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‘Não podemos cair no esquecimento’, alerta ex-diretor do Iranduba

Lauro Tentardini faz alerta sobre o futuro do futebol feminino no Amazonas. Durante o auge, Hulk chegou a fazer Manaus ser considerada 'capital do futebol feminino', mas hoje vive problemas financeiros

Publicado em 07/01/2021 às 01h31 · Atualizado em 09/03/2022 às 11h40
‘Não podemos cair no esquecimento’, alerta ex-diretor do Iranduba
Foto: Maria Luiza Dacio

“O apelo que eu faço é que as pessoas não deixem o futebol feminino do Amazonas morrer”. Em entrevista exclusiva ao A Crítica, concedida dias após o fim de seu contrato como diretor de futebol feminino do Iranduba da Amazônia, Lauro Tentardini conversou sobre o atual momento vivido pelo Hulk, que após anos de protagonismo na elite do Brasileirão Feminino, irá disputar a Série A2 de 2021 vivendo uma crise financeira sem precedentes em sua história.

Antes visto como exemplo de modelo de gestão bem sucedido, o clube amazonense vive uma conturbada situação envolvendo seu patrocinador master desde 2019. Sem receber um centavo da empresa de criptomoedas VeganNation a quase 2 anos – já que a mesma nunca colocou as moedas no mercado -, o Iranduba entrou na justiça contra o patrocinador, em processo que ocorre em segredo de justiça.

“O Iranduba teve muitas dificuldades financeiras nesses últimos dois anos por esse problema com o patrocinador, que não colocou suas criptomoedas no mercado, fazendo com que o pagamento ao clube fosse zero. Sobre nosso processo judicial, nós temos todas as provas. Além do contrato, tem também as entrevistas, que foram colocadas lá. A gente espera que a justiça minimize esses prejuízos que o Iranduba teve, que foram muitos. O nome de muitas pessoas foi para a lama, o projeto foi pra lama e as finanças pessoais de muitos foram prejudicadas. É um processo que já está ‘correndo’ e que nós esperamos que o judiciário tome uma decisão favorável ao Iranduba, até porque o Estado do Amazonas inteiro torceu pelo clube na época do auge e eu espero que, amparados pela lei e por tudo o que fizemos, possamos ‘tocar os corações’ dos juízes na hora de decidir”, afirma Lauro, que chegou ao clube em 2016 e relembrou todo o esforço que foi feito para o Iranduba se manter de pé.

“Foi um processo muito desgastante entre 2019 e 2020. Houve problemas com atletas que me acompanhavam a muito tempo, desde a época em que eu trabalhava no Kindermann-SC e com elas atuando nas categorias de base. Basta lembrar que no nosso primeiro ano no Iranduba, em 2016, o clube foi vice-campeão Brasileiro Sub-20 na Arena, garantindo nosso primeiro recorde de público. Elas acabaram saindo do clube, gerando um desgaste muito grande até mesmo na nossa relação profissional, já que, evidentemente, eu era quem mais ficava exposto nessa crise no clube. Foi um trabalho praticamente jogado fora, pois perdemos todas as atletas. Nesse período, nós tentamos conseguir apoio e procuramos o prefeito de Manaus na época (Arthur Neto), mas ele nos respondeu que ‘nem queria saber de Iranduba’. Já com o governo do Estado, nós nunca conseguimos marcar uma audiência com o governador nos últimos dois anos para conversarmos sobre patrocínio, ou fazermos campanha como o Manaus fez para o Detran. A Faar (Fundação Amazonas de Alto Rendimento), com o Caio André e o Beto Folhadela, foi nossa maior apoiadora, nos cedendo estrutura para os treinos”, conta o agora ex-diretor do Hulk, mostrando preocupação com o futuro da modalidade a nível nacional.

“Manaus chegou a ser a capital do futebol feminino brasileiro e teve no Iranduba o seu grande ‘carro forte’. O Iranduba de 2016 a 2018 teve brilhantes resultados e em 2019 tinha tudo para repetir, mas perdeu as jogadores por causa dessa grave crise financeira e ele precisa de apoio se as pessoas querem que o futebol feminino siga existindo no Amazonas. É o sonho de muitas meninas jogarem futebol. Você vê que agora, em janeiro, o Iranduba vai jogar o Campeonato Brasileiro Sub-18 e jogou o Sub-16 ano passado. Teve menina nossa lá em São Paulo que, em sua primeira viagem saindo do Amazonas, já chamou a atenção de clubes grandes do centro do país. É muito importante que o futebol feminino siga existindo com força, mas nós temos toda essa dificuldade de imaginar um futuro do futebol feminino amazonense, com o Iranduba sem recursos e sem saber o que vai acontecer com as outras equipes do Estado. Nesse momento, minha preocupação não é apenas com o Iranduba. Eu estava conversando com o Adilson (Galdino), que foi nosso técnico no clube, e ele manifestava preocupação de Manaus cair no esquecimento no cenário nacional em relação ao futebol feminino, depois de ter sido considerada a capital da modalidade no Brasil”.

