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Mocambo de Todos os Santos: festival comunitário no interior do Amazonas vive de fé e floresta

Durante três noites, as agremiações da terra se apresentam com enormes e engenhosas alegorias construídas apenas de matérias extraídos da mata. É esse o encanto dos artistas mocambenses: fazer mágica com a floresta

Publicado em 12/08/2024 às 14h18
Mocambo de Todos os Santos: festival comunitário no interior do Amazonas vive de fé e floresta
Foto: Junio Matos/A CRÍTICA

No final da década de 40 surge o Mocambo (a 400 quilômetros de Manaus), como refúgio para os moradores das várzeas que fugiam de grandes cheias. O nome vem pela localização de difícil acesso. E pela dificuldade, os primeiros comunitários precisaram se unir para abrir caminho e limpar os troncos ao longo do Igarapé. Quase que de forma intuitiva, os mocambenses perpetuam essa história, reeditada agora em forma de folclore, no Festival Mocambo do Arari. Terra de fé e união, de galhos e madeiras. Mocambo de todos os Santos.

Pelas ruas, o calor pode até afugentar quem vive no distrito de Parintins, mas todos os caminhos da comunidade sussuram a sua história. É pelos muros pixados e placas de suplício a São João, e pelo asfalto coberto de troncos, cipós e sementes que se entende a fé e dedicação da comunidade a um dos maiores festivais folclóricos sustentáveis do país.

Durante três noites, as agremiações da terra se apresentam com enormes e engenhosas alegorias construídas apenas de matérias extraídos da mata. É esse o encanto dos artistas mocambenses: fazer mágica com a floresta.

“O Mocambo é uma comunidade muito baseada na fé. Não só a fé católica. É misturada também às crenças populares, o curandeirismo. Às benzedeiras. E isso gira em torno da comunidade toda”, explica Francisco Caldeira, um dos nomes mais famosos do Mocambo. 


(Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

O famoso “Chiquinho” carrega as credenciais de professor, historiador e um dos maiores conhecedores do Festival do Mocambo, além de ser compositor e colaborador de um dos Bois do Festival. Por uma tarde inteira, Chiquinho caminhou  com a equipe de A CRÍTICA.

Começou em uma entrevista, e insistiu em mostrar mais da cidade. Para além do Mocambódromo, onde os bois Espalha Emoção e Touro Branco se apresentam, igreja e encantos da comunidade de pouco mais de 3 mil habitantes.


O professor, historiador e grande conhecedor do Festival do Mocambo conversou com A CRÍTICA (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

“O povo mocambense é sempre muito festivo. Brincadeiras de roda, antigsmente se dancava olodum. O pássaro Jaçanã, que já vem dos anos 50. O pássaro Pavão, dos anos 70. Esses chamados de cordão de pássaro participam diretamente das festas religiosas”, revive Chiquinho.


(Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

Nem só de Boi vive a comunidade. Com as tradições de cirandas e dos pássaros que ele cita – uma apresentação que mescla culturas. Agora a raiz de todo o festival, como pode se imaginar, vem dos gigantes da Ilha Tupinambara: Caprichoso e Garantido. Os Bumbás costumavam fazer apresentações na comunidade. A partir daí, inspirou brincadeira de criança, de rua. Foi então que os moradores construíram um primeiro boi, a partir de um crânio de um boi, com o corpo de Inajá e talas. Daí começa a tradição que surgiu nos anos 90 e segue até hoje: construir o boi do chão – da terra.

“Talvez sem querer tenha se instaurado essa tradição da sustentabilidade, de fazer tudo na madeira. Na madeira, na semente, na palha, no cipó. Desde lá. Até tinha a ideia de fazer uma base de ferro por causa da segurança. Mas  diferença do festival é mesmo a madeira. As palhas, as sementes. O pessoal tem muita criatividade aqui”.

Da tradição veio a comunhão: manter viva a sustentabilidade e originalidade de um povo que se recusa a abraçar a tecnologia por um festival de arte surrealista, como sugere o pesquisador. com Boi amarelo, com lendas e proporções alegóricas que fogem à fidelidade da sua real imagem. 

Os Bois da mata

Para o Touro Branco, o princípio sustentável, tão responsável por ajudar na propagação do festival, é um norte em todas as suas concepções. Da construção do boi de arena, ao retorno à floresta. Dar para receber. 

“A intenção de ser sustentável, de ser ecológico. A gente procura extrair da natureza, aquela madeira que está lá jogada, já morta. E também tem um projeto de reflorestamento dessas madeiras”, conta a presidente do Touro Branco, Fábia Maria.

Vanilson Oliveira, vice-presidente e um dos fundadores do Espalha Emoção, conta sobre os primórdios do festival, com a brincadeira de rua, e sonha com a expansão do Mocambo. 


Vanilson Oliveira é um dos fundadores do Espalha Emoção (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

“Começou assim, nessa nossa brincadeira. A gente montou o boi com nossos materiais e foi pra rua. Todos esses anos atrás. E continua fazendo, como pode, com nossos artistas. Tirando do próprio bolso pra manter a tradição”.