Representatividade feminina na arte e cultura amazonense
Mulheres do rap, HQ e grafitti falam sobre os lugares que ocupam na cena local e sobre as conquistas e desafios encontrados na profissão
Todo dia é dia de exaltar as mulheres. No entanto, o dia 8 de março é a data oficial escolhida para celebrar o espaço, as histórias e conquistas de todas elas. No Dia Internacional da Mulher, o BEM VIVER reuniu quatro artistas amazonenses que, dia após dia, colocam sua arte pra jogo, em busca de um lugar ao sol. Mulheres competentes, donas de si e talentosas; mas que nem sempre recebem o devido reconhecimento. No mercado que atuam, muitas vezes é a presença masculina que ainda predomina – mas elas não se intimidam e acreditam que há lugar para todos.
Nas HQ’s
A manauara Sâmela Hidalgo atua em São Paulo como editora de quadrinhos, colunista, curadora e produtora editorial. A criadora do projeto Norte em Quadrinhos iniciou a carreira na editora Devir, uma das maiores editoras de quadrinhos do Brasil. Ela conta que a presença feminina no universo das HQ’s sempre foi escassa e acredita que, por isso, as mulheres não eram bem representadas nas heroínas, até ocuparem esse espaço. “Quando passamos a ingressar na produção desses quadrinhos, passamos a criar histórias reais com trajes reais que não fossem completamente sexualizados e que as histórias das heroínas não servissem apenas como escada para o herói homem”, diz ela.
Para Sâmela, o maior desafio que a mulher quadrinista enfrenta é ser levada a sério na profissão. “Ser levada a sério, não ser menosprezada e não achar que a mulher faz quadrinhos apenas de um gênero. Somos plurais!”, ressalta Hidalgo. Ela enfatiza que sempre que pode oportuniza e profissionaliza outras mulheres nortistas. “Sempre que preciso indicar uma artista ou chamar pra trabalhar comigo, eu penso em duas coisas: tem que ser do Norte e tem que ser mulher. São sempre minhas primeiras opções. E sempre conversando e criando uma rede de apoio pra que ninguém desista”, conclui.
Nos murais
O grafitti faz parte da vida da amazonense Tyna Guedes desde o ano de 2007. Atualmente, a artista faz parte de uma crew (equipe) feminina formada por cinco mulheres, chamada “Trakinas Crew”, atuante na cidade há 10 anos. A grafiteira ressalta que a cena ainda é muito machista, com um acesso limitado para as mulheres. “Assim como na maioria das áreas na sociedade, o graffiti é um meio muito dominado por homens e consequentemente muito machista, com acesso limitado para nós. Conseguir quebrar o padrão do que é esperado que seja feito ou lugares que esperam que alcancemos em si, já provoca esse impacto, tanto entre nós mulheres, quanto entre os grafiteiros que se veem na posição de dividir esse espaço”, diz ela.
Tyna incentiva outras mulheres nas ruas, por meio de suas artes. “Acredito que só o fato de ser mulher e estar presente na rua já seja um incentivo para outras mulheres que tem vontade de começar a fazer o mesmo”, destaca ela, que comenta, ainda, sobre o incentivo por meio do envolvimento em eventos da cena. “Além de fazer parte da organização de eventos em Manaus e nacional, voltados para mulheres que são de uma importância para troca, referência e fortalecimento da cena feminina no Brasil”, finaliza Guedes.
No rap
Lary Go & Strela são pioneiras na cena local do rap feminino. As irmãs rappers foram as primeiras mulheres a lançar um EP no Estado, e em janeiro desse ano lançaram o álbum visual chamado “Lary Go & Strela e convidados”. Larissa e Lauriane, mais conhecidas pelos nomes artísticos Lary Go & Strela, falaram em entrevista ao A CRÍTICA, no início do ano, sobre a forte presença feminina e LGBTQIAP+ nesse projeto. “Fizemos um álbum visual amplamente diversificado, procuramos unir alguns talentos que o Norte possui, podendo assim nos explorar artisticamente, fazendo assim conexões com vários profissionais da cena local, incentivando e gerando renda”, ressaltou Strela, na época.
As jovens artistas procuram dar espaço a novos rostos e vozes femininas do rap amazonense, como no álbum “Lary Go & Strela e convidados”, que contou com a participação de Keith Pitbull, Dj Rafa Militão, Lua Negra e outras artistas.
Ana Larissa (Lary Go) e Lauriane Gama (Strela) formaram a dupla em 2015. Antes da formação elas faziam parte de batalhas de MCs e do movimento Hip Hop, por meio do grafitti. As irmãs cantaram no Teatro Amazonas; no Festival Até o Tucupi em duas edições; no Festival Passo a Paço e abriram o show do Djonga, Nocivo Shomon e 3030 em Manaus.