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Caravana de mulheres se prepara para ‘COP paralela’ em 2025

Objetivo é mostrar a líderes mundiais que moradores, especialmente as mulheres, não são apenas ‘jardineiros da floresta’

Publicado em 05/12/2024 às 16h38
Caravana de mulheres se prepara para ‘COP paralela’ em 2025
Foto: Daniel Brandão

Ativistas se preparam para organizar caravanas de mulheres ecofeministas rumo a cidade de Belém em 2025, onde será realizada a 30ª edição da Conferência das Partes (COP-30). O objetivo, segundo doutora em Ciências Sociais Iraildes Caldas, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), é mostrar aos líderes mundiais que estarão presentes no evento o trabalho realizado pelas mulheres da Amazônia, mostrando que os moradores da região não são apenas “jardineiros” da floresta, mas sim “os sujeitos centrais de conservação e preservação”.

“Nós vamos para a COP paralela, nós vamos mostrar o que é o feminismo da Amazônia. Nós vamos mostrar para esses países que vêm ali, para a cúpula, qual é o trabalho dessas mulheres, como elas são protagonistas, como elas são fortes e ai da Amazônia sem nós”, disse.

A informação foi apresentada nesta quinta-feira (5) durante o segundo dia do 8º Encontro de Estudo sobre Mulheres da Floresta (Emflor), evento realizado na Ufam para debater questões de gênero, equidade e ecofeminismo, conceito que trabalha a presença das mulheres dentro da floresta para conservá-la. Para A CRÍTICA, a docente destacou que virão mulheres de várias etnias principalmente de municípios do interior do Amazonas como São Gabriel da Cachoeira, Maués e Tefé.


Iraildes Caldas, doutora em Ciências Sociais e docente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) (Daniel Brandão)

 

“Também vão ter cientistas mulheres daqui, da cidade também. Nós queremos reunir e vamos ver como fazer o financiamento dessas mulheres. Nós queremos reunir uma tenda enorme, em torno de 100 mulheres, para demonstrar no ecofeminismo amazônico como que a conservação e a preservação da natureza, da terra, da água e da floresta é feita por essas mulheres”, explicou.

A COP paralela, via de regra, é um evento que não é dentro da cúpula oficial do evento. Ela reúne tendas e outros espaços que irão discutir a Amazônia por meio de movimentos sociais, organizações da sociedade civil (OSC) e partidos políticos. Durante sua fala no evento de hoje, Iraildes Caldas ressaltou o trabalho realizado pelas mulheres ligadas à natureza que acabam por preservar a floresta e a cultura da Amazônia “de forma espetacular” em vez de explorá-la de forma predatória.

“É uma ideia que perpassa por toda a Amazônia profunda, dessas mulheres que estão lá nos mais distantes lugares, nos mais distantes rincões, fazendo práticas ligadas à natureza, à Mãe Terra, à floresta. São as parteiras, as que trabalham com mel de abelha, as mulheres benzedeiras, as mulheres quebradeiras de coco de babaçu, são as agricultoras, as pescadoras, as oleiras que fazem vasilha de barro, as que estão na base e no trato da terra”, elencou.

Vivência

O pesquisador Adson Bulhões, tutor educacinal do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manacapuru e parte do grupo de pesquisa que realiza o evento, afirmou à reportagem que também participará da COP paralela em 2025 levando a pauta do ecofeminismo e trazer “para a órbita da ciência aquele sujeito que sempre foi invisibilizado, que a ciência não considera que os seus conhecimentos como um saber válido”.


Adson Bulhões, pós-doutor e tutor educacional do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manacapuru (Daniel Brandão)

 

“O ecofeminismo parte do princípio de evidenciar as práticas dessas mulheres rurais, colocando como base da sociedade, das comunidades e o seu protagonismo dentro daquilo onde elas vivem. Manacapuru tem várias colônias de pesca que são capitaneadas por mulheres. Por exemplo, a base da minha pesquisa foi numa vila chamada São Francisco do Arapapá, onde a base da alimentação é peixe e camarão, e essa pesca é feita por mulheres que trouxeram esse saber desde os seus avós e bisavós”, disse.

O especialista considerou os coletivos conseguirão mostrar aos líderes mundiais a importância dessas pessoas para a preservação ambiental da Amazônia, ressaltando que o atual governo federal possui ministérios capitaneados por mulheres e indígenas que participarão da COP-30 oficialmente.

A pesquisadora Sofia Maria de Oliveira levou outro exemplo dessas vivências locais para o evento ao apresentar sua pesquisa sobre o protagonismo das mulheres do povo borari, em Alter do Chão, distrito do município paraense de Santarém, além de outros 12 povos que lutam pelo reconhecimento do local como terra indígena.

“Para essas mulheres, a natureza faz parte do cotidiano. É uma relação de equidade entre elas e a natureza. Não tem uma hierarquia em que o ser humano é melhor do que a natureza. Pelo contrário, é uma relação de respeito com o seu território”, mostrou.

Conceito

O termo “ecofeminismo” nasceu na década de 1970 para nomear a atuação de mulheres em movimentos ambientais voltados para preservação se conservação. A luta surge do fato de as mulheres representarem pelo menos 80% das pessoas que são obrigadas a abandonar seus lares e se refugiarem em outros lugares devido aos problemas causados pelas mudanças climáticas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

A professora Iraildes Caldas citou no evento o trabalho da pesquisadora indiana Vandana Shiva, que inaugurou o movimento em seu país. Lá, as mulheres abraçavam as árvores para impedir que os invasores as cortassem. No Brasil, os ambientalistas Chico Mendes e Marina Silva fizeram esse movimento especialmente no município de Xapuri, no Acre.

Expectativa

Esse novo movimento participativo coloca ainda mais pressão na COP-30 após frustrações de movimentos sociais com os desdobramentos da COP-29 em Baku, capital do Azerbaijão. O Fórum Internacional de Povos Indígenas sobre Mudanças Climáticas condenou os resultados finais do evento, afirmando que não havia nada a comemorar.

Uma das razões foi a retirada de garantia dos direitos aos povos indígenas na versão final da Nova Meta Quantificada Coletivas sobre Financiamento Climático (NCQG), que prevê US$ 300 bilhões anuais até 2035 aos países em desenvolvimento.

“Nossas terras, águas e territórios estão derretendo e queimando. Nossos povos estão sofrendo. Não podemos mais esperar. Não há transição justa sem que os direitos dos povos indígenas sejam totalmente respeitados. Todas as ações de adaptação e transição justa devem nos reconhecer como os parceiros cruciais e iguais – os detentores de direitos – que somos”, afirmou o Caucus Indígena, plataforma oficial dos povos na COP.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Mário Astrini, chamou a presidência da COP-29 de “desastrosa, perdendo apenas para o conteúdo do texto aprovado”, considerado por ele como insuficiente para solucionar qualquer crise climática.

“O desfecho de Baku escancara que os países ricos fogem de qualquer responsabilidade, além de deixar aberta a conta do financiamento. A COP-30, sob a liderança do Brasil, terá que ser muito competente e dedicada para preencher as lacunas deixadas por esta conferência, promover o avanço de ambição e manter o objetivo de 1,5 °C”, disse.

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