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Espetáculo homenageia centenário de Clarice Lispector

Interpretação delicada e nobre de Rita Elmôr, faz homenagem ao centenário de Clarice Lispector em 2020.

Publicado em 22/12/2020 às 01h03 · Atualizado em 09/03/2022 às 12h01
Espetáculo homenageia centenário de Clarice Lispector
Foto: Divulgação

“Clarice Lispector & Eu – O Mundo Não É Chato” é uma reflexão amorosa sobre a vida. Com humor e leveza, a atriz Rita Elmôr e a escritora Clarice Lispector se misturam ao contar as suas histórias.

Os textos da homenageada Clarice Lispector e a histórias pessoais da atriz se unem e por vezes, a história de uma serve a da outra, fazendo com que o espectador no decorrer da ação, nem sempre saiba quem está falando. Esse mistério é parte da graça da montagem. A peça, como numa conversa entre amigos, convida o público a refletir sobre diversas situações cotidianas com um olhar inteligente e bem humorado.

A valorização da palavra

A peça começa com a narrativa de um fato curioso. Na primeira produção profissional da carreira da atriz Rita Elmôr, em 1998, ela interpretava a ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). A caracterização era feita pelo maquiador João Roberto Pereira (1944-2014), o famoso Gilles, que maquiou a escritora nos seus últimos anos de vida. O resultado é que Elmôr ficava tão parecida com a personagem que as fotos de pulgação dessa peça, desde então e até agora, são frequentemente utilizadas como imagens da própria Clarice. Em outras palavras, muita gente publica fotos de Elmôr como se fosse Lispector.

Para além de uma óbvia reflexão sobre o uso (inadvertido) da imagem em tempos de explosão de conteúdo, “O mundo não é chato” propõe, como ponto de partida, uma sensação sobre de que modo possivelmente nos perpetuaremos na Terra. Esse desejo de alongar a existência, que aparece na cena dos coveiros em “Hamlet”, mas também, na grade atual de programação do Rio de Janeiro, no monólogo “Vaga Carne” e no musical “Ordinary Days”, é questão humana e, por isso, cara. É como ser humano que Rita Elmôr se anuncia como personagem de si mesma diante do público olhando para as narrativas de Clarice Lispector. E, porque a obra dessa escritora é um dos melhores exemplos de nossa literatura de pesquisa sobre o interior do homem, enquanto concepção estética de espetáculo teatral, esse é um grande feito.

A dramaturgia contempla também narrativas colhidas da obra de Clarice: trinta e seis recortes aprovados pela família da autora. “A paixão segundo G.H.” e vários contos são facilmente identificados. A beleza está no modo como Elmôr vence o desafio de atualizar isso para teatro. Sem recorrer ao impulso grosseiro de supervalorizar a ação, criando situações que às vezes nem existem como meios de fazer a interpretação negativamente se sobrepor à literatura, “O mundo não é chato” investe na sensibilidade introspectiva, no comedimento, na força da palavra, sustentando-se naquilo que Clarice era melhor: a reflexão. Versões teatrais da obra de Lispector são frequentes, e ficarão ainda mais numerosas em 2017 devido à celebração dos quarenta anos de falecimento da escritora. No entanto, é raro encontrar boas montagens, como “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, com Beth Goulart; e “Silêncios claros”, com Esther Jablonski; e como essa aqui infelizmente.

Texto: Clarice Lispector e Rita Elmor

Elenco: Rita Elmor

Direção: Rubens Camelo

Cenário e Luz: Paulo Denizot

Figurino: Mel Akerman

Coordenador de Produção: Fernando Duarte

Direção de Produção: Fabrício Chianello

Realização: Vissi Darte Produções Artísticas

Teatro Manauara

Dias 28 e 29 de dezembro de 2020

Segunda feira 19h e 21h

Terça Feira 19h e 21h

Entrada gratuita. Ingressos na bilheteriadigital.com