Baiano decidiu recomeçar a vida em Portugal após sofrer sequestro e tentativa de latrocínio
Nivaldo vendeu seus bens, fez empréstimo e financiou sua imigração
BRAGA, PORTUGAL – Nivaldo Vieira, um baiano natural de Salvador, traz em sua trajetória de vida uma história de desafio, dor, fé e renovação. Aos 46 anos, casado com Letícia e pai de Gabriel e Arthur, ele tomou a decisão de imigrar para Braga, Portugal, em 2025, em busca de um novo começo após um trauma psicológico que deixou marcas profundas em sua vida.
Nivaldo trabalhava como motorista de aplicativo e sobreviveu a um sequestro e uma tentativa de latrocínio que resultaram na morte de quatro motoristas na capital baiana. O trágico episódio o levou a enfrentar crises de pânico e depressão, comprometendo sua qualidade de vida pessoal e profissional.
Além disso, segundo ele, a crescente violência no Brasil, a falta de oportunidades profissionais e sua busca por uma educação melhor para seus filhos foram fatores determinantes na sua decisão de deixar o país. “Depois do trauma, minha vida nunca mais foi a mesma. Buscando paz e segurança, mudei-me para o interior da Bahia. Mas lá ficamos estagnados por cinco anos sem perspectivas. A sensação de insegurança nos acompanhou a todo momento”, relembra.
“Eu fui o único que sobreviveu daquele dia. O que me salvou foi me jogar de um barranco de mais de 8 metros. Os tiros vinham em minha direção, e não consigo entender como saí vivo”, recorda.
Entretanto, sua fé e seu relacionamento com Deus permaneceram inabaláveis. “Deus sempre nos dá o que precisamos, e nas minhas conversas com Ele, escutava frequentemente: ‘Filho, o deserto não é morada, é aprendizado. Estou moldando você para o que tenho de melhor’,” compartilha Nivaldo.
UMA VIDA DE LUTA E PERSISTÊNCIA
Antes de se tornar motorista de aplicativo, Nivaldo acumulou diversas experiências profissionais: atuou como motorista de autoridades, assessor técnico, bombeiro civil, inspetor de segurança, técnico administrativo, agente penitenciário e chefe de segurança, e até conseguiu concluir um curso superior em contabilidade.
Apesar de sua bagagem profissional, o desejo de imigrar surgiu logo após o trauma, aos 41 anos, mas as condições financeiras não permitiram que isso se concretizasse naquele momento. “Nunca nos separamos, somos nós quatro para tudo, e nunca vamos nos separar. Se for a vontade de Deus, estaremos sempre juntos”, afirma, ressaltando que isso se concretizou até o dia da tão sonhada viagem.
Apesar das dificuldades financeiras, Nivaldo sempre encontrou “anjos em forma de gente” que o auxiliaram. “Enquanto aguardávamos a liberação da minha aposentadoria, que demorou 19 meses, pessoas nos ajudaram com doações para nossa alimentação e despesas básicas. Tem muita gente que não posso citar, com medo de esquecer alguém, mas que foram essenciais em momentos de necessidade.”
O SONHO DA IMIGRAÇÃO SE TORNANDO REALIDADE
Com a aprovação de sua aposentadoria, Nivaldo não hesitou em vender seus poucos bens e contrair um empréstimo com juros altos para financiar a imigração”, reflete.
Durante a preparação para a imigração, uma amiga o ajudou na compra das passagens e nas despesas para a retirada dos passaportes em Salvador e do visto de procura de trabalho para ele e sua esposa.
“Não queríamos entrar aqui de qualquer jeito. Esperamos os recursos para tirar os vistos de trabalho adequados antes de viajar. Sabíamos dos riscos e queríamos algo legalizado”, reforça.
Desafios no novo lar
Ao chegarem a Braga, a família enfrentou desafios imediatos. Com recursos limitados, Nivaldo teve que fazer malabarismos financeiros para garantir a moradia.
“Pagamos alguns meses de arrendamento adiantado pelo apartamento de dois quartos. As camas para os meninos vieram de doações. Minha prima, que vive aqui, conseguiu dois colchões para nós,” relata.
Atualmente, Nivaldo trabalha com um extra fixo, enquanto Letícia ainda enfrenta desafios para conseguir emprego.
“Ela precisa de um contrato para obter o NISS, que é a segurança social aqui. Todos os dias oramos para que essa porta se abra. Infelizmente, dependemos de um sistema que muitas vezes não é acolhedor para imigrantes,” desabafa.
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Filhos, sonhos e perspectivas positivas
Nivaldo Vieira vê no esporte uma grande oportunidade para seus filhos.
“Assim que chegamos, inscrevi meu filho mais velho em um clube de basquetebol. Mas a direção gostou da altura do meu filho mais novo, com apenas 12 anos de idade. Ele se destacou, já ganhou competições, jogou na Espanha e foi convocado para a seleção sub-12,” comemora.
O filho mais velho, com 17 anos, por sua vez, segue no mesmo caminho, como técnico do time sub-12 e acabamos de saber que convocado para seleção sub-14.
“Para mim, essa conquista não tem preço”, diz.
Sobre seus sonhos e novas perspectivas, Nivaldo afirma: “Meu desejo é proporcionar o melhor para minha família. Sempre glorificarei a Deus, pois não adianta conquistar o mundo e perder minha salvação. Se eu puder ver meus filhos formados e estabilizados, já será uma vitória. E quem sabe, um dia, poderíamos casar em Paris, apenas eu, Letícia e os meninos em um restaurante chique, com fotos na Torre Eiffel,” brinca.