Amizades fortalecem a saúde mental e ajudam a combater a solidão
No Dia Mundial do Amigo, especialista destaca que vínculos baseados em confiança e apoio reduzem impactos da solidão e favorecem o bem-estar em todas as fases da vida.
Em uma rotina marcada pelo excesso de trabalho, pela pressa e por conexões cada vez mais mediadas por telas, cultivar amizades verdadeiras pode gerar efeitos duradouros. Especialistas afirmam que relações baseadas em confiança, aceitação e apoio ajudam no desenvolvimento emocional e funcionam como fator de proteção para a saúde mental em diferentes fases da vida.
Relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2025 estima que uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta a solidão. Entre adolescentes e jovens adultos, a proporção chega a uma em cada cinco pessoas. A entidade também relaciona a desconexão social ao aumento do risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e morte prematura.
Nesta segunda-feira (20), quando é celebrado o Dia Mundial do Amigo, a data reforça a importância de discutir os impactos da solidão como uma questão de saúde pública e de valorizar os vínculos como parte essencial do desenvolvimento humano.
Segundo a psicóloga Maria do Carmo Lopes, especialista em saúde mental, a amizade exerce influência desde a infância até a velhice.
“A amizade desempenha um papel central no desenvolvimento emocional e na manutenção da saúde mental durante todo o nosso processo de vida, desde a infância até a terceira idade”, afirma a especialista à reportagem de A CRÍTICA.
Para a psicóloga, é a qualidade das relações que permite que os vínculos funcionem como apoio emocional.
“As relações reais, ou seja, autênticas, que criam vínculos afetivos respeitosos, de aceitação e sem discriminação, são os pilares para que esse desenvolvimento realmente aconteça e se mantenha ao longo da nossa vida”, explica.
Redes sociais x rede de apoio
As redes sociais facilitaram o contato com pessoas em diferentes lugares, mas ter muitos seguidores ou conhecidos não significa, necessariamente, contar com uma rede de apoio.
“Existe uma diferença muito grande entre acumular pessoas conhecidas e ter amizades verdadeiras e autênticas”, destaca Maria do Carmo.
Segundo ela, as interações virtuais podem transmitir uma imagem distante da realidade e incentivar uma busca constante por aprovação.
“Ao longo do tempo, podemos observar que as redes sociais, muitas vezes, apresentam uma conexão irreal e superficial, em que se transmite uma imagem completamente diferente do que realmente somos. Isso acaba anulando nossa identidade apenas para agradar e buscar aceitação. Isso não é real. Não é você mesmo”, pontua.
A psicóloga explica que as amizades saudáveis permitem que a pessoa se apresente como realmente é, sem viver sob o medo constante da rejeição.
“Cultivar amizades verdadeiras é buscar o encontro real e a aceitação de quem realmente somos. Respeito, compreensão e aceitação mútua fazem parte desse processo de amizades autênticas”, afirma.
A percepção também aparece no Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, uma das pesquisas mais antigas sobre saúde e bem-estar. Após acompanhar diferentes gerações desde 1938, os pesquisadores concluíram que relações próximas e satisfatórias estão entre os fatores mais associados à felicidade, à saúde e à longevidade.
Fases da vida
O papel desempenhado pelos amigos muda conforme as necessidades emocionais e sociais de cada fase da vida. De acordo com a especialista, as amizades acompanham o desenvolvimento humano e assumem diferentes funções ao longo do tempo.
“A amizade exerce papéis diferentes ao longo de toda a nossa vida, uma vez que acompanha o processo de desenvolvimento e a busca pela autorrealização em cada idade”, explica Maria do Carmo.
“A começar pela infância e adolescência, quando contribui para o desenvolvimento da identidade, permitindo a expressão dos sentimentos e a aceitação. Já na vida adulta, representa um espaço seguro diante das adversidades e das pressões sociais. Na velhice, quando ocorre a integração da própria história, a amizade ajuda a dar significado à trajetória de vida”, acrescenta.
Solidão
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a solidão como o sofrimento provocado pela diferença entre as relações que uma pessoa deseja e aquelas que efetivamente possui. Já o isolamento social diz respeito à ausência objetiva de conexões suficientes. A entidade estima que a solidão esteja associada a cerca de 871 mil mortes por ano no mundo, o equivalente a aproximadamente 100 por hora.
Para Maria do Carmo, a rotina acelerada e a pressão por produtividade dificultam a manutenção das amizades e favorecem relações cada vez mais superficiais.
“Na realidade, não estamos desaprendendo a construir amizades. Estamos sendo condicionados a priorizar a superficialidade e a produtividade, com grandes prejuízos para a nossa saúde emocional”, avalia.
Ela explica que alguns sinais podem indicar a necessidade de fortalecer a rede de apoio, como a sensação constante de vazio, tristeza persistente, esgotamento físico e mental e dificuldade para enfrentar as adversidades.
“Faz-se necessária uma atenção redobrada quando você se deparar com a sensação de estar só, mesmo estando em um ambiente social, cercado por outras pessoas; sentir o vazio provocado pela ausência de relações reais e autênticas; sentir-se incapaz de lidar com as adversidades, causando tristeza e esgotamento físico e mental. Enfim, perder o sentido da vida”, alerta.
Como reconstruir vínculos
Criar amizades na vida adulta pode ser mais difícil, principalmente após mudanças de cidade, rompimentos, perdas ou longos períodos de isolamento. Ainda assim, a psicóloga afirma que é possível reconstruir os vínculos de forma gradual.
“O caminho mais saudável para essas pessoas é acolher e aceitar a própria história vivenciada e se abrir para a realidade, dando maior valor ao presente”, orienta.
Participar de grupos, atividades culturais, esportivas, religiosas, acadêmicas ou comunitárias pode favorecer a criação de novos vínculos. Para isso, porém, é necessário aceitar algum nível de vulnerabilidade.
“Além disso, participar de grupos e encontros sociais é importante para quebrar essas barreiras, uma vez que a construção de amizades autênticas exige exposição emocional”, explica.
Segundo Maria do Carmo, a principal orientação é evitar construir relações baseadas em personagens criados apenas para conquistar aprovação.
“Portanto, permita-se ser quem você é. Não tenha medo de mostrar sua essência e construir amizades concretas e reais”, conclui a especialista em saúde mental.
Pontos
Reserve tempo para encontrar amigos.
Priorize conversas presenciais sempre que possível.
Participe de grupos culturais, esportivos ou comunitários.
Seja autêntico nas relações.
Não tenha medo de demonstrar vulnerabilidade.
Cultive vínculos com respeito, confiança e reciprocidade.