Manaus sex, 16 out
A Crítica
Geral

‘Amazônia tem que estar atenta à China’, diz Cleiton Maciel

Pesquisador das relações entre Brasil e China diz que governos estadual e federal ainda não despertaram totalmente para as potencialidades do vínculo entre os países para a Amazônia

Publicado em 06/09/2025 às 16h19
‘Amazônia tem que estar atenta à China’, diz Cleiton Maciel
Foto: Paulo Bindá

A Amazônia, buscando melhorias para si e não como pauta de negociação, precisa estar atenta e aproveitar o movimento da China de ampliar seus investimentos em outros países, enquanto os Estados Unidos apostam na erosão do multilateralismo.

Essa é a avaliação de Cleiton Maciel, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e doutor em sociologia, especialista na relação entre Brasil e China e nos impactos desse vínculo para a Amazônia.

Ele falou para A CRÍTICA sobre a parceria entre os dois países no último dia 2 de setembro, logo após o governo da Bahia anunciar uma parceria com a China para construir a maior ponte da América Latina, na Bahia. Também, logo após o Brasil anunciar a abertura de uma rota marítima que vai ligar o Porto de Santana (AP) até a cidade de Zhuhai, na China.

O Amazonas, especialmente a Zona Franca, também tem visto aumentar a presença de empresas chinesas, como Livoltek e BYD, mas Cleiton diz que a região ainda não está totalmente desperta para essas potencialidades. E inclui nesta conta até mesmo os minerais raros, alvo da cobiça mundial por serem essenciais para os produtos de alta tecnologia – disputa que envolve debate socioambientais caros à Amazônia. Confira a entrevista.

Nesta semana, repercutiu uma parceria entre o governo da Bahia e a China construção de uma ponte que será a maior da América Latina, na Bahia. Além disso, foi inaugurada uma rota marítima entre o porto de Santana (AP) e o porto da cidade de Zhuhai, na China. Como essas duas novidades se integram à relação Brasil e China e qual o cenário atual?

A relação do Brasil com a China teve uma grande virada nos anos 2000, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio. O Brasil apoiou a entrada da China e também a ideia de que ela passasse a fazer parte da economia capitalista. A China sempre deu muita importância ao Brasil por ele ser um grande ator no cenário internacional. O Brasil vivia, na época, em 2008 e 2009, a fase do boom das commodities, e a costa brasileira oferecia muitas oportunidades para a expansão das empresas petroleiras da China. Para fechar a resposta, eu diria que essas rotas, que na sociologia chamamos de subrotas, são uma tentativa da China de financiar esses projetos e garantir o escoamento dos produtos dos quais ela é dependente, como os agrícolas. A China começou a criar essas subrotas a partir de 2013, em várias partes do mundo, como Peru e Venezuela, e o Brasil também passou a ser alvo, embora ainda não tenha aderido. Atualmente, o Ministério do Planejamento e o Orçamento tem lidado com isso.

Hoje temos um cenário geopolítico caótico, com guerras e um avanço de políticas dos Estados Unidos contra o sistema global de multilateralismo. Como a China está se posicionando e com qual objetivo?

A China está jogando, mas joga parada. Ela vem colocando muito peso nessas relações com os blocos regionais, como o Mercosul, a União Europeia, e sobretudo na África e no Mercosul, desde 2010. Estamos na crise do multilateralismo. Todo o sistema que se comportava desde o surgimento da ONU, no pós-guerra, está em crise hoje, talvez a maior que o multilateralismo já teve. A China, que historicamente foi um país fechado, quer apostar na globalização. Por outro lado, estamos vivendo um momento que chamamos de desglobalização, encampado pelos Estados Unidos. A China quer aproveitar esse momento de crise para exercer maior influência, porque nem mesmo os Estados Unidos sabem até onde isso vai dar. Eles estão apostando de um modo muito arriscado toda uma estrutura que perdurou por quase um século.

O que a China ganha ao jogar desta forma?

A China ganha muita coisa com isso. Até 2010 ou 2012, a presença ocidental, sobretudo americana e europeia, era muito forte no continente africano, nos setores de infraestrutura e empréstimos. Quem está lá hoje é a China, com bancos e grandes empresas ligadas à mineração. O que a China ganha? Poder econômico, poder de infraestrutura e, como consequência, poder de influência política. Ela não leva apenas uma dimensão empresarial, leva um projeto político. A China exerce influência não somente por meio de empresas, ela também tem uma presença política. Existem acordos com países africanos sobre política interna, a relação com Taiwan, a relação diplomática. A gente fala que a China não visa somente ganhos econômicos, ela visa o lucro político e diplomático.

As relações entre Brasil e China estão se aproximando nesse contexto de crise do multilateralismo, mas, historicamente, o Brasil é um país com um mercado muito fechado. Estamos conseguindo aproveitar bem esse momento?

O Brasil já esteve em piores momentos. Hoje, diante da crise do multilateralismo e até do capitalismo, temos uma oportunidade muito maior. As coisas ficaram mais flexíveis, o jogo está sendo jogado de novo, e a economia mundial está sendo redesenhada. O Brasil, que historicamente teve uma economia mais protecionista, tem oportunidades de fazer maiores acordos, não somente de negociar, mas de negociar os termos. Os países estão se sentindo vulneráveis, e no jogo da economia mundial, a vulnerabilidade é um ativo importante. A União Europeia, a Índia, o México estão mais vulneráveis, e o Brasil pode fazer uma barganha. Anteriormente, numa economia mais organizada, o Brasil não tinha muitas oportunidades, porque as regras já estavam estabelecidas. Como as regras estão sendo redesenhadas, o Brasil pode participar desse redesenho agora. Eu acho que o Brasil tem algumas oportunidades de fazer o jogo.

