Série D completa uma década e futebol amazonense segue sem acesso
Em dez anos, nenhum time amazonense jamais conseguiu sair dela. Quem mais tentou? Quem quase chegou? Confira tudo isso na reportagem
“Inferno”, “limbo”, “fundo do poço”, “abismo do futebol”. Essas são algumas denominações dadas pelo torcedor ao Campeonato Brasileiro da Série D. Em 2018, a competição referente a Quarta Divisão nacional completou dez anos de disputas sem um único clube do Amazonas conseguir o tão sonhado acesso.
O CRAQUE foi ao fundo do abismo da Série D para tentar decifrar o mistério desse tabu que impede os times barés de alcançar a Terceira Divisão. Entre fantasmas e caveiras enterradas no fundo do poço do futebol brasileiro, o CRAQUE deste domingo traz números, os clubes locais que disputaram a competição, as melhores campanhas e, claro, os maiores fiascos dos nossos representantes no torneio.
Via Crúcis do Leão
O Brasileirão da Série D teve sua primeira edição em 2009 com 39 clubes. A ideia inicial seria de 40 participantes, mas o Acre desistiu de enviar seu representante. O primeiro clube amazonense e o que mais vezes tentou o acesso à Série C foi o Nacional (foram seis tentativas). Logo de início teve polêmica, já que o Holanda, campeão do Barezão de 2008, foi preterido. Como venceu o 1º turno do Amazonense de 2009, o Naça ganhou a vaga.
Depois de passar da 1ª fase como líder de uma chave que tinha Gênus-RO e Atlético-RR, o Naça foi goleado em pleno Vivaldão por 5 a 2 frente ao “poderoso” Cristal-AP (o Nacional empatou o jogo de ida em 1 a 1) e colecionou a primeira de suas seis eliminações até hoje na Série D.
Naça caiu para o Altos-PI, na Série D deste ano (Foto: Antonio Lima)
O Naça voltaria a tentar o acesso em 2011 em mais uma escolha polêmica. O Amazonas herdou uma vaga após desistência de Roraima e o Nacional acabou ganhando a briga com o Fast Clube (vice do Barezão de 2010) pelo critério do ranking da CBF. No entanto, o Leão da Vila deu vexame e nem passou da 1ª fase do torneio.
O Nacional voltaria a disputar a Série D em 2013, no ano em que o clube foi mais longe na competição. Na temporada em que o Naça deu show na Copa do Brasil chegando às oitavas de final, o time azulino caiu diante do Salgueiro-PE no Brasileirão, depois de empatar em casa por 2 a 2 (jogo da ida foi 0 a 0).
Na Série D de 2015, o Naça sequer passou da 1ª fase, assim como no ano seguinte. No entanto, o vexame em 2016 foi maior, já que a partir daquela temporada a competição passou a ser disputada por 68 clubes e 32 times passavam à fase de mata-mata. De forma quase “espírita”, o Leão nem conseguiu ficar entre os 15 melhores segundos colocados depois que o Espírito Santo-ES marcou gol nos acréscimos contra a Caldense-MG e eliminou o time amazonense pelo critério de gols marcados.
Melhor campanha do Naça aconteceu em 2013, mas caiu diante do Salgueiro (Foto: arquivo AC)
No Brasileirão da Série D deste ano o Nacional, que mergulhou numa severa crise financeira, até passou de fase, mas caiu no primeiro mata-mata diante do Altos-PI. O Leão venceu o time piauiense em casa por 4 a 2, mas havia sido goleado por 3 a 0 na ida. Fora de disputas nacionais em 2019, o Leão da Vila vive a expectativa de terceirizar seu departamento de futebol junto a empresários chineses.
Princesa, Penarol e Fast
Depois do Nacional, o Princesa do Solimões é o time amazonense que mais vezes tentou o acesso: três tentativas. Na Série D de 2014, o Tubarão do Norte caiu ainda na fase inicial, mas em 2016, o time de Manacapuru fez bonito e terminou a competição na 11ª posição na classificação geral. Naquela temporada, o Princesa terminou como líder na 1ª fase e despachou o Palmas-TO no primeiro mata-mata, mas foi eliminado pelo Rio Branco-AC na fase seguinte.
