Conflito pode derrubar exportações do AM
Um possível conflito entre EUA e Venezuela impactaria exportações do Amazonas e Roraima e intensificaria crise migratória
A tentativa dos Estados Unidos de derrubar o regime de Nicolas Maduro na Venezuela, que já conta com um saldo de 87 mortes confirmadas, afetaria diretamente as exportações do Amazonas para o país vizinho e provocaria uma crise migratória na região ainda pior do que as anteriores. Essa é a avaliação de especialistas ouvidos por A CRÍTICA.
A mais recente escalada da tensão ocorreu na noite de ontem, quando o presidente Donald Trump ordenou o bloqueio de todos os navios petroleiros sancionados que chegam e saem da Venezuela. A justificativa dos norte-americanos é de que o petróleo está embargado por, dentre outras razões, financiar o regime de Maduro.
Antes disso, os norte-americanos já haviam enviado 15 mil homens ao mar do Caribe, deslocado o maior navio de guerra do mundo (o USS Gerald R. Ford) e matado 87 pessoas em ataques a embarcações que acusavam, sem apresentar provas, de transportar drogas.
Doutor em Ciências Sociais, o professor de Relações Internacionais João Carlos Jarochinski Silva avalia que um possível conflito direto na Venezuela causaria um efeito cascata sobre a região. No caso do Brasil, os danos mais próximos seriam sobre os dois estados ligados à Venezuela pela via terrestre, Amazonas e Roraima, que também guardam forte relação econômica com o país vizinho.
“Se você buscar a balança comercial de Roraima e do Amazonas, a venda para a Venezuela tem bastante relevância. É o principal destino de exportação desses estados. Então, você tem uma série de motivos para evitar um conflito, mas, principalmente, você não quer um conflito na sua área de influência e ainda mais num país vizinho, por conta das consequências possíveis”, avalia.
Segundo a balança comercial do Amazonas, a Venezuela é o quinto maior parceiro comercial mundial do estado e o terceiro nas Américas (a frente inclusive dos Estados Unidos, que é o quarto). Entre janeiro de 2022 e novembro de 2025, foram US$ 308 milhões em exportações, o
O valor acima representa 8,71% de todas as exportações do Amazonas. Os principais produtos exportados para a Venezuela são alimentícios, como farinhas, misturas e pastas para produtos de padaria, açúcares, óleo de soja e margarina, entre outros.
No caso de Roraima, a dependência é ainda mais acentuada. De acordo com a balança comercial de 2024, o estado exportou US$ 144,9 milhões (cerca de R$ 787 milhões) para a Venezuela, que se mantém como seu principal parceiro comercial e responde por aproximadamente 40% de todas as vendas externas roraimenses.
MIGRAÇÃO
Outro impacto possível de um eventual conflito na Venezuela é o agravamento da crise migratória na região. Desde a ascensão de Maduro ao poder, em 2013, a saída de cidadãos venezuelanos para outros países tem crescido de forma contínua, com picos mais agudos em 2015 e 2017.
Doutor em sociologia e pesquisador da sociologia da globalização, o professor Cleiton Maciel diz que uma guerra na Venezuela poderia provocar ondas migratórias similares ao que se viu mais recentemente em Gaza e na Ucrânia.
“Uma guerra entre Estados Unidos e Venezuela provocaria um processo migratório que eu imagino que não seja nem comparável com o que aconteceu há mais de dez anos. É um processo de migração que se intensificaria ainda mais”, avalia.
EUA querem recuperar influência
Apesar do destaque para os estados mais próximos da fronteira, a possibilidade de um conflito envolvendo a Venezuela teria efeitos muito mais amplos do que as pressões comerciais e o aumento dos fluxos migratórios.
Segundo o professor João Carlos Jarochinski Silva, qualquer escalada bélica na região impactaria diretamente a dinâmica fronteiriça, econômica e diplomática do Brasil.
Por isso também ele enxerga que o governo brasileiro tem dado atenção especial ao tema, inclusive o colocando como um ponto de discussão no diálogo que tem realizado com os Estados Unidos desde o início das conversas diretas entre os presidente Donald Trump e Lula.
Já o professor Cleiton Maciel ressalta que a atenção dos Estados Unidos para a América Latina está no contexto de perda de influência dos norte-americanos a partir da crise econômica de 2008 e a maior presença chinesa na região.
“A Venezuela é um exemplo exemplo clássico da presença chinesa e da influência russa também. Então, na essência, é uma guerra geopolítica. Se tiver uma luta concreta, ela já foi antecipada por uma disputa geopolítica, porque os Estados Unidos querem de volta o velho slogan da América para os Estados Unidos”, pontua ele.
Contradições existem
João Carlos ressalta que há fatores estruturais que tornam qualquer intervenção dos Estados Unidos na Venezuela mais complexa do que parece. Ele lembra, por exemplo, que os dois países mantêm relações econômicas relevantes mesmo em meio aos embargos.
“Os Estados Unidos compram uma quantidade considerável de petróleo da Venezuela, mesmo sob o governo Maduro. Existe uma linha de exploração que liga quase diretamente a Venezuela ao Texas”, afirma. “São inimigos, mas fazem negócios.”
Outra barreira importante, segundo o analista, é o baixo apoio interno dentro dos próprios EUA a ações militares no exterior. “Qualquer tipo de intervenção como essa não tem tido muita popularidade”, observa. Pesquisas de opinião mostram que o público norte-americano tem se mostrado crítico a operações externas prolongadas.
Por outro lado, Jarochinski destaca que parte do eleitorado latino, tanto nos EUA quanto fora, demonstra certa legitimidade à possibilidade de uma ação mais dura contra Maduro. “Há, de certa forma, um aceite, uma percepção de que seria uma ação necessária”, explica.
Ainda assim, ele reforça que uma incursão militar envolve incertezas elevadas. “Você pode até fazer uma intervenção contando com algumas probabilidades, mas ela pode dar errado e se arrastar por muito mais tempo do que o planejado”, conclui o professor.