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Memes ultrapassam as telas e ganham o Carnaval

Especialista analisa como os memes mudam nossa identidade na era digital

Publicado em 15/02/2026 às 10h05
Memes ultrapassam as telas e ganham o Carnaval
Foto: Divulgação

Todo ano é assim: basta chegar o carnaval para que personagens improváveis dominem os blocos. Não são apenas figuras tradicionais ou celebridades: são prints, frases virais, vídeos curtos e cenas que nasceram nas redes sociais. O que começa como piada no feed termina estampado em camisetas, maquiagens e fantasias criativas. O meme, linguagem típica da Internet, atravessa a tela e ganha corpo – e alma carnavalesca.

Para a jornalista, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutora em Ciências da Informação, Cristiane Barbosa, esse movimento revela uma mudança profunda na forma como vivemos o digital. “Quando um meme sai da Internet e vira fantasia de carnaval, isso mostra como o digital já faz parte da nossa vida social de verdade. Não é mais um ‘mundo paralelo’”, afirmou ao BEM VIVER deste sábado (14).


Para Cristiane Barbosa, quando um meme sai da Internet e vira fantasia de carnaval, isso mostra como o digital já faz parte da nossa vida social de verdade (Foto: Divulgação)

 

Segundo ela, a construção de identidade passa, cada vez mais, pelo repertório compartilhado online. “Vestir um meme é uma forma de dizer: ‘Eu entendo essa referência’, ‘Eu faço parte desse grupo’, ‘Eu vivi esse momento’. É quase um código de reconhecimento coletivo”.

Em um país onde mais de 80% da população está conectada, segundo a pesquisa TIC Domicílios (Cetic.br), o repertório digital já se consolidou como repertório cultural amplo. Mas se fantasiar de meme não significa apenas reproduzir uma piada. “Dificilmente é só piada. Meme é uma forma muito contemporânea de comentar o mundo. Ele pode ser engraçado, mas também carrega crítica, ironia e posicionamento”, explicou Cristiane.

Ao sair das telas, o meme transforma o corpo em suporte de narrativa. “É como se o corpo virasse extensão da timeline”, completou a jornalista.

Linguagem contemporânea

A força dessa linguagem ficou evidente, por exemplo, durante a pandemia. Em meio ao medo e à tensão, os memes ajudaram a traduzir sentimentos coletivos. “Eles funcionam como linguagem coletiva, condensam sentimentos sociais em imagens simples e rápidas”. No carnaval, essa condensação vira performance pública, compartilhada ao vivo, em ritmo de festa.


Os memes funcionam como linguagem coletiva, condensando sentimentos sociais em imagens simples e rápidas (Foto: Divulgação)

 

Ainda assim, nem todo meme sobrevive ao fluxo acelerado das redes. A maioria desaparece em poucos dias, engolida pela velocidade da Internet. Cristiane associa esse fenômeno ao conceito de “sociedade líquida”, do filósofo Zygmunt Bauman, marcada pela transitoriedade e pela constante renovação.

Para que um meme “fure a bolha” e chegue às ruas, é preciso algo a mais. “Alguns atravessam meses ou anos quando conseguem traduzir uma experiência coletiva muito forte. Se o meme fala de algo que muita gente sente [frustração política, crise econômica, dilemas de relacionamento], ele ganha potência.” Fora isso, a capacidade de ser adaptado e “remixado” também aumenta sua longevidade.

Ao mesmo tempo, o fenômeno exige atenção. Quando memes ligados a temas sensíveis viram fantasia, há risco de descontextualização. “O problema não é rir, pois o humor sempre foi ferramenta de crítica social. Mas é importante ter consciência de onde aquela piada veio e o que ela representa. A cultura dos memes é criativa, democrática e muito potente. Só que, como toda linguagem, precisa de responsabilidade. A gente ainda está aprendendo a lidar com essa nova forma de expressão pública”, finalizou Cristiane.