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A Crítica
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‘BR-319 é de uma hipocrisia do tamanho da Amazônia’, avalia José Alberto Lima de Carvalho

Professor e doutor em Ordenamento Territorial e Ambiental, ele fala sobre os impactos da seca deste ano e propôs soluções

Publicado em 23/12/2023 às 14h01
‘BR-319 é de uma hipocrisia  do tamanho da Amazônia’, avalia José Alberto Lima de Carvalho
Foto: Arquivo Pessoal

Doutor em Ordenamento Territorial e Ambiental, o professor José Alberto Lima de Carvalho avalia que a seca histórica deste ano demonstrou a importância de se recuperar a rodovia BR-319 (Manaus – Porto Velho) para diminuir a dependência do estado com a navegação.

Construída em 1976 e alvo de gradação nas décadas seguintes, a recuperação da estrada ainda é uma das principais pautas da classe política e empresarial do estado, embora especialistas apontem riscos com a sua repavimentação, como desmatamento e invasão de terras indígenas.

Para José Alberto, que conversou com A CRÍTICA e avaliou os impactos da seca deste ano e propôs soluções, passa pela BR-319 o trabalho de pensar ações que minimizem os efeitos de novas vazantes. A seguir, a entrevista.

Tivemos uma seca histórica neste ano e temos uma memória recente da maior cheia da história, em 2021. Segundo especialistas, esses fenômenos têm se tornado cada vez mais comuns, com um menor intervalo entre cada ocorrência. O que isso significa? Como pode ser explicado?

Isso mostra uma certa complexidade dos problemas regionais que também estão associados à questão global. Temos observado que as cheias estão se tornando cada vez maiores e acontecendo em tempo cada vez menor. Os dados do regime hidrológico mostram que as grandes cheias se tornaram cada vez maiores a partir da década de 70 para cá, de tal forma que temos registrado cheias em um intervalo cada vez menor, ao ponto de chegar, em 2021, na cota de 30 metros. Da mesma forma, as vazantes também estão se tornando cada vez mais regulares. Possivelmente, essa alteração do regime também está associada ao regime climático da região. Ou seja, o regime hidrológico depende muito da distribuição espacial e temporal, no tempo, onde chove e quando chove na Amazônia. Estamos observando anomalias cada vez maiores em tempos cada vez menores. Estou diante dos gráficos e eles mostram, da década de 90 para cá, uma ‘boca de jacaré’. Ou seja, há uma relação da cheia com vazante cada vez maior.

De que maneira isso afeta e afetará ainda mais a população do Amazonas, seja ela da área urbana ou rural?

A cheia tem impactos porque, principalmente a população rural, e também nas cidades do Amazonas, que são, historicamente, ribeirinhas, em função também da expansão das cidades, associadas ao estado social, ocupam áreas que são impróprias, atingidas pelas cheias, de tal forma que essas populações estão sofrendo cada vez mais com cheias maiores. Do outro lado, a população do meio rural, particularmente da várzea amazônica, tem cada vez mais suas terras submersas por mais tempo e com maior frequência. Porém, o problema são as consequências e impactos socioambientais, maiores nas grandes vazantes. Avalio sempre que a seca, a grande vazante, traz muito mais problemas para a população, mais sofrimento, do que as cheias. 

Estamos falando dos impactos. O que poderia minimizar isso são ações do poder público, seja municipal, estadual ou federal? Tivemos o exemplo deste ano, na seca histórica. Qual a sua avaliação sobre a atuação desses entes da gestão pública? 

Estamos falando de fenômenos naturais que, embora para muitos tenham ligação com o aquecimento global, o que, por sua vez, resulta da ação humana, eu tenho lá minhas restrições, mas para amenizar, responder ao problema, vejo muita dificuldade. O que o poder público pode fazer é melhorar, dar mais assistência a essas populações em uma situação como essa, porque não vamos ter como conter terras caídas. Acho difícil conter as grandes cheias, grandes vazantes. O poder público pode agir mesmo ajudando as pessoas, a população ribeirinha, do ponto de vista socioeconômico, financeiro, rancho, porque a ação da natureza não tem como o poder público resolver. Outra coisa na qual o governo pode agir é no que vimos na grande vazante. Ela dificultou muito a navegação e nós não temos os nossos rios sinalizados. Várias embarcações bateram aqui mesmo em frente a Manaus. Quer dizer, não temos sinalização nem em frente a Manaus.

Quais são essas sinalizações, temos exemplos em outros lugares do país, outros países? Quem é responsável por fazer isso?

Não tenho experiência com outros países, mas tenho certeza que estão melhores que o nosso. O rio Madeira é um dos poucos do Amazonas, devido à importância da soja, do transporte, que é considerado hidrovia. O que é uma hidrovia? É um rio sinalizado. Eu pergunto, por que só o rio Madeira? Por causa das balsas. Por que não outros rios? Cabe à Marinha esse papel de sinalização, de dizer onde tem rocha, sinalizar, colocar identificação. Não colocaram nem em frente a Manaus. Em vários locais que agora verificamos afundamento rochoso, não tem uma identificação. Então, isso nós devemos cobrar do poder público. Nesse caso, entenda-se a Marinha do Brasil. Vejo que o Estado do Amazonas poderia, também, trabalhar junto com a Marinha, se o governador tivesse outra mentalidade, chegar com a Marinha, ‘ei, vamos sinalizar isso, estamos colocando em risco a população’. A Marinha cobra tanto segurança dos donos das embarcações, mas eles estão aí batendo em pedras, subindo em praia, porque não tem sinalização.

