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Estilistas do Amazonas comentam atual momento da moda indígena no Brasil

JORNAL A CRÍTICA reúne poderosas vozes da moda indígena para comentar o atual enfoque nos povos originários do Brasil

Publicado em 19/04/2024 às 20h35
Estilistas do Amazonas comentam atual momento da moda indígena no Brasil
Foto: Divulgação

Ainda há muito o que percorrer para repararmos, historicamente, as injustiças com os povos originários do Brasil. Porém, por uma ótica mais positiva, é animador perceber que o restante do país tem, a cada dia, voltado a atenção para a história e a cultura indígena, tendo na moda uma das suas principais vitrines. Prova disso é que, nos últimos dias, o estilista amazonense Maurício Duarte, da etnia Kaixana, surgiu como destaque no maior evento brasileiro do segmento, o São Paulo Fashion Week.


Com isso em mente, nesta sexta-feira (19), data em que é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, o BEM-VIVER reuniu outras poderosas vozes da moda para comentar o atual enfoque nos povos originários do Brasil.


Do povo Piratapuya do Rio Uaupés – afluente do Rio Negro -, Sioduhi atua como estilista e diretor criativo há 4 anos. Ele iniciou na área como estudante para técnico em modelagem de vestuário, pela Escola Técnica Estadual de São Paulo. No entanto, não concluiu o curso devido à pandemia. “Comecei a empreender, com a fundação da Sioduhi Studio, em 2020, utilizando as técnicas que aprendi nos dois semestres do curso técnico e buscando me aperfeiçoar de forma autodidata”, revela o estilista.

Hoje, ele é fundador e diretor criativo da Sioduhi Studio, com mudança de base para Manaus, ainda a partir deste ano. “Em 2023, o projeto [ou coleção] ‘Amõ Numiã: Ontem, Hoje e Amanhã’ foi totalmente desenvolvido no Amazonas, em Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Novo Airão, durante quatro meses”, completou Sioduhi.


Sioduhi (Foto: Divulgação)

 

Conquistas

Mesmo com a carreira engatilhada, o diretor criativo segue investindo na sua formação. Atualmente, ele é estudante de MBA em Negócios e Estética da Moda, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). “No ano passado, também ganhei o prêmio Personalidade Fashion Futures, pelo Instituto C&A, e apresentei, na semana de moda brasileira dedicada a práticas sustentáveis, a Brasil Eco Fashion Week pela terceira vez”, reforça Sioduhi.

De acordo com o estilista, é importante a presença de criativos indígenas na moda. Porém, ele se preocupa com a profissionalização e o preparo desses profissionais, enquanto indígenas – Sioduhi incluso -, nesses espaços, a fim de evitar ‘tokenismo’ (inclusão simbólica que consiste em fazer concessões superficiais a grupos minoritários). “Pois a moda é uma vasta cadeia, não delimitando à criação de roupas”, pontua.


A respeito da atual visibilidade da cultura originária, o diretor criativo analisa o momento com bons olhos. “É importante em diversos aspectos, da questão de política e direitos originários, mas, também, a oportunidade de apresentarmos nossas habilidades e realizarmos o impacto socioambiental no lugar em que estamos”, conclui.


Maira Mura (Foto: Divulgação)

 

Infância

Assim como diversos indígenas que atuam na moda, o contato de Maira Mura com o segmento veio logo na infância, quando observava a avó, que é rendeira, e a mãe, costureira, trabalharem. Hoje em dia, ela é referência no campo das biojoias e das vestimentas tradicionais.

“Quando eu morava na aldeia, em Autazes, a gente brincava de criar nossas próprias roupas. Era com folha de bananeira, nosso tecido tradicional. Nós juntávamos as seringas, as sementes e criávamos as nossas vestimentas”, recorda-se a artesã que, há 8 anos, mora na comunidade Parque das Tribos, em Manaus.


Lá, ela está em contato com outras 36 etnias e 14 línguas faladas. “Aqui, eu me encontrei para vivenciar a minha cultura, porque, quando a gente vem do interior para a cidade grande, podemos não perder a nossa essência, mas não vivemos essa essência. Estamos em um mundo completamente diferente”, conta.


Em 2018, Maira já fazia artesanato e pintava roupas, mas foi somente dois anos depois que a artesã, de fato, mergulhou 100% no universo da moda. “Em 2020, ganhei a minha máquina de costura, antes, eu costurava tudo à mão. Ela foi um presente, uma doação. (…) A moda entrou na minha vida e é dela que eu ganho o meu sustento… também procuro repassar tudo para os meus filhos, ensino-os a fazer roupas, grafismos e artesanatos, mostrando a nossa cultura e a nossa origem”.


Hoje, ela é proprietária do Atelier Maira Mura (@atelier_maira_mura) e acumula passagens por desfiles e eventos de moda na capital.


Ancestralidade

Da mesma forma que Sioduhi, Maira fica feliz com a atenção que a moda indígena tem recebido nos últimos tempos, “conquistando cada vez mais espaços” – nas palavras da própria artesã. “Porém, é importante lembrar que a nossa conquista não vem de agora, ela vem dos nossos antepassados. A moda está abrangendo [a nossa cultura] de maneira incrível, indo para o mundo inteiro”, completa.

“É uma conquista muito valorosa. Quando falamos que o ‘nosso corpo é o nosso território ancestral’, é porque, através da nossa vestimenta, do nosso grafismo e da nossa moda, contamos uma história incrível, mostrando a essência da nossa cultura e valorizando a nossa trajetória”, acrescenta Maira.

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