“Benefício do gás natural no Amazonas ainda é tímido”, diz especialista
Diretor do CDEAM, Rubem Cesar Rodrigues defende maior retorno social nos projetos energéticos no estado e critica falta de planejamento integrado em comunidades beneficiadas
ENTREVISTA | RUBEM CESAR RODRIGUES
Diretor do Centro de Desenvolvimento Energético Amazônico (CDEAM)
Para o diretor do Centro de Desenvolvimento Energético Amazônico (CDEAM), Rubem Cesar Rodrigues, não faz sentido colocar placas solares na casa de uma família que vive com fossa rudimentar e usa fogão à lenha. O exemplo dá o tom de críticas feitas por ele, um dos nomes mais renomados do setor na Amazônia, à exploração de gás natural em Silves.
“Temos esse recurso e temos que explorá-lo, mas tentando tirar o máximo de benefício disso. Aí eu olho: o que o município ganha? O que o Estado ganha nessa ação? Royalties. Onde estão sendo aplicados esses royalties? Pergunte lá em Coari e veja se você vai ver a aplicação desses royalties no município décadas depois”, diz.
O professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético (SBPE) defende que o maior problema do estado não é a questão energética, mas o baixo desenvolvimento socioeconômico.
Para A CRÍTICA, ele também discutiu a possível venda da Amazonas Energia para a Âmbar Energia, do Grupo J&F, destacou as vantagens do estado com a energia solar e defendeu a implementação dos sistemas de medição centralizados, que foram rejeitados por uma grande parcela da população e desencadearam um conflito legal que resultou em uma derrota para a concessionária. Confira.
A Eletrobras confirmou a transferência de termoelétricas para Âmbar Energia nesta semana. Como avalia esse negócio? O que é preciso olhar?
O setor elétrico é bem organizado. A gente possui a Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, que acompanha todos esses processos no sentido de trazer segurança ao consumidor. Então, se houve uma decisão judicial para haver transferência desses ativos, e esse processo está em curso, é um processo que tem que ser feito de maneira lenta, não pode ser feito de maneira apressada, porque você vai entrar com uma equipe nova, ela tem que se inteirar do sistema.
Apesar de existirem diversas termoelétricas no país, cada planta tem suas particularidades, suas especificidades. Então, precisa que a equipe que vai entrar, que vai assumir, mesmo que mantenha boa parte dos recursos humanos, é importante que isso seja feito de maneira criteriosa, demandando um pouco de tempo. E é bom que se faça assim, porque se o outro que está saindo simplesmente apaga a luz e vai embora, aí a população vai sofrer com isso.
Acredito que a ANEEL está acompanhando isso devidamente. A gente não tem um acompanhamento local. Por quê? Porque o estado do Amazonas não tem um convênio com a Aneel para que a Arsepam, que é a Agência de Reguladora de Serviços Públicos, possa exercer essa função da Aneel localmente, o que seria muito interessante. Portanto, a fiscalização é só via Brasília, o que fica mais complicado, mais precário, principalmente porque a ANEEL vem com seus recursos sendo contingenciados há muito tempo, e cada vez numa escala maior.
Ou seja, o consumidor está pagando para que a Aneel cumpra seu papel, mas o governo não repassa os recursos para o órgão regulador cumprir. Então, ela tenta fazer o que é possível à distância.

Frase: “A gente precisa que os sistemas inteligentes de medição sejam implementados, mas isso depende só da concessionária?”. Foto: Jeiza Russo
Diferente das termelétricas, ainda há uma indefinição sobre a transferência da distribuidora Amazonas Energia. Para a população, o que importante é o serviço melhorar e o preço reduzir. Há chance de isso ocorrer após a transferência?
Veja só, a questão da transferência não é uma garantia de que vai melhorar a qualidade. A gente tem que entender por que se deu essa transferência. Havia alguns compromissos contratuais que a empresa não honrou, não conseguiu cumprir.
Então, se a gente pegar, por exemplo, o índice de perdas — e a gente está falando tanto de desvio de energia quanto de inadimplência, porque há esses casos também —, isso requer uma ação da empresa? Sim, mas também requer ação do consumidor. O consumidor que denuncia seu vizinho que desvia.
Depende também de se ver com clareza, com transparência, a medição inteligente que foi vetada aqui. E isso reduz o custo para o consumidor. Por quê? Porque eu posso ligar e desligar remotamente um consumidor, não preciso de uma equipe que é um custo pesado para estar em campo fazendo isso.
Quando a transferência for concluída, o que a nova concessionária precisa priorizar? Onde estão os grandes gargalos?
A gente precisa que os sistemas inteligentes de medição sejam implementados, mas isso é uma coisa que depende só da concessionária? A gente viu que não. A gente viu as ações que foram movidas na Justiça. Então, se não houver um entendimento com a sociedade, não vai poder fazer nada, porque isso vai continuar, ela sendo proibida de instalar esse sistema. Mas ela tem que fazer isso, independente de qualquer coisa.
Ela tem que manter o sistema em condições plenas de operar. Se possuo um transformador que já alcançou sua capacidade máxima, preciso substituí-lo para evitar mais perdas. É necessário trabalhar na poda das árvores, em colaboração com a prefeitura, para prevenir problemas que surgem com a intensificação dos eventos climáticos. A queda de árvores não é um problema que um sistema de inteligência artificial ou de informática consiga solucionar. Você precisa de uma presença física. Então, precisa ter um plano muito concreto para lidar com essas situações.
Atualmente, 14 municípios do Amazonas são ligados ao sistema nacional. Os outros têm energia de maneira isolada, a partir de diesel. Como fazer um bom planejamento energético para essas cidades? É preciso ligá-las ao Sistema?
Estou vendo o movimento do governo, como está tratando o tema. Está interligando onde é possível. Outro ponto é que a empresa que cuida do interior é a mesma da capital. No interior, a gente vai ter produtores independentes, que geralmente são outros entes privados.
O fato é o seguinte: como reduzo o consumo de diesel? Ou reduzo perdas, que são muito elevadas, diminuindo assim o consumo, ou eu interligo. Quando interligo, na verdade, não só reduzo o consumo de diesel, mas reduzo a Conta de Consumo de Combustíveis — um subsídio que todos os consumidores do Brasil estão ajudando a pagar.
O outro caminho é você mexer na forma como está gerando energia. Então, tenho que entrar com outras tecnologias, ou substituo a usina toda, ou faço composição com outra fonte, formando o que a gente chama de sistema híbrido. Agora, o que a gente tem visto é muito pontualmente esses sistemas híbridos.
Temos novos leilões, que são para novas usinas, com participação do gás natural entrando, mas que continua sendo uma fonte fóssil. Embora o gás tenha muito menos emissões, não é limpa e sustentável, como diz o marketing que está na rua.

