Artista plástico utiliza fuligem para criar desenhos científicos
O amazonense Haroldo Ayres trabalha em seu novo projeto 'Efeito Carbono', que consiste no uso da fuligem da lamparina para ilustrações de espécimes
O artista plástico amazonense Haroldo Ayres une, mais uma vez, a arte e a ciência. Dessa união nasceu o seu mais novo projeto intitulado “Efeito Carbono”, que consiste na utilização da fuligem do carbono para criar desenhos ilustrando espécimes, como, por exemplo, insetos, morcegos, peixes e fósseis, como o da preguiça e do grande jacaré da Amazônia. A técnica chamada Sfumato, desenvolvida por Leonardo Da Vinci, é feita a partir da fuligem coletada por Ayres, diretamente da lamparina. O trabalho é 100% ecológico, realizado em papéis recicláveis.
O artista se especializou em ilustração científica, e ao longo dos últimos 30 anos, teve trabalhos voltados para a sensibilização do uso de materiais recicláveis e, nesse novo projeto, não foi diferente. Ayres já havia pensado em realizar trabalhos didáticos a partir da fuligem, mas amadureceu a ideia durante o isolamento em razão da pandemia da Covid-19.
“Na pandemia, por estar isolado, a observar da janela da minha garagem, vi que eu poderia fazer alguma coisa aproveitando o carbono. Me veio a ideia de usar o utensílio doméstico, já usado centenariamente pelos ribeirinhos da Amazônia – a lamparina. Montei a ferramenta para extrair a fuligem e fazer os desenhos ilustrando os espécimes. Eu já tinha começado a fazer esse trabalho, mas me faltava tempo para desenvolver com melhor técnica”, declara Ayres.
Processo de produção
Haroldo teve iniciação científica no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e, desde então, a ciência é a sua inspiração. Ele conta que retrata fielmente os espécimes em seus trabalho: para isso, utiliza o lápis para desenhá-los. Ele faz o contorno e depois usa a fuligem. A monocromia dos desenhos é feita com cotonetes.
“Cada exemplar de ilustração tem o nome científico do espécime que eu tô retratando. Por exemplo, a aranha tem o nome científico dela, assim como os peixes, etc. É um trabalho didático e minucioso, que requer conhecimento técnico-científico para desenvolvê-lo”, destaca.
Depois de finalizados, os desenhos são anexados em apostilas, e de acordo com Ayres, a ideia é que posteriormente estejam em atlas. No momento, ele está aprimorando as técnicas e trabalhando para isso.
Projetos
O artista revela que, em breve, fará uma exposição com os desenhos. Mas, até então, os trabalhos ainda não foram apresentados ao público. Inclusive, esse não será o único projeto de Ayres ligado ao carbono.
“Existe uma gama de variedades onde o carbono está presente. Inclusive, já tem projeto usando a cinza da madeira, do carvão e a cinza de cigarro, que é uma coisa inédita. O material está pronto, mas falta dar o acabamento, pois tem que ser desenvolvido numa área bem arejada, e depois eu tenho que pegar livros didáticos referentes à matéria, como por exemplo, a entomologia (ciência que estuda os insetos) e a ictiologia (estudo dos peixes)”, ressalta.
Além dos já citados, o artista também trabalha com a osteologia, o estudo dos ossos, no qual retrata em seus desenhos, por exemplo, a diferença da cabeça de um mamífero para um réptil, etc.
Haroldo ressalta que tem como objetivo levar o projeto para as bibliotecas e escolas públicas. “O meu desejo maior é que esse material fique a disposição das bibliotecas. Que ele seja levado às escolas públicas para incentivar essa juventude, os artistas que tem na comunidade e mostrar uma forma diferente de trabalho”, destaca.