Adolescente de Iranduba vende doces e bombons para publicar seu primeiro livro
Maria Luiza teve seu dom para a escrita aflorado após descobrir que tem epilepsia e está lutando para estrear como escritora
Interiorana do Amazonas, jovem dedicada e com apenas 17 anos, mas com um sonho esplendente: publicar o primeiro livro de uma história prescrita em três partes. Essa é a principal meta traçada para 2017 pela estudante, ou melhor, escritora Maria Luiza Brasil de Medeiros. Natural de Itacoatiara (a 176 quilômetros de Manaus), mas moradora há 10 anos do município de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus), ela descobriu a paixão pela escrita e leitura em 2013 após um momento complicado na vida, quando precisou largar várias atividades esportivas, por causa das crises de epilepsia.
Aluna do Centro Educacional de Tempo Integral (Ceti) Professora Maria Izabel Desterro e Silva, localizado no quilômetro 3 da Rodovia Carlos Braga, em Iranduba, Maria descobriu o dom da criatividade e da escrita entre as aulas de geografia, quando encontrou um padrinho responsável pelo empurrão para que ela viesse a colocar no papel as idéias criativas que sempre estiveram na mente.
“Tive a primeira crise epilética em 2013. Até então, não tinha ideia que era portadora da doença, pois tenho o lado direito todo paralisado, sequelas de uma paralisia infantil. Logo após a crise, precisei passar por vários procedimentos médicos até descobrir a epilepsia. Foi quando o médico disse que deveria parar com qualquer atividade física para evitar mais crises. Nesse meio tempo, escrevi um texto para um amigo meu. Quando ele leu, me disse que eu escrevia muito bem e começou a me incentivar à prática da leitura e foi um meio de evitar que eu caísser em depressão”, contou.
Com as leituras diárias, Maria teve o estímulo para criar os próprios textos. Fazendo parte da geração que vive com as novas tecnologias, a estudante começou a criar no bloco de notas do próprio celular, poesias autorais, escritas dentro do ônibus no percurso de casa para escola e da escola para casa. Segundo Maria, eram mais de 300 poesias, todas guardadas no aparelho. Por causa das sequelas da paralisia, Maria Luiza tem dificuldades de subir escadas. Em uma dessas idas à escola, quando apanhava o ônibus, teve o celular furtado e com ele se foram as poesias.
Desapontada com o ocorrido, Maria não deixou a ideia de ter um livro publicado ser perdida com o furto. Após o episódio, a estudante deu início às primeiras páginas de um romance, fruto de muitas conversas entre amigos e acontecimentos da vida. Desde que os amigos de sala de aula souberam que Maria Luiza havia iniciado a escrever um romance, sempre nos intervalos de aula solicitavam que a escritora pudesse ler o que já estava produzido.
Nesse meio tempo, o fato chegou ao ouvido de um dos professores de Maria, Jean Martinot, que em seguida solicitou da estudante algumas cópias redigidas para ele ter uma noção do dom da aluna. “Quando iniciei a leitura, me surpreendi com a qualidade do texto de Maria Luiza. A ideia dela é bem parecida com do escritor francês Honoré de Balzac. Dei incentivo para que ela pudesse dar continuidade ao projeto. A levei em vários lugares em Manaus para abrir ainda mais a criatividade. Fomos até a Ufam (Universidade Federal do Amazonas) para pedir uma ajuda com a possível publicação do material, mas até o momento não conseguimos. Ela continua a escrever e sempre que possível edito os textos e a ajudo como posso”, contou o professor Jean Martinot.
Para a gestora do Ceti, Elcilane Maquiné, é um orgulho para a instituição acompanhar o crescimento dos alunos. “Sem dúvida, Maria Luiza será um exemplo para muitos alunos, ela supera qualquer dificuldade e é uma aluna dedicada aos estudos, tenho certeza que ela vai longe”, disse a diretora.
Vendas para financiar publicação
Desde o início do ano, Maria tem entrado em contato por e-mail com várias editoras pedindo orientações para conseguir publicar o primeiro exemplar do próprio livro. Em agosto, a mãe dela deu quatro caixas de bombons para Maria poder vender e começar arrecadar dinheiro destinado a publicação do livro. Hoje, Maria é quem compra os doces para revender, mas o dinheiro arrecadado tem uma única finalidade: o livro. “Esse é meu sonho e não vou desistir dele. Sou muito otimista e tenho certeza que vou conseguir”, disse.
Para 2017, Maria pensa em iniciar a sequência da primeira história. Mas, espera conseguir publicar o próprio livro até o meio do ano. “Queria que a capa do meu livro fosse desenhada por algum aluno de escola pública de Iranduba, mas ainda não encontrei um que queira ler a história e desenvolva essa parte do projeto, espero que depois dessa divulgação consiga alguém que aceite a ideia”.
Maria Luiza também sonha em 2017 vir morar em Manaus. “Amo ler! Quero ficar mais perto da biblioteca pública, por isso que me mudar para Manaus. Na capital terei mais contato com outros escritores e seguir uma formação”.