Filmes amazonenses abordam questões sociais urgentes
Segurança pública, fome e saneamento básico são alguns dos temas presentes nas obras
A sétima arte usufrui do poder de denunciar questões sociais urgentes e provocar debates essenciais referentes a embaraços coletivos enfrentados em comunidades ao redor do mundo.
Em Manaus, três filmes amazonenses de curta e média-metragem têm explorado profundamente problemáticas locais, lançando luz sobre temáticas como a fome, a miséria, uma segurança pública precária aliada à violência e saneamento básico escasso, exemplos descritos no decorrer das películas.
As produções audiovisuais ‘A Estratégia da Fome’, ‘Controle’ e ‘O Desentupidor’, além de terem sido expostas, com prestígio, no Festival de Cinema da Amazônia, ‘Olhar do Norte’, revelam como o cinema amazonense está fomentando discussões acerca de desafios sociais.
‘A Estratégia da Fome’
‘A Estratégia da Fome’ é uma obra cinematográfica que propõe uma ode ao Cinema Novo e ao Cinema Marginal, movimentos cinematográficos brasileiros pertencentes às décadas de 60 e 70.
O diretor Walter Fernandes Jr. visa trazer uma abordagem contemporânea a essa estética, explorando contrapontos e interpretações diversas.
A narrativa é fragmentada, os personagens não são previsíveis, e o filme objetiva desenvolver uma linguagem cinematográfica que una elementos subterrâneos e populares.
“O título do filme faz referência a uma estratégia de guerra, onde se usa o conceito de fome como uma arma. Ao considerarmos as incoerências do Brasil, que parece querer manter, a todo momento, a maior parte da sociedade marginalizada e refém da insegurança alimentar, o filme pode chamar a atenção, mesmo de forma não realista, para essa determinada falta de esperança e ausência de um sentimento revolucionário genuíno”, afirma o cineasta.
‘Controle’

‘Controle’ venceu o prêmio de ‘Melhor Direção de Fotografia’ no Festival de Cinema da Amazônia ‘Olhar do Norte’ (Foto: Reprodução)
‘Controle’ é um filme elaborado por intermédio de diversas fontes de inspiração. O diretor Ricardo Manjaro revela que uma parte significativa de sua motivação estava na exploração da cinematografia de um personagem invasor de casas, buscando evocar imagens e sentimentos específicos.
“O fato de vivermos em uma das cidades mais violentas do País, cujo clima de insegurança atrai a quase onipresença dos seguranças de bairro, também nos influenciou enquanto criávamos o filme”, complementa Ricardo.
A obra também se destaca pela escolha de linguagem que busca expressar a subjetividade emocional do personagem principal, um aspirante a vigilante noturno que sofre rotineiramente com as consequências de traumas passados.
O diretor deseja que o público desfrute da sensação de residir na mente do protagonista, e suas referências incluem clássicos do terror e filmes modernos que originam suspense e formulam uma atmosfera de maneira intensa.
“Poderia dizer que é um filme sobre solidão, abrangendo uma marginalização que não é apenas social, mas também espiritual, bem como pondera a que lugares sombrios a masculinidade pode ser levada em busca de algum pertencimento em um mundo cada vez mais confuso”, enfatiza o diretor.
‘O Desentupidor’

‘Raimundo Perfumado já é uma ironia da história, que também se mostra dramática’, diz o cineasta Jimmy Christian, diretor da produção audiovisual (Foto: Reprodução)
Adaptado dos escritos de Márcia Antonelli, uma escritora que vende seus livretos por bares localizados no Centro de Manaus, ‘O Desentupidor’ propõe uma carga visual impactante.
O diretor Jimmy Christian compartilha sua conexão com a autora: “Conhecemos Márcia desde a universidade, e seus contos têm a capacidade de nos tocar profundamente”. Este é o segundo conto adaptado por ele, após ‘Zico, o Jabuti’, e o motivo de sua escolha é compreensível: “Ao ler ‘O Desentupidor de Fossas’, imediatamente me identifiquei. Afinal, quem nunca cruzou com um profissional desse tipo na vida?”, indaga o cineasta.
O filme apresenta Raimundo Perfumado, um desentupidor de fossas, ofício comum na década de 80, que encara o trabalho a base de consumo de álcool extremo – até uma tragédia acontecer.
Jimmy Christian anseia que as futuras exibições de ‘O Desentupidor’ permitam que o público reflita profundamente sobre as questões abordadas. “É um filme crítico no que diz respeito às temáticas que envolvem abandono, alcoolismo, meio ambiente, saneamento básico, segurança, solidão, moradia e várias outras coisas”, conclui.