Facebook (www.facebook.com/numiakur), para encomendar e marcar um horário para retirá-los na sede da AMARN, na rua VI, 156, Conjunto Villar Câmara, bairro Aleixo.
No final das contas, entre a valorização estética de um lado e a subsistência do outro, a relação entre as mulheres indígenas e os compradores acaba sendo uma rica troca cultural. A fundadora da Associação, Deolinda Freitas Prado, resumiu bem esse processo em frase célebre: “não é apenas uma peça que alguém compra e leva. É um pouco da história, do nosso jeito de ser no mundo que vai ocupar outros lugares, gerar perguntas, curiosidades”. Justo.