Nesta semana, Trump voltou a dizer que Índia, Rússia e Brasil, todos países do BRICS, taxam muito os EUA. O bloco representa uma ameaça aos Estados Unidos? E que oportunidades o Brasil tem no bloco para crescer e se destacar?

Se olharmos de modo rápido, o BRICS se apresenta como uma oportunidade. E a gente pode citar as possibilidades, como renegociações, acordos entre os países, trocas de tecnologias, e outro tipo de financiamento que não seja via FMI, mas com os bancos da China ou o próprio banco do BRICS. Mas eu entendo que as oportunidades do BRICS, até certo ponto, não são concretizadas para o Brasil, porque ficamos muito no discurso e as coisas não acontecem na prática. Por exemplo, não temos muitas mudanças em termos fundamentais, como no Conselho de Segurança da ONU ou na OMC. Os próprios países do BRICS, muitas vezes, acabam fazendo o jogo dos países ocidentais. Os BRICS não são necessariamente uma ameaça para o mundo ocidental. Eles serão uma ameaça na medida em que os países do bloco tiverem agendas comuns, em torno de pontos comuns, e eu acho que isso ainda não existe. Fala-se em desdolarização, um discurso antigo que não avançou. A própria China e a Rússia não encampam isso de modo direto, porque ainda dependem muito dos Estados Unidos. A economia chinesa, grande parte dela, é em ativos americanos. A economia chinesa depende bastante do dinheiro americano. Não temos, de fato, um norte do que o BRICS quer ou o que ele pode fazer. Até agora, na minha perspectiva, não.

As empresas chinesas têm ampliado sua presença na Zona Franca. Dois exemplos recentes são BYD e Livoltek. O que esse movimento representa para a região?

Acho esse movimento muito importante. Imagino que essas parcerias com a China, ainda que não sejam na dimensão da indústria verde ou da tecnologia da floresta, mas relacionadas aos eletroeletrônicos e ao polo de duas rodas, são importantes. Precisamos diversificar cada vez mais nossa pauta de produção na Zona Franca de Manaus. Os investimentos chineses vêm crescendo desde os anos 2000. As empresas chinesas já chegaram a representar 10% do total de mão de obra. As empresas chinesas têm uma participação importante no polo industrial de Manaus. E uma coisa que devemos observar é que a China não está aqui somente nas empresas com CNPJ. A China está na Zona Franca de Manaus de modo muito amplo, nas tecnologias que são desenvolvidas, nos insumos importados. Esse relacionamento da Zona Franca de Manaus com a China é muito mais ampliado do que aparece. Essa parceria tem sido importante. Nos últimos anos, até o governo tem tentado buscar mais investimentos. É muito importante para a nossa pauta, sobretudo porque as grandes empresas que estão surgindo no mundo, na área de tecnologias, são da China. A Amazônia tem que estar antenada para aproveitar essas oportunidades.

Você acha que os governos, estadual e federal, estão atentos para a importância de atrair essas empresas chinesas para a região?

Às vezes, eu tenho a impressão de que a Amazônia é apenas uma pauta de negociação, e não uma pauta de valorização efetiva das nossas potencialidades. Eu acho que às vezes perdemos as oportunidades de entender o jogo mundial. Vamos ter a COP30. A sociedade civil se envolveu bastante com a questão da COP30 em Belém, mas os próprios governos, como o do Amazonas, ficaram meio de fora. A questão do clima é fundamental, e parece que as nossas lideranças ficam à parte disso. Elas estão rodando em outra voltagem. A Amazônia fica apenas em um discurso, mas não se transforma em uma valorização real.

Houve um grande alvoroço quando a empresa de mineração Taboca, situada no Amazonas, mas administrada por uma empresa do Peru, vendeu seus ativos para uma estatal chinesa. Como você avalia essa transação para o Brasil e para a China, considerando que a mina de Pitinga, onde a Taboca atua, também pode explorar o xenotímio, um mineral que contém terras raras?

Infelizmente, virou um debate muito ideologizado. Quando há essa visão politizada, no sentido ruim, as pessoas não enxergam a realidade. A preocupação com as empresas mineradoras na Amazônia, por si só, já é uma questão sensível e merece ter muito cuidado. Levando em conta o contexto do que o Brasil já passou com a mineração, essas transações mereciam e merecem bastante atenção. E levando em conta o histórico da presença das empresas chinesas ao redor do mundo, há estudos que mostram que muitas empresas mineradoras chinesas na África têm negligenciado questões trabalhistas, salariais e ambientais. Então, os impactos ambientais não são mitigados. Mas não é a nacionalidade do país que fará a diferença. Não é uma questão porque a empresa é chinesa. É porque as empresas, no geral, visam o lucro. E o lucro, como a finalidade de uma empresa, às vezes atropela as questões sociais e ambientais. Não é a nacionalidade. Agora, num contexto em que emerge a possibilidade de maiores ganhos, porque as terras raras são um “up” na mineração, elas têm um valor de uso muito mais elevado. São minerais muito úteis para os circuitos eletrônicos, as novas tecnologias, os novos computadores. O Brasil é um dos grandes países. E a China tem as grandes empresas desse ramo. Me parece que aí o Brasil também tem uma oportunidade de negociar e o governo do Amazonas, nossas lideranças, tem uma oportunidade de fazer uma dobradinha com o governo brasileiro, tirando a pauta ideológica, fazendo uma junção de interesses. Qual o interesse da Amazônia nisso, levando em consideração questões sociais e ambientais? Como a Amazônia pode usufruir da mineração das terras raras? O governo federal vai fazer essa discussão em breve, talvez até como pauta de eleição, e o governo do Amazonas precisa estar atento a isso. 

Leia também

Voltar para Geral