Carioca e indígena amazonense vivem união que superou preconceitos e fronteiras
Mayra Gomes e Henrique Gil transformaram um encontro improvável em uma vida a dois marcada pela valorização das culturas e pela resistência nas redes
Contam os povos indígenas que Sol e Lua viviam um amor impossível. Quando um surgia no horizonte, o outro se despedia, condenados a se amarem à distância. A natureza, num gesto de compaixão, promoveu um encontro para que pudessem viver seu amor. Este é um conto símbolo da harmonia entre opostos e da força dos encontros que desafiam a distância e o tempo.
Inspirado por esse imaginário amazônico, A CRÍTICA visitou a Comunidade Indígena Tatuyo, a 34 quilômetros de Manaus, para conhecer a história da influenciadora Mayra Gomes, do povo Tatuyo/Wanano, de 26 anos, e do carioca Henrique Gil, de 25. Um relacionamento que floresceu entre culturas, conectando o urbano e o ancestral em uma relação que venceu distâncias e costumes.
O casal se conheceu em 2022, quando Mayra estava no Rio de Janeiro realizando um trabalho para uma plataforma internacional de streaming. Henrique, então apenas um seguidor entre milhares, decidiu mandar uma mensagem e foi surpreendido com a resposta.

(Foto: Jeiza Russo)
“Era apenas um fã, não tinha nenhuma segunda intenção. Quando ela estava no Rio fazendo um trabalho, mandei mensagem mas não esperava que ela fosse responder. Quando voltava da praia, apareceu a notificação: ‘Mayra Gomes, Cunhã-Poranga, respondeu você’. Começamos a conversar e marcamos de nos encontrar na praia do Leme”, contou Henrique.
Na cultura dos povos do Alto Rio Negro, como os Tatuyo e Wanano, o casamento intertribal faz parte de uma rede de alianças socioculturais que fortalecem a convivência entre etnias. Ainda assim, os pais de Mayra se preocupavam com quem ela se relacionaria — e se mostraram felizes ao conhecer Henrique.
“Na nossa cultura o casamento acontece entre etnias diferentes. Meus pais se preocupavam com quem eu iria conhecer nas outras etnias. Quando você se casa com um indígena diferente, ou ele é bom ou ele é ruim. Não somente no físico, mas no espiritual. Quando eu falei que estava namorando o Henrique, eles ficaram muito felizes”, explicou Mayra.
Antes de se mudar definitivamente para o Amazonas, Henrique passou três semanas na Comunidade Tatuyo. A curiosidade e o respeito pela cultura foram essenciais para a decisão de mudar de vida.
“Sempre gostei da cultura e da vida indígena. Desde pequeno, sentia uma conexão com a Amazônia. Quando tive a oportunidade, vim conhecer a comunidade dela. Assim que voltei para o Rio, a primeira coisa que minha mãe perguntou foi se eu iria morar aqui”, contou.
A decisão de viver juntos na comunidade veio em comum acordo. Mesmo com oportunidades no Sudeste, Mayra se preocupava com sua produção de conteúdo, mais conectada ao cotidiano indígena.
“Ele me perguntou como seria se viesse morar aqui. Essa era uma preocupação minha, pois no Sudeste eu não teria conteúdos para produzir, apesar dos muitos convites de trabalho. Então decidimos vir juntos para cá. Falei que ele seria aceito e que não teria problemas”, salientou.
Apelidado de “cacique pena quebrada” pelos indígenas, Henrique passou por uma espécie de iniciação: participou do Ritual da Chicotada, aprendeu com o sogro e integrou as atividades da comunidade.
“Eu participei do Ritual da Chicotada. Me emocionei muito e fui aprendendo. A partir das histórias que o meu sogro conta, aprendi mais da cultura. E ele me convidou para participar, dançar e tocar. Fui aprendendo a tocar os instrumentos. Aos poucos fui pertencendo mais à comunidade”, disse.
A recepção inicial foi de cautela. Segundo Mayra, os indígenas são reservados, e a adaptação de Henrique foi gradual.

(Foto: Jeiza Russo)
“Nós indígenas somos muito reservados. Quando ele chegou aqui, a comunidade como um todo ficava só observando de longe. Aos poucos eles foram se acostumando, conversando, incluindo nas atividades. Eles aceitaram”, relatou.
O relacionamento é um símbolo de que fronteiras geográficas e culturais podem ser superadas com afeto e respeito. Mais do que uma união afetiva, é um exemplo de aprendizado mútuo e valorização das raízes.
Hates nas redes sociais
Como criadora de conteúdos voltados à cultura Tatuyo e Wanano, Mayra enfrentou críticas nas redes após assumir o relacionamento com Henrique. Os ataques levaram a influenciadora a se afastar temporariamente das redes.
“Nós sofremos muitas críticas no início. Pessoas falando que me relacionando com um ‘homem branco’, eu iria perder a cultura, minhas raízes e minha ancestralidade. Teve um tempo que até deixei de postar por causa disso. Mesmo sendo forte, nós sentimos e aquilo fez com que desse um tempo das redes”, revelou.

(Foto: Jeiza Russo)
Diante das críticas, Henrique chegou a se questionar se estava atrapalhando a trajetória de Mayra, chegando a considerar o término da relação.
“Teve um momento em que eu me senti como se estivesse atrapalhando ela. Nunca cheguei a comentar com ela, mas que não daria certo por conta disso, por conta desses comentários. Haviam muitas pessoas que apoiavam, mas também tinha quem não gostava. Era sempre um ou outro negativo que batia mais”, revelou.