Frase: “A energia solar é competitiva, porque é incentivada. Não podemos esquecer. A viabilidade existe, porque tem o subsídio”. Foto: Jeiza Russo
Qual é o potencial do Amazonas para a energia solar?
O potencial de energia solar fotovoltaica é significativo. O problema é que algumas pessoas dizem: “Não, porque aqui tem muita nuvem, chove muitas vezes na época do ano”. E fazem uma comparação com o Nordeste. Evidentemente, a gente não vai superar o Nordeste. Mas para aliviar o coração, vamos nos comparar com a Alemanha? Nosso pior caso aqui é melhor em 40% do melhor da Alemanha.
E lá é viável. Portanto, aqui também é. Só que nós vamos ter, como em todo país, locais que têm melhor e outros nem tanto. Mas isso não significa dizer que não é viável. Tecnicamente, não há problema nenhum. Não é à toa que está crescendo exponencialmente aqui a instalação desses sistemas, seguindo o exemplo do que acontece no mundo. Então, não existe essa restrição com relação ao uso da energia solar.
Ela é competitiva, principalmente porque está sendo incentivada. E isso a gente não pode esquecer. A viabilidade dela existe porque tem subsídio. Porque se você tirar, ela não é viável. E é isso que a gente precisa estar atento. Até que ponto o que estamos estimulando? O que estamos subsidiando? É a melhor solução para nós? É o que está agregando maior valor para nós? Ou estamos simplesmente pegando carona no que é melhor para os outros, sem olhar as nossas potencialidades que poderíamos estar explorando e gerando mais riqueza?
É fundamental responder isso, principalmente os gestores públicos, que vão conduzir as políticas públicas.
Historicamente temos a exploração de gás em Coari, mas hoje a novidade é a atividade em Silves e Itapiranga, que alimenta uma usina em Roraima e deve servir para ampliar o uso de gás em usinas no Amazonas. É o investimento adequado para agora do ponto de vista energético?
O gás natural, no mundo todo, é considerado o energético da transição. Por quê? Ele é muito melhor do que usar óleo combustível, diesel, gasolina. Mas não significa que não emite gases de efeito estufa. Emite, é metano. E com um poder de produzir efeito estufa muito maior do que o próprio CO₂ — 21 vezes maior.
Temos esse recurso e temos que explorá-lo, mas tentando tirar o máximo de benefício disso. Aí eu olho: o que o município ganha? O que o Estado ganha nessa ação? Royalties. Onde estão sendo aplicados esses royalties? Pergunte lá em Coari e veja se você vai ver a aplicação desses royalties no município décadas depois.
Então, se não organizar isso, não vai resolver o problema. Você vai ter uma energia, resolve. Mas a internalização do benefício fica muito aquém do que poderia ser. Porque você poderia, por exemplo, nesse município, estar criando um fundo aonde parte desse recurso pudesse ser colocada e estar estimulando o empreendedorismo, pequenos negócios. E tem várias outras formas de fazer uso desse recurso. Mas ele tem que aparecer, e a gente tem que ver o que está sendo feito dele, para transformar a realidade socioeconômica do local.
O nosso problema fundamental não é energético, mas de desenvolvimento socioeconômico. E se eu perder isso de vista, acabo indo para soluções que não são as melhores, que é o que está acontecendo. Vou numa comunidade e vejo lá um painel fotovoltaico instalado numa casa, mas, nessa casa, a família recorre à fossa negra, usa fogão à lenha. É isso o que queremos? Não.

Frase: “Embora o gás tenha muito menos emissões, não é [energia] limpa e sustentável, como diz o marketing na rua”. Foto: Jeiza Russo