A CRÍTICA: 76 anos em defesa da Amazônia e de sua gente
Fundado por Umberto Calderaro, jornal marca sua trajetória na defesa da Amazônia, da Democracia e da Zona Franca
Um dos mais longevos veículos de comunicação do País, A CRÍTICA, uma empresa familiar, completa 76 anos neste sábado conservando a tradição do impresso mesmo em meio à intensa multiplicação da informação nos meios digitais. A trajetória do jornal sempre foi marcada pela defesa da Amazônia e de suas gentes, da Zona Franca de Manaus (ZFM) e do regime democrático.

Com 76 anos de existência, o jornal A CRÍTICA compõe a rede Calderaro, uma empresa familiar. (Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA)
Fundando em 1949 por Umberto Calderaro Filho e incialmente entregue pontualmente às 11 horas da manhã aos leitores, que lhe rendeu o apelido de “onzeorino”, o veículo acompanha desde então os fatos marcantes do cotidiano manauara e amazonense, desde os acontecimentos mais simples que mereçam destaque às grandes notícias nascidas na política e no inusitado, rendendo incontáveis histórias.
Histórias essas como a de Maria Olinda das Chagas Macedo, primeira mulher a dirigir um táxi na cidade de Manaus, conforme noticiado por A CRÍTICA em 4 de fevereiro de 1979. Descrita como “loura, de 27 anos, casada com o motorista Jonas Guimarães Macedo”, relatou sua experiência pioneira ao jornal na ocasião.
“Não me arrependo de ter escolhido essa profissão. Inclusive, estou juntando dinheiro para comprar o meu carro. O meu marido não diz nada. Às vezes, quando ele amanhece indisposto para trabalhar ou adoece, além de trabalhar de dia, entro pela noite, quando a praça está boa”, disse à época.

Impresso de A CRÍTICA, sobre a história de Maria Olinda das Chagas Macedo, a primeira mulher a dirigir um táxi em Manaus, publicado no dia 4 de fevereiro de 1979. (Reprodução)
Redemocratização
Na política, o jornal acompanhou a curta República Populista, marcada pelo suicídio de Getúlio Vargas e os 50 anos em cinco de Juscelino Kubitschek, os anos de chumbo da Ditadura Militar entre 1964 e 1985, a volta da democracia em 1985 e a Nova República que já dura 40 anos.
Se equilibrando entre a defesa da liberdade de expressão e os olhos atentos dos censores da ditadura, o jornal noticiou a instalação da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – braço político do regime criado pelo Ato Institucional Número Dois – pelo presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM) na ocasião, deputado Ruy Araújo.
“Participarão da instalação oficial do partido revolucionário todos os deputados filiados e os parlamentares federais Abrahão Sabbá, que já se encontra em Manaus, Wilson Calmon, Leopoldo Péres e José Esteves, que deverão chegar nas próximas 40 horas a esta cidade. O senador Vivaldo Lima, como único membro do Senado Federal a integrar o partido, já confirmou sua chegada a Manaus na tarde de hoje”, mostra o texto.
Uma das sagas mais memoráveis na política foram os 38 dias da batalha do presidente eleito Tancredo Neves, que foi acompanhada diuturnamente por A CRÍTICA até o dia de sua morte em 21 de abril de 1985. No dia seguinte, o veículo amazonense estampava, em letras garrafais: TANCREDO MORTO. Nas páginas internas, líderes políticos e a população brasileira demonstraram o luto pelo presidente.
A notícia destaca Neves como ávido defensor da Zona Franca de Manaus, que abordou a necessidade de incentivos em sua última visita à capital em 1984, deixando “uma mensagem de otimismo e de esperança para os amazonenses”. O então deputado Arthur Virgílio Neto emitiu nota afirmando que “a perda do presidente Tancredo Neves é enorme para o Brasil”.
“Morreu de novo Tiradentes, Felipe dos Santos. Tancredo Neves morreu no dia 21, esquartejado como Felipe dos Santos pela mesma causa dos seus antecessores na luta pela liberdade. O legado de Tancredo é enorme e o amor à causa pública, o espírito de renúncia, a garra para combater, a compreensão para conciliar na hora certa e o ânimo de mudar, de transformar”, disse.
Plano Real
O aniversário do Plano Real em 1995 também estampou a capa de A CRÍTICA. Um ano após sua implantação, o jornal retratava os desafios da nova moeda em suprimir a hiperinflação herdada da ditadura militar que corroeu a popularidade de José Sarney nos anos 1980 e de Fernando Collor de Mello no início dos anos 1990, somada ao confisco da poupança.
Com a notícia “O verdadeiro teste vai começar agora”, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou a desindexação da economia para derrubar a inflação para um dígito. Na época, ela estava em torno de 30% ano e FHC tinha o objetivo de chegar a 5% ao ano. O objetivo foi alcançado três anos depois.
‘A CRÍTICA está dentro de mim’
Herdeira do fundador Umberto Calderaro Filho, a presidente da Rede Calderaro de Comunicação, Cristina Calderaro, recebeu um afetuoso presente quando passou no vestibular para a faculdade de Jornalismo: um livro de ‘Introdução ao Jornalismo’ de F. Fraser Bond, contendo uma dedicatória do pai.
“Cris: é com grande orgulho que sinto a tua vocação para o jornalismo trepidante e sadio. Este livro é o início de tua caminhada – lê e vai tomando os ensinamentos que serão úteis para a tua firmação profissional. Filha querida, estou tranquilo ao sentir que vais fazer do jornalismo – ação, honestidade e justiça a serviço da coletividade
que necessita da tua voz e do Amazonas que muito precisa da tua defesa. Toma o beijo e a alegria do teu pai feliz. Umberto, 1/12/1970”.

