90% dos mortos pela polícia no Amazonas eram negros
53% dos mortos não tiveram sua etnia informada, mas, entre os identificados, quase a totalidade eram pretos ou pardos
O boletim Pele Alvo, divulgado nesta quinta-feira, mostrou que 90% dos mortos por intervenção das polícias Militar e Civil no Amazonas em 2024 eram negros. Além disso, mais de 67% dos mortos no total tinham idade entre 18 e 29 anos. Segundo o estudo, houve 43 mortes em decorrência da ação do Estado no ano passado, mas somente 20 tiveram sua etnia identificada, sendo 18 pardos, um preto e dois brancos.
O estudo classifica como pessoa negra o indivíduo preto ou pardo, conforme a definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o boletim, elaborado pela Rede de Observatórios de Segurança, houve uma redução de 27,1% nos homicídios cometidos por policiais no Amazonas entre 2023 e 2024, mas, no acumulado de seis anos, houve 492 mortes.
Na tabela do último ano, que apontou 43 homicídios, mais da metade se concentrou em Manaus. Na capital, foram 23 mortos, o equivalente a 53,5% do total registrado. No interior, o município de Coari é o que mais registrou casos de mortes cometidas por policiais: seis mortos, ou 14% do total. Em 2023, foram cinco mortos. Em Benjamin Constant, três dos quatro homicídios registrados foram cometidos por agentes.
Sob suspeita
O boletim ressalta que, pelos registros oficiais, todas as vítimas eram homens e dois terços eram jovens com menos de 30 anos. O texto também levanta suspeitas sobre a identificação racial dos pardos nos registros oficiais pelo fato de não haver pessoas indígenas entre os mortos pela polícia.
“Em um estado onde uma em cada oito pessoas é indígena (e sofre um racismo específico por isso); onde os territórios urbanos indígenas são definidos, perversamente, como ‘invasões’ e criminalizados, esse 0,0% obriga a suspeitar que se trate de mais um ‘empardecimento’ estatístico ou, ainda, de uma maneira de evitar a federalização das investigações”, disse o relatório.
Além de Manaus, Coari e Benjamin Constant, foram detectadas três mortes por policiais em Tabatinga, duas em Novo Aripuanã e Rio Preto da Eva e uma em Autazes, Iranduba, Presidente Figueiredo e Santo Antônio do Içá.
Embora os dados sejam preocupantes, as mortes provocadas por agentes do Estado vêm caindo nos últimos anos. O boletim Pele Alvo mostra que houve um aumento entre 2019 e 2020, com o primeiro ano registrando 88 mortes e o segundo 102 mortes. A partir daí, as estatísticas indicaram quedas em 2021 (101 mortos), 2022 (99 mortos), 2023 (59 mortos) e 2024, com 43 mortos.
Entre os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios de Segurança, o Amazonas ficou na oitava colocação em número de mortes por policial. O primeiro é a Bahia, seguido de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A reportagem questionou a Secretaria Estadual (Secom) de Comunicação sobre a letalidade policial, mas até o fechamento desta edição não recebeu resposta.
Bahia lidera ranking de mortes
Entre os estados monitorados pela Rede de Observatórios, a Bahia lidera na disparidade racial: 95,7% das pessoas mortas em ações policiais eram negras. Em números absolutos, 1.556 indivíduos morreram em decorrência de intervenção dos agentes do Estado. Desse total, 151 não tiveram sua etnia informada e 49 foram ignorados.
Entre os que tiveram sua raça identificada, o observatório baiano contou 1.016 pardos, 282 pretos, 56 brancos, um amarelo e um vermelho (indígena). Assim como no Amazonas, a maior parte dos mortos estava na idade entre 18 a 29 anos: 996 homicídios, o equivalente a 64% da totalidade.
Os estados do Pará e Pernambuco também registraram letalidade na casa dos 90% em casos de mortos identificados como negros. Proporcionalmente, Bahia, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo concentraram as maiores taxas de negros mortos a cada 100 mil habitantes.
São Paulo, inclusive, foi o estado que registrou o maior acréscimo no número total de pessoas negras mortas por agentes policiais, passando de 510 para 812 mortes entre 2023 e 2024, um aumento de 59,2%. Na sequência vem o Ceará, com um crescimento de 28,6%. Enquanto o estado registrou 147 mortos em 2023, o número passou para 189 em 2024.
Completam a lista de acréscimos o Maranhão (22,6%) e o Pará (12,6%). Na média geral dos estados monitorados, houve um aumento de 1,1% nas mortes de negros provocadas pelas polícias civis e militares. Em números absolutos, foram 4.068 homicídios em 2024, com 3.066 sendo de pretos ou pardos.