Manaus ter, 3 nov
A Crítica
Entretenimento

Artistas amazonenses conciliam maternidade e carreira cultural

Mães relatam desafios, rotina intensa e rede de apoio para manter atuação na arte e na cultura no Amazonas

Publicado em 10/05/2026 às 15h57
Artistas amazonenses conciliam maternidade e carreira cultural
Fotos: Arquivo pessoal

Ser mãe é uma arte, ainda mais quando se trata de Tata Jatobá, Rafa Guimarães e Allicia Castro. O que as três têm em comum é conciliar a maternidade e carreira de artista. Seja nos palcos ou nos bastidores, entre ensaios, camarins e noites de trabalho, essas artistas e mães amazonenses reinventam a maternidade com rede de apoio, adaptação e resistência.

A maternidade transforma, muda tudo. É amor misturado com responsabilidade. Para muitas dessas mães, seguir criando mesmo depois dos filhos exige talento, planejamento, renúncia, rede de apoio e uma capacidade constante de reinvenção.

Cantora e sambista, Tata Jatobá conhece bem essa travessia. Mãe de Fernanda, Helena e Vitória, ela conta que a maternidade alterou completamente sua relação com o tempo e com a profissão.

“A maternidade muda tudo sempre. A gente para tudo por um período para conhecer quem está chegando e entender como vai funcionar a vida”, diz.

Entre levar as filhas para ensaios, deixá-las com familiares durante apresentações e reorganizar horários, Tata aprendeu a construir “um jeitinho” possível de manter a carreira viva.

Na prática, o cotidiano é uma maratona silenciosa. “Acordar às cinco da manhã e dormir quando der. Escola, trabalho, atividades extras, música, conversas, broncas, choro… tudo junto e misturado”, resume.

Ainda assim, ela prefere enxergar a rotina sem dramatização.

“O segredo é não problematizar. Entender como pode funcionar da melhor forma e seguir com fé de que vai dar certo.”

A rede de apoio, segundo ela, é o que sustenta a engrenagem. O que seria da maternidade sem ter com quem contar?

“Todos podem dizer não, menos a família. Eles sempre estão ali.”

Tata admite que já precisou abrir mão de compromissos profissionais por causa das filhas, especialmente em momentos de doença ou necessidade emocional.

“Quando uma filha precisa, não tem como escolher. Você larga tudo.”

O AMOR FALA MAIS ALTO

Na trajetória da produtora cultural Rafa Guimarães, mãe de Lara, de 15 anos, Joaquim, de 8, a lógica é que o amor de mãe vem em primeiro lugar, mas conciliar é possível. Há 14 anos atuando na cena cultural do Amazonas, Rafa construiu sua carreira entre teatros, oficinas, festivais e projetos independentes. Hoje, sua rotina é guiada pelo planejamento e pela necessidade de adaptar os filhos à dinâmica da produção cultural.

Quando o espaço permite, eles acompanham a mãe nos eventos. Em uma programação infantil realizada na Biblioteca Pública do Amazonas, Joaquim ajudou nos bastidores carregando adereços cênicos para os artistas antes de participar da atividade como público.

“Eles acabam sendo público e equipe ao mesmo tempo”, conta.

Mas nem sempre é simples. Rafa lembra de um episódio durante um festival de teatro em que precisava operar os vídeos técnicos do espetáculo enquanto os filhos almoçavam dentro do camarim do teatro.

“O público estava vendo o espetáculo acontecer, mas eu estava dividida entre a precisão da técnica e o olhar atento neles.”

Sem rotina fixa e atuando em uma profissão marcada pela instabilidade, Rafa tenta transformar a ausência em diálogo e transparência.

“A culpa é uma companheira constante. Minha presença não se mede apenas em horas no relógio, mas também no legado de autonomia que estou deixando para eles.”

Essa experiência também motivou a criação do projeto “Mulheres da Cultura AM”, plataforma voltada para conectar e impulsionar mulheres da cena cultural amazônica.

“Nos projetos em que estou na direção de produção, minha prioridade é formar equipes com mulheres e mães. Assim a gente se fortalece.”

LUZ, CÂMERA, MATERNIDADE

Entre câmeras, ensaios fotográficos e empreendedorismo, a fotógrafa Allicia Castro também precisou reconstruir sua relação com o trabalho após a maternidade. Sócia fundadora da Apoena Fotografia, ela divide a rotina entre a criação das filhas Helena e Sol, os projetos do estúdio e a vida ao lado do companheiro e sócio, Rudá Marques.

Antes da fotografia, Allicia atuava como pedagoga, atriz e arte-educadora. Atualmente, ela percebe que a maternidade mudou profundamente sua percepção sobre tempo e produtividade.

“Antes eu vivia uma rotina espontânea e dedicada integralmente ao trabalho. Hoje tudo precisa ser planejado com antecedência”, afirma.

Nos primeiros anos do estúdio, a filha mais velha dormia em carrinhos nos bastidores enquanto acompanhava ensaios e reuniões.

“Já chegamos a dormir no estúdio durante projetos”, lembra.

Com o tempo, o casal percebeu a necessidade de reorganizar a dinâmica familiar e passou a criar pequenos rituais afetivos para compensar o tempo reduzido juntos: “dia do sorvete”, “dia da pizza”, “dia da felicidade”.

DIVISÃO DE TAREFAS

Com a chegada da segunda filha, Sol, novas adaptações surgiram. Hoje, Allicia dedica boa parte do tempo aos cuidados com a bebê, enquanto o companheiro assume parte da rotina profissional.

Ainda assim, ela busca integrar maternidade e arte sempre que possível. Em um ensaio recente, foi fotografada pelo marido usando a filha no sling dentro do estúdio.

“Foi bonito porque eu estava com saudade daquele espaço.”

Para ela, continuar investindo na carreira depois da maternidade também é uma forma de deixar um exemplo para as filhas.

“Quero mostrar que é possível ser mãe sem deixar de existir como mulher, artista e profissional.”