Os programas infantis das décadas de 80/90 e seus impactos na geração atual
Os programas infantis da TV aberta moldaram valores, identidades e afetos que, mesmo anos depois, ainda ecoam na vida adulta de quem cresceu nas décadas de 1980, 1990 e 2000.
Muito antes dos tablets e algoritmos, foi diante do “tubo mágico” que milhares de crianças brasileiras aprenderam, sonharam e formaram seus primeiros laços com o mundo. De “Xou da Xuxa” a “Castelo Rá-Tim-Bum”, os programas infantis da TV aberta moldaram valores, identidades e afetos que, mesmo anos depois, ainda ecoam na vida adulta de quem cresceu nas décadas de 1980, 1990 e 2000.
Conforme a jornalista, influencer e especialista em Marketing, Mônica Dias, são vários os elementos culturais e valores dessas atrações infantis que seguem moldando não somente a identidade, mas também as aspirações dos adultos de hoje.
“Os programas tinham sempre um viés muito educativo, mas de uma forma que aguçava a criatividade. No meu caso, estimulavam-me a querer aprender, eu amava. Deixava a minha mãe maluca perguntando as coisas [risos]”, diverte-se.

A jornalista Mônica Dias recorda que os programas antigos possuíam sempre um viés muito educativo, mas de uma forma que aguçava a criatividade (Divulgação)
Ela pontua que, com a transição para as plataformas digitais e o consumo de conteúdos sob demanda, a forma como as crianças e jovens se relacionam com a cultura tem se alterado.
“O formato atual é muito cômodo, mas diminui aquele sentimento de fazer algo junto e sentir algo junto. Esperar por um episódio, combinar de ir assistir na casa de alguém. Isso era um evento, uma forma de socializar e criar laços. Hoje, cada um assiste no seu celular ou vê TV mexendo no celular, não tem a mesma energia”, explicou a jornalista.
Lembranças
O advogado Leonardo Ramada foi uma dessas crianças que cresceram assistindo a esses programas. Ele defende que as atrações trabalhavam com o lúdico para cativar o imaginário infantil.
“Traziam uma sensação de produção manual, que, hoje em dia, quase não é explorada em produções infantis. Tais pontos foram cruciais para o despertar um lado criativo e instigante quanto a questionamentos em relação aos conteúdos educacionais e informativos que traziam consigo”, disse.

O advogado Leonardo Ramada reforça que as atrações traziam, também, uma sensação de pertencimento e inclusão daquilo que era visto como socialmente estranho (Divulgação)
De acordo com Ramada, por esses programas trabalharem temas diversos de maneira criativa – ainda mais em um período de formação de personalidade infantil -, houve uma potencialidade do explorar imaginário.
“Desde a possibilidade de ver alguém podendo se expressar através dos figurinos extravagantes, bem como pela possibilidade de me encontrar naquele lugar de explorar minha criatividade e de aceitação dentro do que era diferente. Exemplo disso era o próprio personagem principal de ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, o Nino. (…) Outro ponto que foi moldado por esses programas, é a sensação de pertencimento, amizade e confraternização”, ilustrou o advogado.
Impactos
Com conteúdos estruturados que integravam aspectos educativos e lúdicos, os programas infantis das décadas de 80 e 90 contribuíam tanto para a aprendizagem formal quanto para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Além disso, favoreciam a organização da rotina das crianças, uma vez que eram transmitidos em horários fixos, facilitando a previsibilidade e a segurança emocional.
“À luz da teoria da aprendizagem social de Albert Bandura, compreende-se que as crianças aprendem por meio da observação e imitação de modelos. Nesse sentido, apresentadores e personagens desses programas infantis assumiam o papel de modelos comportamentais, exercendo influência direta na formação de atitudes, valores e hábitos infantis”, diz a neuropsicóloga e psicóloga clínica Gláucia Conde.
O “Xou da Xuxa”, por exemplo, transmitia mensagens que valorizavam a amizade, empatia, autoestima e respeito ao outro – competências socioemocionais fundamentais para o desenvolvimento saudável na infância.

‘Castelo Rá-Tim-Bum’ se destacava pelo estímulo ao desenvolvimento cognitivo, promovendo a curiosidade, a imaginação e o interesse pelo conhecimento (Divulgação)
Já o programa “Castelo Rá-Tim-Bum” se destacava pelo estímulo ao desenvolvimento cognitivo, promovendo a curiosidade, a imaginação e o interesse pelo conhecimento, com conteúdos voltados para a literatura, ciência, música e artes. Esses elementos são essenciais para a ampliação do repertório simbólico e da linguagem.
“Atualmente, observa-se no ambiente clínico o impacto afetivo dessas experiências na vida adulta. Muitos pais relatam com nostalgia suas vivências infantis associadas a esses programas, ressaltando a importância das memórias afetivas construídas nesse período. Essa nostalgia pode funcionar como um recurso de regulação emocional na vida adulta, pois ativa lembranças vinculadas ao afeto, à segurança e à estabilidade”, explica a psicóloga.

Segundo a psicóloga Gláucia Conde, é fundamental reconhecer que os programas infantis não são apenas entretenimento, mas também instrumentos de socialização e aprendizagem (Divulgação)
Em contrapartida, com o advento das novas tecnologias e o fácil acesso a múltiplas plataformas de conteúdo, as crianças contemporâneas estão expostas a uma diversidade de programas, muitas vezes sem a mediação ativa dos adultos.
“Segundo pesquisadores do desenvolvimento infantil, o consumo não supervisionado de conteúdos digitais pode afetar negativamente a construção de valores, o desenvolvimento da atenção sustentada, o comportamento social e o senso crítico”, completou Gláucia.