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Desbravando as letras e as ruas de uma Manaus (Trans)formadora

Escritora amazonense Márcia Antonelli expressa sua arte comercializando livretos em bares e praças no Centro de Manaus.

Publicado em 10/09/2023 às 15h33
Desbravando as letras e as ruas de uma Manaus (Trans)formadora
Foto: Acervo Pessoal

Márcia Antonelli é uma figura expressiva no cenário literário de Manaus. Nascida e criada na capital amazonense, ela se estabelece como uma voz disruptiva que desafia os estereótipos literários e sociais da região, por meio de prosas e ‘haicais’, um estilo de poesia de origem japonesa que consiste em um poema curto, tradicionalmente composto por três versos com 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente. 

Quando ingressou na Universidade Federal do Amazonas para estudar Letras décadas atrás, Márcia ainda era conhecida, ou talvez, desconhecida, como Márcio. Contudo, sua verdadeira identidade como Márcia Antonelli estava latente, urgindo para ser uma possibilidade que a acalentasse. 

A pluralidade de conceitos inerente à atmosfera universitária fomentou a autodescoberta e seu desenvolvimento como escritora, incentivando-a no que diz respeito à criação de uma revista intitulada ‘Cirrose’, enfocada na linguagem marginal, que se relaciona, portanto, com a cultura da periferia e com a valorização de seu vocabulário e de sua própria dicção. Neste movimento, a periferia tomaria para si o poder de narrar e produzir discursos. Não se trata de ‘representação artística da margem da sociedade’, mas a própria margem da sociedade se manifestando por meio de sua própria arte. 

“Reuni escritores e poetas em publicações diversas nesta revista, que teve 11 edições. No início, ela foi extremamente achincalhada por ser uma revista alternativa, que trazia um novo olhar sobre a cidade. Ela se fundamentava em uma literatura subversiva, mesmo, que permitia que todos pudessem escrever. A princípio, foi difícil. Porém, atualmente, essa revista é estudada, sendo objeto de pesquisa em uma dissertação de mestrado e em uma tese de doutorado”, partilha.

(Trans)formar o Olhar

A literatura de Márcia Antonelli é um reflexo das questões sociais que permeiam a cidade de Manaus e se inspira na subjetividade humana. 

“As inquietações são uma constante para qualquer escritor, seja na poesia ou na prosa. Minha literatura é profundamente influenciada por questões sociais, econômicas e os desafios que enfrentamos, como a desigualdade e a violência urbana. Meu olhar como uma mulher trans também molda minha escrita, abordando temas como preconceito e injustiça social. Essas preocupações permeiam todas as minhas histórias e contos”, enfatiza. 

Adaptação Cinematográfica

Determinados contos de Márcia Antonelli, como ‘A Louca’ e ‘O Desentupidor de Fossas’, são imersões em memórias de sua infância experienciada no bairro Educandos. ‘O Desentupidor de Fossas’, especificamente, pôde ser adaptado para as telas. 

É neste processo de transformar as páginas de um livreto em imagens em movimento que o diretor amazonense Jimmy Christian produz o filme ‘O Desentupidor’, recentemente homenageado no Festival de Cinema da Amazônia – ‘Olhar do Norte’, no mês de agosto. 

“Um dos personagens de ‘O Desentupidor de Fossas’ é um alcoólatra, que sobrevive em uma Manaus dos anos 80. Enquanto isso, a temática de ‘A Louca’ aborda as pessoas com distúrbios mentais, que, mesmo diante do avanço na área da psiquiatria, ainda enfrentam preconceitos. São dois personagens que vivem à margem da sociedade e que eu incorporo na minha escrita”, relata. 

Sustento 

Márcia Antonelli desafia a ideia de que não se pode viver exclusivamente da literatura. 

“Hoje, sou uma escritora, e não há outra ocupação que preencha minha vida. Minha função primordial é escrever, e é através da minha literatura que sustento minha existência. É assim, simplesmente. Quando questionam se é possível viver da literatura, eu respondo com convicção que sim. Até agora, tenho conseguido manter meu próprio lar, pagar minhas despesas e garantir minha alimentação, tudo com base no que produzo. A cada mês, continuo a criar livros, que chamo de “livretos”, e os vendo nos bares e praças, no Centro de Manaus. É claro que não se trata de enriquecimento, mas, com certeza, não enfrento privações ou fome.”

Apesar de conquistas alicerçadas em convites para palestrar em instituições acadêmicas e ter textos publicados em revistas internacionais alternativas, Márcia reconhece que o maior desafio é a apatia dos leitores.

“Em Manaus, meu principal desafio reside nos leitores. Embora muitos tenham recursos para consumir e adquirir livros, a aversão à leitura prevalece. Isso é algo que enfrentei e continuo enfrentando. Ocorre raramente, mas ainda persiste o preconceito quando as pessoas me veem, com livros nas mãos, vendendo nas ruas – uma prática não tão comum em Manaus. A literatura local, por muito tempo, foi elitizada, hermética e acadêmica, distante do popular. Poucos escritores alternativos emergiram nesta cidade. Talvez eu seja uma das pessoas que inspiram outros a criar seus próprios trabalhos, a produzir seus livretos e se aventurar nas ruas para alcançar o público diretamente”, complementa. 

Para aqueles que desejam adquirir os livretos de Márcia, é necessário entrar em contato através do número (92) 98425-7217. Os preços das obras correspondem ao valor de R$10,00.