Dificuldade futura

Sem as atletas que permitiram ao Iranduba alçar vôos mais altos, o Iranduba acabou rebaixado no Brasileirão. Com isso, 2021 será o primeiro ano – desde a criação das Séries A1 e A2 – em que o Amazonas não disputa a elite do futebol feminino. Sobre isso, Lauro relembra que a final do Campeonato Amazonense 2020 sequer aconteceu ainda, pois está sendo analisada pelo STJD.

“Hoje eu não vejo o futebol feminino do Amazonas com a força que teve. Precisa de investimento e não é pouco. Você vê que os times já estão contratando, inclusive para a Série A2, enquanto aqui no Amazonas nós não sabemos nem quem são os representantes da competição. Sabemos que o Iranduba é um, mas não sabemos se o outro vai ser o 3B, o Recanto ou o JC. Eu acredito que quando sair essa decisão (definição dos finalistas), a maioria das jogadoras já vai estar empregada. O clube que ganhar essa vaga (na Série A2), vai ter essa dificuldade de buscar reforços”, explica o gestor, que além de passar por todos esses problemas, teve de conviver com situações constrangedoras, como ofensas pessoais.

“Entre 2016 a 2018 eu era ‘o cara’. De 2019 pra cá, eu fui muito ofendido, como se eu tivesse culpa da situação, sendo que não sou o responsável pela assinatura do contrato com a VeganNation e nem pelos pagamentos das contas do Iranduba. Qualquer pessoa séria, que trabalha com futebol, sabe que a conta do clube só pode ser acessada por presidente, vice-presidente e diretor financeiro, sendo que para fazer saque no Banco Central, é necessária a presença de duas dessas pessoas”, explica Lauro, que finalizou a entrevista fazendo um apelo.

“O apelo que eu faço é que as pessoas não deixem o futebol feminino do Amazonas morrer. Espero que o prefeito David Almeida e o vereador Caio André, que são pessoas do esporte, junto com esse pessoal novo que assumiu, possam se unir num esforço para não deixar o futebol feminino amazonense morrer. No período em que o David ficou como governador interino, ele sempre nos recebeu e atendeu muito bem. Confio muito que ele possa ajudar”.

Quase dois milhões em dívidas

Durante todo esse período de “seca financeira”, o clube acumulou dívidas em vários setores. Segundo Lauro, o profissionalismo e lealdade foi o que manteve o clube em atividade. Algo que ele fez questão de agradecer, citando cada um dos envolvidos.

“A dívida do clube chega a ser próxima dos dois milhões de reais. São dívidas trabalhistas, impostos com o hospital que tinha convênio, transporte para os treinos, passagens aéreas, aluguéis de casa, uma série de coisas. O clube deve, mais do que para as jogadoras, pra mim, pra Bia (supervisora), Cavalo (treinador), Leonardo (fisioterapeuta), Mário (preparador de goleiros), Said (preparador físico), Catatau (mordomo), Marcão (analista de desempenho), Dr. Eduardo Stewein (médico) e a Michele (cozinheira). Faço questão de ressaltar isso, até como forma de agradecimento, porque todo esse pessoal não me deixou na mão. Continuaram trabalhando até o último dia, quando o campeonato (Série A1) parou e depois quando fizemos a parceria com o 3B, a qual novamente agradeço ao Bosco. Durante a união, seguiu conosco o Cavalo, o Leonardo e o Said. Muitas pessoas me perguntavam se a comissão recebia e eu dizia que não. São débitos que existem desde 2019 e são grandes, mas todo o pessoal se fechou em torno de um profissionalismo e eu só tenho a agradecer por isso”, detalha Lauro, citando também as jogadoras.

“Algumas atletas acumularam dívidas grandes e, mesmo assim, ficaram conosco até o final de 2019. Caso da Djeni, nossa capitã desde 2016, assim como a Elisa, Giselinha, Sinara e Amanda Brunner. Agradeço a elas, pois não é qualquer pessoa que permanece em um clube com salários atrasados e ficando com a vida comprometida, sem poder pagar suas contas direito. Lamento que a situação tenha chegado a esse ponto”, finaliza.