Na Série D de 2017, Fast Clube e Princesa foram nossos representantes. O Rolo Compressor fez feio e sequer passou de fase terminando a competição na 51ª posição na classificação geral. Com isso, o Tricolor conseguiu se tornar o clube baré de pior colocação na Série D. Já o Tubarão foi eliminado pelo Gurupi-TO na 2ª fase do torneio.
A história do Penarol na Série D teve dois capítulos em 2011 e 2012. Na Série D de 2011, o Leão da Velha Serpa, ao lado do Nacional, representou o Amazonas e, diferentemente do colega Leão, passou de fase mas foi eliminado na fase seguinte pelo Independente-PA. No ano seguinte, o Penarol caiu ainda na primeira fase numa chave que tinha Remo-PA, Vilhena-RO, Atlético-AC e Náutico-RR.
Pobre Diabo
Na Série D de 2010, o futebol Baré conheceu um dos episódios mais tristes de sua história. Após conseguir o acesso em campo e até disputar a final da competição, o América, do saudoso Amadeu Teixeira, foi punido com a perda de 6 pontos e perdeu a vaga na Série C de 2011 por ter escalado o jogador Amaral Capixaba de forma irregular.
Comandado pelo técnico Sérgio Duarte, o “Diabo” terminou a 1ª fase daquele certame no segundo posto, atrás apenas do Remo-PA. Nas fases de mata-mata, o América despachou Mixto-MT, Joinville-SC (no jogo do acesso) e Madureira-RJ (semifinal). Na final foi batido pelo Guarany de Sobral-CE, mas o golpe maior veio meses depois com a eliminação do torneio. O feito do América jamais foi igualado até hoje já que o clube, mesmo punido, ficou na 5ª colocação na classificação geral.
O voo do Gavião
Se a esperança é verde o Manaus FC trouxe de volta a expectativa do acesso. Na Série D desta temporada, o Gavião do Norte esteve muito próximo de transformar o sonho em realidade. Sob o comando do experiente Aderbal Lana, o time caçula do futebol baré terminou a competição na 7ª posição na classificação geral, logo em sua estreia no torneio.
O Gavião voou alto, mas parou no Imperatriz-MA (Foto: Antonio Lima)
O Gavião terminou a 1ª fase como líder e deixou pelo caminho Santos-AP e Rio Branco-AC. Porém, no jogo do acesso, o Manaus FC perdeu a vaga na disputa de penalidades contra o Imperatriz-MA. Atual bicampeão amazonense, o Verdão da Capital já garantiu vaga no Brasileirão da Série D de 2019, para mais uma tentativa.
Diagnóstico do fracasso
Técnico mais vencedor do futebol amazonense e último treinador a conseguir um acesso nacional – com o São Raimundo à Série B em 1999 -, Aderbal Lana, que quase consegue repetir o feito este ano com o Manaus FC, tenta explicar o que ele mesmo aponta como inexplicável.
“É uma coisa que a gente tenta explicar, mas é inexplicável. A gente trabalha, monta a equipes, chega lá perto e na hora de definir a gente sempre fica fora”, comentou Lana revelando que o fator financeiro também pesa.
“Nós trabalhamos agora, principalmente no Manaus, com uma faixa salarial muito baixa a nível de jogadores. E quando a coisa vai afunilando, você fica mais dependente da qualidade e realmente quando chega esse momento a gente tem dificuldades”, disse o técnico revelando sua maior decepção como técnico da Série D.
Lana não se decepcionou com a campanha do Manaus FC (Foto: Antonio Lima)
“A decepção que tive foi em 2013 com o Nacional. Fiquei triste porque tinha certeza que aquele ano a gente chegaria, que seria o ano do futebol amazonense porque o Nacional estava bem na Copa do Brasil e nós não ficaríamos fora da Série C, mas fui demitido antes do jogo com o Vasco”, conta o técnico afirmando que este ano o sentimento foi outro.
“No Manaus não tive decepção, acho que foi um detalhe. No futebol tem muito isso, mas a gente chegou muito perto e fiquei muito feliz em ter participado disso”, disse o treinador que deve tentar o acesso mais uma vez com o Gavião em 2019.