Reparo e upcycling transformam defeitos em estilo e resgatam memória afetiva
Impulsionado pelo consumo consciente, o movimento valoriza peças únicas, preserva histórias pessoais e recoloca o trabalho artesanal no centro da criação contemporânea
Durante muito tempo, rasgos, manchas e desgastes eram sentenças definitivas para uma peça de roupa. Hoje, no entanto, eles podem ser o ponto de partida para criações exclusivas, cheias de identidade e valor afetivo. O reparo, a customização e o upcycling deixaram de ser vistos apenas como alternativas econômicas e passaram a ocupar um espaço de prestígio no universo fashion, impulsionados pela busca por consumo consciente, pelo apreço à história das peças e pela valorização do trabalho artesanal.
Para a fashion designer Thais Arévola, fundadora e diretora criativa da Arévola Gallery, essa mudança de percepção reflete uma transformação profunda no conceito de luxo. “Hoje, o verdadeiro prestígio não está apenas no ineditismo, mas na intencionalidade. Peças reparadas ou customizadas carregam um tempo, uma história e uma atenção quase artesanal que o consumo rápido não oferece. Além disso, o cliente de alto padrão busca exclusividade e nada é mais exclusivo do que algo feito sob medida para prolongar a vida de uma peça que já faz parte de sua narrativa pessoal”, afirmou ao VIDA.
Quando entram em cena roupas herdadas, peças de grife ou itens carregados de memória, o trabalho deixa de ser apenas técnico. “O valor sentimental transforma o reparo em um processo quase curatorial. Cada intervenção é pensada com extremo cuidado para preservar o significado que aquela roupa ou acessório tem para o dono”, explicou Thais.
Embora sua marca não atue diretamente com reparos em peças prontas, ela destaca que a lógica de prolongar a vida dos materiais também está presente em seus processos criativos. A Arévola Gallery, por exemplo, desenvolve projetos para o reaproveitamento integral de retalhos de couro de abacaxi, transformando sobras em novas peças e evitando qualquer descarte.
Tendência em alta
A estilista e diretora criativa Camila Monteiro, da Atnia Store, observa que o crescimento dessa tendência também é uma resposta direta aos excessos do mercado. “Devido ao consumo desenfreado, à aceleração das tendências e ao surgimento do fast fashion, o planeta sentiu o impacto. Pensando em como diminuir esse exagero de resíduos, deu-se início à valorização da moda sustentável como alternativa”, afirmou.
Segundo ela, a pandemia também teve papel importante nesse processo, ao estimular as pessoas a olharem com mais atenção para os próprios armários e explorarem a criatividade.
O apego emocional às roupas, especialmente às que atravessam gerações, também influencia diretamente esse movimento. “O valor sentimental caminha junto com as lembranças afetivas, geralmente desenvolvidas durante a infância, onde peças são passadas de geração em geração. Em vez de serem descartadas, elas ganham uma cara nova, valorizando a identidade cultural”, explicou Camila. Nesse contexto, o reparo se torna um gesto de preservação da memória, não apenas da matéria-prima.
Além do aspecto emocional, o impacto ambiental é um dos motores dessa virada de chave. “Reparar em vez de substituir convida o consumidor a repensar sua relação com o guarda-roupa. Aos poucos, deixamos de enxergar as roupas como descartáveis e passamos a valorizá-las como bens duráveis”, pontuou Thais.
Camila reforça que o reaproveitamento desacelera o descarte de resíduos, especialmente de tecidos sintéticos, que levam décadas para se decompor. “Por esses fatores, a moda slow fashion foi ganhando destaque, atraindo um olhar mais profundo, trazendo personalidade e originalidade através do reaproveitamento. Os brechós, por exemplo, ganharam uma força gigante durante a pandemia, e a tendência vintage cresceu justamente como reação ao fast fashion, que acabou deixando todos iguais”.
No centro dessa transformação, estão os artesãos e criadores capazes de transformar falhas em traços autorais. Para Thais, esse processo exige mais do que técnica. “Transformar um defeito em estilo exige um olhar estético treinado, domínio técnico e, sobretudo, sensibilidade narrativa. Um rasgo pode virar um bordado, uma mancha, um recorte estratégico, um desgaste, uma nova textura. Mas isso só funciona quando há respeito pela identidade original da peça”, definiu.
Camila acrescenta que, na lógica do upcycling, a perfeição deu lugar à liberdade criativa. “Se você souber manusear uma agulha e uma linha, tudo vira arte: tingimento de tecido, pinturas manuais, bordado… até o que poderia ser um defeito vira conceito. As pessoas estão se desprendendo daquele acabamento perfeito, porque quando se trata de moda upcycling não existe regra na hora de criar”, encerrou.