Imagem da dedicatória feita por Umberto Calderaro à filha Cristina Calderaro (Foto: Arquivo A CRÍTICA)
Passados quase 55 anos, Cristina Calderaro ressalta a importância do A CRÍTICA em sua vida. “Minha posição sempre refletiu na importância da continuidade familiar no Grupo A Crítica e deu certo. Hoje
tenho neto dentro da empresa. A Crítica é paixão. Criei meus
filhos nesse clima. É um amor sem medida. Posso até não estar por perto, mas A Crítica está dentro de mim. Sempre fui muito focada nas ideias de modernização e inseri todas as inovações nestas décadas.
Agradeço a Deus aos meus pais, filhos por tanta felicidade. Parabéns para a família A Crítica.”
‘Os impressos não podem ser apagados’
Apesar de não ter a mesma velocidade e acompanhamento dos fatos em tempo real, o impresso tem qualidade únicas em relação a qualquer outro meio. As palavras são do jornalista Marcelo Rech, presidente da Associação nacional de Jornais (ANJ). Para ele, o formato ganha pontos justamente por não precisar de “nenhuma conexão ou carga de bateria”, produzindo uma atenção singular.
“Costuma-se dizer que quem lê jornal, apenas lê jornal, ou seja, não se distrai com outras telas, o que permite a concentração total no conteúdo jornalístico e na publicidade. Os impressos apresentam ainda uma característica peculiar: não podem ser apagados. Portanto, o que está escrito fica para sempre. Na prática, isso significa que o jornal impresso tem cuidados adicionais de precisão e credibilidade em relação a outros meios”, disse.

Dona Rita Calderaro com uma foto de Umberto Calderaro. (Foto: Arquivo/A CRÍTICA)
Para a doutora Cristiane Barbosa, pesquisadora e professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a comunicação vive uma mudança de era desde a invenção da imprensa. Se por um lado a internet permitiu o surgimento de veículos independentes, por outro expôs tensões entre “liberdade e controle”.
“Os grandes grupos conseguiram se manter, em parte, por sua capacidade de adaptação tecnológica e editorial. O jornalismo impresso se metamorfoseou para ainda sobreviver à agilidade das novas mídias. Muitos investiram fortemente em plataformas digitais, diversificaram suas fontes de receita – com paywalls, assinaturas digitais, branded content e eventos – reposicionaram suas marcas com fogo em credibilidade e jornalismo de profundidade”, disse.
Apesar de ter perdido o monopólio da atenção, o impresso consegue se manter relevante graças ao filtro profissional da informação, segundo ela, produzindo conteúdos investigativos e analíticos que exigem “estrutura, apuração rigorosa e ética editorial”, conseguindo se firmar em meio à pulverização da informação nas redes sociais.
“O impresso sobreviveu porque soube se reinventar em diferentes momentos históricos. Na era do rádio, apostou em profundidade analítica. Com a televisão, investiu em opinião e reportagem. Com a internet, passou a operar em multiformatos. Além disso, manteve-se como espaço de memória, registro histórico e produção de conteúdo de qualidade. Em tempos recentes, o papel do impresso se ressignificou: deixou de ser o principal veículo de atualidade para se tornar uma mídia de contemplação e análise, voltada a públicos específicos e mais engajados. Sua permanência está atrelada à capacidade de oferecer valor editorial em um mundo saturado de informações rápidas e superficiais”, frisou.