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A Crítica
Esportes

‘Eu vim para apertar a mão e bater o martelo’

Presidente da Confederação Brasileira de Vôlei para Deficientes fala dos últimos ajustes para que Manaus receba treinamentos da seleção brasileira

Publicado em 24/07/2022 às 12h20 · Atualizado em 24/07/2022 às 13h47
‘Eu vim para apertar a mão e bater o martelo’
Foto: Arlesson Sicsú/Freelancer

Manaus receberá, entre o fim de setembro e o início de outubro, as seleções masculina e feminina de vôlei sentado para uma semana de treinamentos na Arena Amadeu Teixeira. Os detalhes finais para viabilizar a vinda dos atletas e comissões técnicas foram ajustados durante a última semana, quando o presidente da Confederação Brasileira de Vôlei para Deficientes (CBVD), Ângelo Alves Neto, esteve na capital amazonense e fez reuniões com o Prefeito de Manaus, David Almeida, e o vereador Elan Alencar, além do reitor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), André Luiz Nunes Zogahib.

Primeiro, no dia 18 de setembro, chega a seleção feminina e treina em Manaus até o dia 25. A partir do dia 25, é o time masculino que fará as atividades até 1º de outubro.

Mais do que preparar os atletas para o Mundial, que acontece em Sarajevo, na Bósnia, de 4 a 11 de novembro, a programação é uma ‘semente’. Algumas atividades serão abertas ao público e Ângelo espera que pessoas com deficiência conheçam e procurem praticar o vôlei sentado, assim como a amazonense Laiana Batista, atleta que foi medalhista de bronze com a seleção brasileira nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro (2016) e Tóquio (2020).

O presidente da CBVD também falou, em entrevista ao jornal A Crítica dos projetos para o Mundial e para os Jogos Paralímpicos de Paris 2024, que é um ciclo mais curto.


(Foto: Arlesson Sicsú/Freelancer)

 

Pode explicar o que você veio viabilizar em Manaus??

O Mundial seria em maio, na China, então nós começamos as semanas de treinamento em janeiro, fevereiro, março e abril.  Em abril se falou que não seria mais em maio, foi cancelado e transferido para o final do ano e a gente só tem cinco semanas de treinamento por ano e eu gastei todas as minhas semanas de treinamento. Então ele passou para novembro, de 4 a 11 de novembro em Sarajevo, na Bósnia e eu só tenho uma semana de treinamento agora. Eu recebo muitos convites dos estados para trazer a seleção brasileira e estou vendo parcerias, como a que eu vim fazer aqui. Vim apertar a mão e firmar, para bater o martelo. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) está dando toda alimentação, o Governo do Estado do Amazonas, através da FAAR, está dando a hospedagem na Vila e a Arena Amadeu Teixeira. E o ‘transfer’, com o vereador Elan Alencar e o que eu estou fazendo aqui? Estou só batendo o martelo e vendo quadra, vendo alojamento. Passamos na hospedagem, fizemos algumas observações, mas tudo tranquilo.

Que observações?

Detalhes. Por exemplo: nós temos um cadeirante, que é da seleção masculina, o Danielzinho e esse quarto precisa ser adaptado para ele. Os outros não porque todos os outros andam e o Danielzinho, não. Vim ver a quadra agora. Quando a equipe chegar vai fazer a marcação, fazer os reparos e o que tiver que fazer, eles fazem. Eles chegam aqui uns três dias antes e montam todo o nosso aparato.

Serão apenas treinos, ou farão algum tipo de amistoso com a seleção amazonense?

A gente vai convidar o time daqui para bater uma bolinha. Não dá para fazer amistoso com ela porque a discrepância é muito grande e pode machucar porque os jogadores da seleção são fortes e não acontecer o que aconteceu no Parapan de Lima, quando os Estados Unidos jogaram contra o Peru e a moça dos Estados Unidos deu uma pancada que pegou na cabeça da menina do Peru e ela desmaiou. E aí o que fizeram? Retiraram o vôlei sentado do programa e por isso que, agora no Chile, não terá vôlei sentado. Vamos bater uma bolinha, convidar o pessoal daqui até para prestigiar e dar uma fomentada. Vamos transmitir o treino pela TV da Confederação, no Youtube. Tinha um monte de estado querendo esse treinamento, mas eu sou nordestino, né? Adoro o Norte, aqui me sinto em casa então trouxemos a seleção para cá, ainda não tínhamos trazido e acho justo fazer esse esforço com órgãos municipais e estaduais, públicas e privadas para fazer essa grande festa.

E trazer programação para Manaus é um sonho antigo, né? Em 2020, você esteve aqui para viabilizar o Norte e Nordeste…

Sim. A competição não veio por causa da pandemia. O Brasileiro é regionalizado e existe o Norte-Nordeste. Aconteceu agora a etapa feminina que foi em Maceió e vai acontecer a masculina, que vai ser em Fortaleza. Já teve etapa no Nordeste, a próxima vai ser no Norte e eu já fiz campeonato Brasileiro no Pará, aí temos times no Amapá em Santarém e temos aqui, mas ainda vamos fazer uma etapa aqui, não tenha dúvida.

De que forma você acredita que essa vinda para o Norte também ajude a popularizar a modalidade na região?