Temos, a partir de dados, uma previsão sobre como devem ser a cheia e seca do próximo ano? Já se sabe, por exemplo, que o El Niño ainda vai influenciar o clima da região em 2024.

O que dá para dizer é que os dados mostram que as cheias, por tendência, estão em uma crescente evolução. Falar em previsão me deixa com o pé atrás, porque a natureza é muito dinâmica, mas considerando essa linha de tendência, a gente observa que as cheias vão se tornar cada vez maiores. Já chegou a 30 metros. Acredito que daqui a uns 5 anos chegue de novo. Já se sabe que a terra está aquecendo, que as geleiras estão derretendo, que o nível do mar está se elevando, tudo isso se sabe. Então, isso vai afetar o regime hidrológico, ainda mais porque continuamos em um processo de desmatamento numa escala que já deveria ter caído muito. Além do aquecimento global, o desmatamento vai alterar a permanência da água na bacia hidrográfica amazônica. A água, em sendo alterada na sua dinâmica, tem impacto de várias ordens. 

Qual a relação entre desmatamento e a bacia hidrográfica amazônica?

É fundamental. Digo sempre para os meus alunos que a água é o principal elemento de uma bacia. A floresta retém água. Ela desmatada, com terrenos secos, a água entra no sistema e sai muito rápido. Ela vai chegar mais rápido nos rios, tendendo a encher mais os rios. Ou seja, com o desmatamento, há uma diminuição do tempo da água no sistema, porque esse tempo fica acelerado. Se você constrói uma estrada, a estrada atravessa verticalmente o igarapé, aí jogam terra lá, retém a água para cima e o igarapé morre de uma vez. 

Pessoas que são contrárias à recuperação da BR-319 entendem que a repavimentação da rodovia poderia prejudicar, também, o sistema de chuvas, o que afetaria não só a região, mas até mesmo outros locais do país. O senhor entende dessa forma?

Não. Eu sou um extremo defensor da revitalização dessa estrada. Já tive embates, até xinguei um colega nosso, porque, eu acho que a BR-319 é de uma hipocrisia quase do tamanho da Amazônia. Eu não aceito que se utilizem esses argumentos, porque várias estradas já foram construídas. O problema aí é político. A BR-319 tem de ser recuperada por todas as razões que sabemos. Só vai haver invasão, desmatamento lá, se o poder público não se impor enquanto Estado. O Estado tinha que ter força para dizer, ‘olha, aqui não pode’ e acabou-se. A estrada já foi construída. 

Dá para fazer a estrada respeitando os rios, lagos, sem prejudicar o regime hídrico?

Essa seca mostrou isso agora. Nós ficamos na extrema dependência do transporte fluvial, que o rio secou muito e os navios não estavam chegando. Um dia desses eu fui comprar um saco de cimento e não tinha, ninguém tinha porque o navio não estava entrando no rio Amazonas. Você quer mais exemplo do que isso? Agora que chegou o navio. A gente fala de coisa mais geral, acadêmica, mas se você ver o nosso dia a dia, a falta de cimento na cidade. Isso mostrou mais claramente a necessidade de construir essa rodovia. 

A seca também mostrou outro problema. A insegurança hídrica, ou seja, falta de acesso à água potável para amazonenses, o que é quase uma ironia, considerando termos as maiores reservas de água doce do mundo. De que maneira o senhor observa isso e, especialmente, como solucionar esse problema?

Essa situação não é nova. Na seca de 2010, eu não estava em Manaus, mas soube que estavam levando água para Manaquiri de helicóptero. Parece uma ironia mesmo, contraditório, termos a maior bacia hidrográfica, água à vontade, e um dos maiores problemas da população do vale amazônico ser falta de água potável. Por quê? Porque durante a vazante a água fica escassa, sem qualidade. Cavar poço na várzea é muito complicado e aí teria que falar da formação geológica. Essa várzea, para você ter água de qualidade, só a partir de 80 metros, 120 metros de profundidade. Isso é caro, não é fácil. Como resolver? O poder público fazer mais poços nas cidades. 

A água é um direito universal. O senhor falou que cabe ao poder público, mas quem especificamente? Dá para nomear?

Entendo que ao governo do estado cabe a maior responsabilidade de se relacionar com o federal para adquirir verba e articular com os prefeitos para construir uma política de oferecimento de água com qualidade nessas áreas em que há falta. Lá em Envira, por exemplo, só as instituições públicas têm poço. As pessoas fazem seus poços manualmente com 10, 12 metros de profundidade e há pouca qualidade na água. Esse problema se repete em outras regiões do estado. Não tem água de qualidade canalizada que atenda a população.

Perfil

Nome: José Alberto Lima de Carvalho
Estudos: Geografia (Ufam)
Experiência:  Doutor pelo Programa “Ordenamento Territorial e Ambiental”, da Universidade Federal Fluminense e mestre pelo Programa Sociedade e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). É professor do Departamento de Geografia da Ufam.

 

 

 

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