Nos tatames, mulheres aprendem e desenvolvem a arte suave, a autoestima e amizades
Conheça a turma que é exclusiva para elas e história de pessoas que mudaram de vida graças à luta
Mulheres vêm conquistando cada vez mais espaços no esporte. Se antes elas eram apenas uma minoria, hoje já contam até com turmas formadas exclusivamente para elas. Para as que praticam o jiu-jitsu na Academia GF Team, localizada na zona Norte de Manaus, existe uma turma voltada para o público feminino. Todas as terças e quintas, mais de 50 mulheres desenvolvem a arte suave e, mais do que isso, compartilham técnicas, vivências, medos e superam dificuldades do dia a dia.
As aulas são comandadas pela faixa preta Waleska Castro e, durante as aulas, mulheres das mais diversas faixas etárias e faixas de graduação aprendem os conceitos do jiu-jitsu. E, por conta da prática do esporte, acabam adquirindo qualidade de vida que vai desde resistência física até superação de depressão, crises de ansiedade etc.
“Eu consegui fazer esse momento somente com mulheres. Geralmente não tem espaços nas academias, tem academia que não respeitam, que são aliciadas. Recebi aqui muita mulher que queria parar de treinar porque ela era aliciada, professor não respeitava – isso em algumas academias. Aqui elas ficam à vontade. Algumas se destacam como competidoras e começo a puxar treino para competir, outras eu deixo pra se alegrar e elas ficam mais felizes porque é tanto problema em casa, então acaba que aqui é o aconchego delas”, explicou Waleska, salientando que o único homem que fica nas aulas é o marido dela e administrador da academia: Robert Castro.
Uma das alunas que encontrou o aconchego nas aulas foi Noemi Quadros, de 16 anos. A faixa azul treina há um ano e quatro meses e chegou na academia após a mãe ganhar um sorteio para ter aulas na academia. A jovem, que vivia isolada em casa após a morte do irmão, conseguiu vencer a timidez através da luta.
“O jiu-jitsu me ajudou a ter comunhão porque eu ficava em casa muito presa. Só ia pra escola e não conversava muito com as pessoas e eu vindo para academia aqui tem muitas mulheres e acabou me ajudando a ter mais comunicação a sorrir mais, conversar mais com as pessoas e como tem muita mulher para conversar, evolui mais rápido no conhecimento porque eu me sentia desconfortável quando tinha só homem e vindo para cá me desenvolvi mais”.
Já Míriam Ataíde, 19, começou a treinar também como forma de vencer a depressão após perder o pai durante a pandemia de COVID-19. Ela ainda está na faixa branca, mas tomou gosto pela luta e pretende avançar.
“Eu conheci por acaso. Vim fazer uma aula experimental, gostei e me acolheram super bem e depois de um tempo comecei a gostar e vir direto. Eu comecei porque eu estava depressiva desde que perdi o meu pai em 2020 e conhecer eles foi muito bom, me ajudaram a superar tudo isso, me tratam como uma filha assim como eles tratam todas as meninas. Pretendo treinar mais e competir pois está me fazendo muito bem”.
Entre as atletas mais experientes, Keethleyn Nunes,38, é faixa marrom e começou na arte suave para perder peso, mas acabou encontrando outros benefícios.
“O jiu-jitsu entrou na minha vida porque eu queria perder peso e devido à violência doméstica, que eu já tinha sofrido. Estava com a autoestima baixa e aqui a Waleska sempre nos incentivou a descobrir a leoa que tem dentro de nós porque você chega achando que não consegue, mas quando você o quimono, vê que pode ir muito além. Hoje sou bem mais confiante em mim, perdi 25kg e o jiu-jitsu é a minha terapia. Além disso, tem as meninas mais novas e a gente passa a nossa experiência de vida para elas, conversa bastante”.
Tratamento para elas
Casada com o mestre de jiu-jitsu Robert Castro, Waleska nem sempre gostou dos tatames. Até que um dia ela ganhou um quimono com detalhes rosa do marido: era um convite para treinar e que, prontamente foi aceito. Porém, ela ainda tinha alguns incômodos durante os treinamentos.
“Na academia era um cheiro muito forte de homem suado que eu não gostava. Então tudo o que eu pensava eu fiz aqui. Fiz o espaço com lona porque o cabelo não acaba. Sempre passamos um desinfetante cheiroso antes dos treinos”, disse a sensei que, além da estrutura, também explicou sobre o tratamento para os dias difíceis.
“Quando a gente fica de TPM, trazemos chocolate, entregamos para elas. Quando uma não está bem, a gente conversa. Nós somos leoas e somos capazes. Só precisamos conhecer o potencial que a gente tem”.