Amazonenses com descendência árabe revelam a influência no país e no Amazonas
Pesquisa revela que que do total de árabes e descentes no Brasil, 27% são de origem libanesa, 13% de origem síria, 6% de marroquinos, 5% egípcia e 5% de palestina
Dados da Pesquisa Nacional Exclusiva sobre Árabes no Brasil apontam que, até 2020, o número de árabes e descentes passavam de 11,61 milhões, o que até este período representa, pelo menos, 6% da população brasileira. Deste total, 6% residem na região Norte e deste número, estimasse que pelo menos 50 mil dessas pessoas vivam atualmente no Amazonas.
São indivíduos com diversas vivências e histórias, que ajudaram na construção deste Estado, destacando-se alguns nomes dentro das mais diversas áreas – indo do esporte à literatura, e à comunicação.
Foi pensando na contribuição destas pessoas que o dia 25 de março é celebrado – desde 2004 – como o Dia Nacional da Comunidade Árabe.
De acordo com o jornalista e membro da comunidade árabe do Amazonas, Anwar Assi, tal data serve para ressaltar a importância que tal grupo teve nos últimos 150 anos do Estado, sendo pioneiros em várias áreas.
“A maioria dos árabes veio para o Brasil quase que a convite do imperador Dom Pedro II, que disse para essas comunidades virem e investirem aqui. E como muitas delas não estavam satisfeitas com a ocupação turca, resolveram migrar para cá, onde montaram seus negócios e prosperaram em todos os âmbitos. A maioria começou trabalhando no comércio, mas também se destacaram na economia, política, literatura e entretenimento”, afirma o jornalista.
Mais de 100 anos de imigração
Apesar da história centenária dentro do Amazonas, o Anwar Assi afirma haver certa falta de reconhecimento da contribuição destas pessoas para a construção e desenvolvimento do Estado, tecendo uma crítica ao Poder Público.
“Embora a presença árabe seja muito antiga e tenha uma contribuição muito grande para o Amazonas e a cidade de Manaus especificamente, não há uma comemoração, dificilmente você vê ruas com nomes de árabes, e é uma imigração que tem mais de 100 anos, tão antiga quando as demais”, enfatiza o jornalista.

Jornalista Anwar Assi é membro da comunidade árabe no Amazonas. (Foto: Paulo Bindá)
Descendência árabe
Uma das histórias que comprovam a afirmação de Anwar é a história do lutador de jiu-jitsu, MMA e empresário, Wallid Ismail, um manauara que revolucionou o mundo das artes marciais. Ele é um dos principais responsáveis pela capitalização do mundo das lutas, sendo o primeiro atleta brasileiro a ter patrocínios estampados em seu quimono.
Ele também é o idealizador do Jungle Fight Champiochip, um dos principais eventos de MMA da América Latina e que neste fim de semana chega a 114ª edição, em Manaus.

Wallid Ismail tem descendência árabe e o pai queria que ele fosse vendedor. (Foto: Divulgação)
Segundo Wallid, sua descendência árabe o moldou e lhe ajudar a conseguir alcançar o sucesso dentro do mundo das artes marciais.
“Fui para o Rio de Janeiro quando tinha 15 anos, para treinar, mas meu pai queria que eu cuidasse das lojas, mas quando ele viu que não tinha jeito de ficar na loja ele disse ‘então vai. Seja o melhor no que for fazer, mas saiba vender. Pois se você não souber vender o que faz, você não chega a nenhum lugar’. Isso me impactou e o esporte no Brasil, porque o filho de um árabe foi o primeiro a ver profissionalmente da luta, sempre precisar dar aula. Com a minha cultura árabe, aprendi a negociar desde criança e me ensinou a ser um vencedor na vida”, afirma Wallid.
Filho de libanês
Outro dos grandes nomes que comprovam a importância e influência da população árabe no Amazonas é o escritor, tradutor e professor Milton Hatoum, tido como um dos principais escritores da literatura Brasileira, sendo autor de grandes obras como “Dois Irmãos” e “Órfãos do Eldorado”, além de contos como “O Adeus do Comandante”, que serviu de base para o filme “O Rio do Desejo”, lançado nacionalmente nesse fim de semana.
Segundo o autor, que é filho de Libanês, a história de sua família na Amazônia começa no início do século XX, com seu avô e posteriormente com seu pai.
“[Os imigrantes árabes] chegaram [na Amazônia] na segunda metade do século XIX, sendo acentuada no Ciclo da Borracha. Esse é o caso do meu avô paterno, que migrou de Beirute para o Acre em 1904, quando em Rio Branco já havia várias famílias sírio-libanesas. O meu pai chegou do Líbano um pouco antes da segunda guerra, ele não era um imigrante propriamente dito, veio apenas conhecer a Amazônia onde o pai dele viveu por quase 10 anos. Acho que a contribuição desses imigrantes, não apenas árabes, foi fundamental em várias áreas, como economia, política, artes e literatura”, afirma o escritor, em entrevista A CRÍTICA.
Perfil da população árabe
A “Pesquisa Nacional Exclusiva sobre Árabes no Brasil”, realizada pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, revela que dos quase 12 milhões de árabes no Brasil, 39% deles estão localizados na região Sudeste e 32% no Nordeste. O Sul do Brasil aparece com 11%, Norte com 6% e Centro-Oeste com 5%.
O estudo aponta também, que do total de árabes e descentes no Brasil, 27% são de origem libanesa, 13% de origem síria, 6% de marroquinos, 5% egípcia e 5% de palestina.