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Amazonas registra 255 mortes por intervenção policial

Dados federais revelam discrepância com os números estaduais, que registram apenas um caso no mesmo período

Publicado em 26/04/2026 às 09h24
Amazonas registra 255 mortes por intervenção policial
Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA

O Amazonas registrou, nos últimos cinco anos, 255 casos de morte por intervenção policial. Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

De acordo com os dados, 101 mortes por intervenção policial foram registradas em 2022; 59 no ano de 2023; 43 em 2024; 44 em 2025; e 8 até março deste ano, correspondendo a uma taxa de 0,73 mortes por intervenção policial por cada 100 mil habitantes.

Para o professor Fábio Candotti, do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), as mortes por intervenção policial podem ser consideradas como a forma mais terrível de como as discriminações de raça, classe social e gênero ocorrem hoje no Brasil.

“É preciso que certas vidas sejam consideradas descartáveis, menos humanas, menos passíveis de luto. Há um imaginário de que essas mortes se dão ‘em confronto’, mas, ao contrário, esse tipo de situação é excepcional. Geralmente, policiais não se veem em perigo. Não existe guerra contra bandidos, muito menos em Manaus. Existe dominação e violência institucional”, pontuou.

De outro modo, o doutor em sociologia e professor Marcos Rolim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que o alto índice da letalidade policial nos estados brasileiros é resultado de vários fatores, incluindo a ausência de políticas públicas de segurança baseada em evidência.

A inexistência de controle externo efetivo sobre a atividade policial no Brasil e a consequente impunidade dos policiais envolvidos em execuções, tortura, abuso de autoridade e outros crimes, o baixo nível de profissionalismo da atividade policial e o apoio à violência policial consolidada como cultura entre os segmentos sociais privilegiados”, explicou Rolim.

Dados do Sinesp e da SSP

Embora seja visível uma redução de 74,19% dos casos de morte por intervenção policial no Amazonas — de acordo com o recorte temporal de cinco anos —, 100% dos registros são vítimas do sexo masculino, evidenciando, para além da problemática, o racismo e a violência de gênero.

“Falamos muito de ‘violência de gênero’ como se apenas a violência contra mulheres fosse determinada pelo gênero. Mas a violência policial também é, mas, combinada com uma lógica racista e elitista antiga. Reconhece no homem de cor, seja pardo, preto ou indígena, como sujeito potencialmente ‘perigoso’”, destacou Candotti.

Uma morte em cinco anos, aponta plataforma da SSP-AM

A plataforma SSP Dados, da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), aponta que, nos últimos cinco anos, somente uma morte por intervenção policial foi registrada, sendo ela em outubro de 2025.

O professor Fábio Candotti alertou para a confiabilidade dos dados referentes à letalidade policial no Brasil, chamando atenção para a existência de erros e manipulação de dados, uma vez que muitos agentes da segurança pública têm associação e atuação em grupos de extermínio.

“Há muitos anos, os dados de letalidade policial não são confiáveis no Brasil. Além de considerar que podem haver erros (que mostram descaso) e manipulação, é sempre importante observar as variações na quantidade de pessoas desaparecidas e de mortes a esclarecer. Infelizmente, também é comum que policiais atuem como grupos de extermínio”, explicou o professor da Ufam.

Em busca de soluções

Diante do aumento das mortes por intervenção policial no Amazonas, especialistas apontam que enfrentar o problema exige medidas estruturais e institucionais. O debate passa por maior transparência, fortalecimento de mecanismos de controle e responsabilização das forças de segurança.

“São muitas as frentes de atuação para mudar esse cenário. Uma das mais fundamentais é o controle rígido da atuação policial, principalmente pelo Ministério Público. Considerando a situação escandalosa do Brasil, isso deveria ser prioridade desse órgão”, salientou Candotti.

É nesse contexto que o professor destaca a necessidade de um papel mais ativo das instituições de fiscalização, entre elas a atuação da Defensoria Pública.

“Ao mesmo tempo, outras iniciativas são importantes, como o reconhecimento e fortalecimento da luta de familiares por justiça. Sem essa mobilização corajosa, geralmente protagonizada por mulheres, a situação seria muito pior. Aqui, a Defensoria Pública poderia ter um papel muito mais ativo”, concluiu o professor.


Para sociólogos, a impunidade e o baixo nível de profissionalismo alimentam os índices de letalidade no Brasil (Foto: Paulo Bindá) 

Respostas dos órgãos de segurança

A reportagem de A CRÍTICA entrou em contato com a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) para esclarecer a divergência entre os números de mortes por intervenção policial registrados pela pasta e os dados disponibilizados pelo Sinesp/MJSP.

O pedido incluía explicações sobre possíveis erros de registro, inconsistências na plataforma ou indícios de subnotificação de casos. Em nota a Secretaria respondeu que não há inconsistências entre os dados divulgados e que ambos os canais são alimentados pela mesma base técnica consolidada pelo Centro Integrado de Estatística de Segurança Pública (Ciesp).

Quanto ao número de uma ocorrência disponível na plataforma ‘SSP Dados’, a Secretária respondeu se tratar de uma situação tecnicamente possível e relativamente comum, tendo em vista que de acordo com a Nota Técnica 002/2025 do Ciesp estabelece que as classificações por morte são preliminares e passam por consolidação e homologação, podendo sofrer revisão até 31 de março do ano subsequente e conforme o andamento das investigações.

A reportagem também buscou a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança Pública do Estado do Amazonas para obter esclarecimentos sobre as medidas adotadas pelo órgão em casos de morte decorrente de intervenção policial, bem como sobre o andamento das investigações.

Foram questionados, ainda, os números referentes a punições, absolvições, processos em curso e possíveis erros de atuação dos agentes de segurança, dentro das 255 mortes registradas pelo Sinesp/MJSP nos últimos cinco anos. Em resposta, a Corregedoria informou que o tema deveria ser tratado diretamente com a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).

 

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