Todas as vezes que a gente plantou essa sementinha sempre colheu frutos no futuro. Foi assim em Fortaleza, na Paraíba,  no Espírito Santo, no Rio Grande do Sul agora já tem clubes lá e essa é a minha intenção aqui. Como é que pode o Brasil que tem essas dimensões aqui ter 45 clubes e o Irã, que é do tamanho do meu estado, Sergipe, e ter 300 times? Isso não existe. Será que nós não temos paratletas aqui nesse país de meu Deus? Aqui era para ter uns 15 times, então esse é o meu intuito. Eu me lembro  quando eu era mais novo, deficiente só ficava em casa trancado, vendo televisão e tem muitos como eu por aí. Eu sempre falei isso em entrevistas que eu faço: você falar, você aparecer no jornal dar uma entrevista, alguém que estava ouvindo vem conhecer. Quando eu era atleta e era presidente do meu clube eu fazia apresentações para o interior a gente tem vários jogadores do interior, então é isso o que eu quero fazer no Brasil. Quando sair quero ver isso ai: ter time em todo o Brasil, ser forte e ter uma base forte

E quanto às categorias de base? Como tem sido desenvolvido este trabalho?

Este ano graças ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o presidente, José Conrado, disponibilizou uma verba de fomento para esta parte inicial dos jovens. A gente já queria fazer isso, mas a nossa receita não tinha condições. A gente tem muitos sonhos, mas tem pouco dinheiro. Com base neste novo projeto, nesta nova estrutura do CPB, nós iniciamos o que a gente sempre quis fazer. Neste ano nós temos treino da seleção principal aqui nessa quadra e treino da seleção de base nessa. Tá esses aqui (da base) querendo vir pra cá e esses (do principal) preocupado em não perder. É uma concorrência sadia. Nós temos uma base agora. A gente teve uma menina que ela teve covid de última hora antes de ir pra Holanda e pegamos uma menina da base. Essa base que a gente fez é pra descobrir novos talentos. Temos o mesmo treinamento da principal sendo executado na base. Nós temos a seleção principal  e temos a seleção de base treinando na mesma época. Eles fazem em horários diferentes e sempre no final de todo o treino tem um rachão e isso é um diferencial para nós. Nós conseguimos também uma coisa que era um diferencial pro melhor time do mundo que é o Irã. O Irã tem um jogador que tem 2m46. O Morteza Mehrzad é um fenômeno. O Brasil tem um desse agora. Vem agora nesta semana de treinamento o Ninão, da Paraíba, ele tem 2m36.  Ele ainda está aprendendo, mas ele já é o mais alto da gente agora. Então o iraniano não vai passar mais pelo bloqueio.

E para os Jogos Olímpicos de Paris? Qual o planejamento para este ciclo mais curto?

Quanto à nossa trajetória nesse ciclo curto, o que a gente fez que deu certo, nós vamos aprimorar. O que deu errado a gente fez mudanças necessárias. Uma coisa bastante importante que nós já começamos a fazer neste ano são os campeonatos que existem pelo mundo pra você não ficar só jogando Brasil contra Brasil, entre os clubes daqui. O Brasil começou a jogar outros campeonatos. Chegamos agora da Holanda, onde fomos para um torneio que não era ranqueado, mas onde estavam os grandes times. O que me surpreendeu muito foi o Cazaquistão. O Cazaquistão era um time sem muita expressão, mas bateu em todo mundo, sabe por quê? Porque ele vai ali treinar com o Irã, vai ali treinar com a Bósnia, que são os dois países que revezam na Paralimpíada.  Aqui a gente fica restrito aqui nas Américas. Só tem os Estados Unidos, só tem o Canadá, que é um freguês. Na América do Sul não tem ninguém. Esta semana fui contactado pelo presidente da Federação da Colômbia para mandar o treinador deles para acompanhar um treinamento nosso. Você deixa? Deixo. Por favor, eu quero que ele cresça, que sejam bons times jogando nas Américas porque a gente não tem um amistoso com as Américas. Chile não tem, Costa Rica até tem, Argentina, Colômbia tá tendo agora. O que falta é essa maturidade de jogar contra os times do mundo

A gente percebe que nas competições internacionais o Brasil tem um limite. Vai bem na competição, mas chega contra certas seleções, o time não passa. Como estão trabalhando para ultrapassar este ‘teto’?

Vou mencionar a seleção feminina. Aconteceu uma coisa diferenciada agora na Holanda, não estávamos com todos os nossos titulares e aconteceu um processo de renovação. Agora, em Tóquio, a seleção que mais renovou foi a nossa: a feminina. A masculina também porque nós mudamos a comissão técnica. Essa renovação chegou e elas começam bem aceleradas e parece que quando chega num certo ponto elas olham o placar e falam: ah, agora é hora de descansar e não passa daquilo. Tem algum bloqueio. A gente contratou uma psicóloga, ela não pode assumir e estávamos vendo um outro psicólogo especialista para trabalhar nesta parte e estamos tentando acertar justamente essa parte da psicologia para dar uma ajuda. Andei pesquisando sobre todas as falhas que nós tivemos em Tóquio e não vamos repetir em Paris e vamos trabalhar para que em Paris, possamos estar no lugar mais alto. A nossa pretensão é ouro e ouro.

Perfil

Nome: Ângelo Alves Neto
Idade: 49 anos
Estudos: Bacharel em Ciências Contábeis e Direito
Experiência:  Ex-jogador de Voleibol sentado e de Natação. Presidente do CIEP (clube de vôlei de Sergipe) Presidente da CBVD desde meados de 2017. Ângelo está em seu 2º mandato. Ele foi reeleito no ano passado e irá presidir a Confederação até 2025.